'Filha do medo, a raiva é mãe da covardia'
A sociedade encontra-se determinada pelos efeitos da crise estrutural do capitalismo e sente suas consequências. Vivemos o medo como afeto político: temos medo de perder o emprego, medo de não conseguir trabalhar, medo de perder o pouco conquistado, medo de perder a casa, medo de não sair do aluguel, medo de não conquistar nenhum trabalho, medo de não atingir a meta. Temos medo das pessoas, mais medo das pessoas mais pobres, medo de não ter companheiros, medo de que filhos, filhas ou avôs morram sem atendimento à sua saúde. Medo de morrer pela violência incorporada nas pessoas, medo de piorar ainda mais a vida. Esses medos todos se entranham nas pessoas e tornam-se ódio. Ódio aos políticos e à política, revolta contra o estabelecido. Rebelião contra o que existe, negação do mal-estar cotidiano. A sensação de insegurança e instabilidade desestabiliza as pessoas, seus afetos e sua prática.
O problema tem bases reais, visto que a sociedade atual não é capaz de integrar todos os seres humanos aos seus benefícios, e ainda, vem implementando um projeto econômico e político que aprofunda as dificuldades da vida da maioria. Os poucos que trabalham com algum direito, trabalham cada vez mais tempo e em condições cada vez mais precárias, muitos que trabalham na informalidade não possuem nenhuma proteção. Os que lutam para conquistar trabalho não veem perspectiva. Os que seguem o receituário da competição buscam se conformar a todo custo às novas medidas impostas pelos danos causados pela crise: engolem o discurso da naturalização da desumanidade e mesmo assim nunca ganham de fato. As pessoas estão desempregadas, não são ouvidas, não encontram prazer nas atividades diárias, não encontram apoio nos laços sociais, não conquistam meios de expressar efetivamente a revolta, sentem medo do futuro. A vida vai perdendo o sentido. A energia da vida se orienta para a mera subsistência. Sub-existência.
O desconforto, a angústia, a desestabilização não têm explicação fácil. É imensa a dificuldade de compreender as determinações que desorganizam a vida, de se autocompreender no mundo. Não tendo tempo nem recursos para decifrar este enigma, as pessoas tornam-se vulneráveis à armadilha das explicações fáceis e das soluções mágicas, que categorizam o mundo: os cidadãos de bem contra os bandidos, os taxados pelo sistema contra os folgados, os não reconhecidos pelo esforço contra os oportunistas. Nesta lógica do sim e do não, identificam-se os inimigos, aqueles que seriam os responsáveis pelos desaforos e maus-tratos cotidianos. Uma vez identificados, conclui-se pela solução mais pragmática: a vida vai melhorar com a eliminação do outro. Elimine-se o bandido, o protegido e o desonesto! Eliminem-se os humanos que estorvam! Assim eliminam-se os direitos humanos. Direitos e humanos.
Idolatra-se a figura do líder que promete proteger o suposto abandonado, onerado e correto. O líder centralizador resolveria, enfim, o problema. A centralização resolveria o problema dos ditos atrasos do debate democrático com a imposição da visão de mundo única. Ele, o idolatrado, tem a coragem de afirmar o lugar da mulher com a misoginia, o lugar do homossexual com a homofobia, o lugar do negro com o racismo, o lugar do índio derrotado pelos europeus, o lugar dos pobres na subserviência naturalizada. Aos que desconfiam, discordam e se recusam a obedecer e a colaborar, justifica-se a perseguição, a violência e a morte. Esse filme já está em cartaz em nosso país, assistimos cenas de espancamento e assassinato ocorrendo sistematicamente aqui e ali nas últimas semanas: o estudante, a servidora pública, a travesti, o mestre de capoeira, a vereadora, o militante.
A situação retratada sintetiza-se em crise econômica, idolatria a um líder visto como salvador da pátria e da família, descaso pela democracia e pelos direitos humanos, desprezo pela verdade dos fatos e a perspectiva de eliminação dos opositores. A prática política de aplicação da violência e da mentira para salvaguardar a estrutura econômica injusta e desumana ficou conhecida na história com o nome de fascismo e se liga a figuras como Hitler e Mussolini. Pessoas comuns negam a barbárie atual projetando barbaridades: vislumbrando o futuro de tortura, perseguição e mais violência.
A conjuntura do Brasil nas eleições de 2018 apresenta como uma das alternativas este atraso. Projeta-se o aprofundamento da violência, do medo e da intransigência no campo político a partir do fortalecimento do aparato repressivo do Estado. Esfumaçada pelo fantasma da repressão e da violência encontra-se a perspectiva de aprofundar a dominação e a exploração econômica em níveis ainda mais desumanos: a crise de lucratividade do capital vai ser paga com o sangue, o suor e o desamparo do trabalhador. O engajamento do grande empresário com esta candidatura não é ingênuo!
Os impostos subirão para os mais empobrecidos e as grandes fortunas continuarão intactas, as escolas públicas estarão cerceadas em seus conteúdos e empobrecidas de conhecimentos, o sistema público de saúde estrangulado economicamente e os planos privados mais caros, as relações de trabalho, com os direitos trabalhistas já revogados, tornarão a exploração ainda mais cruel, com consequências para a saúde do corpo e da mente do trabalhador. Projeta-se para breve o desmantelamento da previdência social em contexto de legitimação da violência contra qualquer opositor. As desigualdades e as injustiças começam a aprofundar a crueldade contra a pessoa comum e os conflitos surgirão! A lógica econômica de busca desregrada pelo lucro faz aliança com a violência e a repressão para se manter respirando.
O eleitor simpatizante deste projeto não necessariamente tem consciência do que seja fascismo, apesar de ter a responsabilidade de projetar o futuro de atraso para o Brasil. Entre os eleitores engajados na candidatura de Bolsonaro, existem os que já se anteciparam nas ações de violência contra os opositores. As ideias violentas defendidas por esta candidatura pioraram a segurança pública. Os defensores da liberdade de mercado circunscrevem o direito à manifestação política e atacam as pessoas na rua. Ao invés do debate de ideias, a estratégia política sistematicamente organizada é atacar os que pensam diferente. As relações sociais já estão mais brutalizadas e as pessoas mais amedrontadas, visto que os violentos sentem-se autorizados, protegidos e impunes.
Os profissionais da mentira são bem pagos para viabilizar este projeto e sabem o que fazem. Produzem materiais para a internet para confundir as pessoas. O eleitor desavisado encontrou o espaço para ser ouvido e tem a ilusão de participar das decisões pelas redes sociais. Ativamente socializa as mentiras planejadas por outros para produzir obstáculos à compreensão do mundo. A aposta é enganar e confundir a população pelo método de veiculação intencional e sistemática de mentiras, hoje denominadas fake news. O militante da direita está municiado de mentiras! Veicula desumanidades sem qualquer crítica e defende sem refletir a desumanidade. Não sabe o que faz, mas faz! Não sabe o que faz, mas faz contra si mesmo! A destruição da moça estudiosa e comprometida com a população das favelas foi simbólica, como foi a destruição da placa em sua homenagem. Destroem a placa da defensora dos direitos humanos, mas não podem acabar com os princípios humanos. A luta pela humanidade encontra-se forte!
Nós dos grupos de estudos e pesquisas NEPPEM e Psicologia Histórico-Cultural e Saúde Coletiva, em virtude da conjuntura política do capitalismo no Brasil e no mundo, avaliamos que devemos nos contrapor aos movimentos sociais fascistas que se encontram organizados e financiados em nossa sociedade e continuarão a existir nos próximos anos. Esta tarefa se nos impõe em médio prazo no sentido de lutar por uma sociedade mais humana. No entanto, ressaltamos que em curto prazo nos sentimos obrigados a nos manifestar quanto às eleições, entendendo a diferença qualitativa que existe entre ações destes movimentos e um regime de Estado fundado no autoritarismo e na força bruta. Neste sentido, nos posicionamos como votantes de Fernando Haddad em oposição à violência e à repressão sistemática contra a classe trabalhadora. Votamos contra a subserviência do Brasil ao grande capital, contra a concentração de renda e a violência que o seu concorrente representa. Não compactuamos com o ódio irracional aos partidos, à política e, em particular, ao Partido dos Trabalhadores. Ódio que foi metodicamente produzido nas pessoas nos últimos anos, trazendo à cena mais um bode expiatório, o petista. Votamos desta vez racionalmente no PT em contraposição ao fascismo. Votamos contra o capitalismo na sua versão mais cruel, que busca manter-se insistentemente gerando pobreza, miséria e desumanidade. Votamos pela vida e pelos direitos humanos!