09 de julho de 2026
Articulistas

Aperto de mão

Roberto Magalhães
| Tempo de leitura: 3 min

Sou uma pessoa conservadora. Mais ainda, formal. Disso me orgulho, ainda que caras e focinhos se entortem diante dessa minha maneira de ser. Por que ignorar regras? Desprezar ritos? Desconsiderar tradições? Sem a solenidade dos atos, nada para em pé. Hoje ninguém respeita ninguém? Cadê o antigo e salutar olho no olho? Cruz credo! Todos hipnotizados pelo celular. Não se percebe sequer quem está ao lado. Nossa cara tem dono e senhor, dominados que estamos pela telinha digital. Não me aceito emparedado dessa forma. Converso cara a cara, ouço com atenção o que me dizem e, quando seguro a mão de quem quer seja, aperto-a com a força da minha afetividade. Bem diferente dessas mãos moles que nos oferecem apenas as pontas dos dedos, para rapidamente retirá-los, como se nojo de nós tivessem.

Diria que num forte aperto de mão é que se conhece a intensidade do afeto das pessoas. Assim penso e disso não abro mão. Sou formal sim! Gosto de pingar todos os is, condeno essa modernidade do vai de qualquer jeito. Além de conservador e formal, cuidadoso também sou. Fecho as portas e as janelas da casa toda noite e , depois, confiro tudo pelo menos umas quatro vezes. Preciso ter certeza do que faço. Isso tem nome: responsabilidade. Sou um cara, como diz a canção do Roberto, à moda antiga.

Minha filha Marininha, a minha princesinha, já foi cooptada por esse mundo apressado e sem regras. Apaixonada, não sabe esperar. Fica me pressionando, quer trazer o moço aqui em casa para eu conhecê-lo. Calma, filhinha, as coisas não podem ser de qualquer jeito. Pelo que me diz, o Dr. Marcos, para ela Marquinho, é uma pessoa especial: jovem cirurgião plástico com rentável clínica especializada e, mais ainda, de família tradicional de Porto Alegre. Me dê o tempo necessário, filha, para deixar tudo bem planejado. Preciso fazer um empréstimo no banco, reformar a casa, trocar alguns móveis e, estando tudo em ordem, faremos um belo jantar para o Dr. Marcos com toda solenidade que ele merece. Em seguida, faremos outro, no mesmo nível, para tão nobre família.

Uma semana depois, lá estava eu num lançamento imobiliário da empresa em que sou corretor. Reunião descontraída, perspectivas animadoras de venda, dezembro, muito calor. Consequentemente, muita cerveja.

Cerveja entra fácil, mas logo pede saída. Busquei o banheiro. Aliviava-me urinando, dando-me conta de que cerveja é bom demais, mas urinar... vixe!!! Foi quando um moço do meu lado, urinando também, inoportunamente me dirigiu a palavra. "O senhor não é o Seu Roberto, pai da Marininha? Eu sou o Marcos, o namorado dela." Entrei em parafuso. Que situação! Nunca na minha vida estive tão exposto. Quando isso acontece, perco a noção das coisas, fico idiota e sempre faço o pior. Larguei aquilo que, com a mão direita, estava segurando e a estendi reverencialmente para cumprimentar o Dr. Marcos, que me devolveu um olhar glacial. Na recusa dele, percebi que a minha conduta não era nada higiênica. Humilhado, recolhi a mão "suja" e lhe pedi desculpas pelo desacerto.

Queria conhecê-lo num jantar solene. Queria toalha de linho e talheres de prata. Queria o melhor champanhe. Queria apertar-lhe a mão decentemente. Queria tanta coisa... Mas de que vale o meu querer? É a vida quem quer e só ela decide.

A vida gosta de brincar com o inesperado que tanto nos desarruma e nos deixa completamente perdidos. Não gosta de formalidades, não gosta de ordem, faz o que dá na telha, não pede licença, vai de qualquer jeito, que é o jeito de ela ir e com ela nos levar. Foi assim que conheci o meu genro Dr. Marcos, moço bom, já me deu três netos. Mas nunca vou desculpá-lo pela sua absurda informalidade. Não poderia esperar um tempinho mais, até que saíssemos, com as mãos limpas, daquele maldito banheiro? Por culpa exclusivamente dele, todo o meu planejamento formal para conhecê-lo ruiu. Jamais poderia imaginar que tudo acontecesse da pior forma possível. Num reles banheiro e numa informal mijada a dois.

O autor é professor de redação e autor de obras didáticas e ficcionais curso_romag@uol.com.br