10 de julho de 2026
Articulistas

Extremismo, eleição e as contradições

Edward G. Junior
| Tempo de leitura: 4 min

Procuro sempre fazer uma análise sobre os posicionamentos extremistas, tanto de "direita" como de "esquerda", embora não aprecie muito essas terminologias. As constatações me levam a pensar que esses posicionamentos não são salutares e nem tampouco nos levam ao bom lugar. Senão, vejamos. Ambas as posições extremistas têm em seu conteúdo ideias que são positivas e outras não, propostas que atendem ao interesse coletivo e outras que atendem somente interesses de alguns grupos, propostas que trarão melhorias e outras nem tanto, etc. Assim sendo, quando optamos por um dos extremos cegamente, deixamos de considerar algumas ideias, propostas, sugestões etc que são positivas somente porque vem do lado oposto, ou seja, consideramos somente aquilo que nos interessa ou o que queremos enxergar.

Uma explicação provável é que o pensamento extremista tem um quê de fanatismo e aceitação inconteste, que influência no modo como enxergamos os acontecimentos que estão ao nosso redor. Passamos então a só aceitar e entender a "nossa verdade" e a do grupo de pessoas que pensam como eu. Verdade essa que passa a ser absoluta e inquestionável (como se isso existisse!).

Se a verdade é só aquilo que acredito, então não posso aceitar e nem procurar entender as outras opiniões ou formas diferentes de pensar e agir. Nesse processo complexo do ponto de vista cognitivo e comportamental, acontece algo interessante: acusamos e enxergamos no outro exatamente aquilo que estamos fazendo. Chamo o outro de autoritário quando estou sendo autoritário; prego a importância da diversidade e da democracia quanto meus pensamentos e atitudes são antidemocráticas e desrespeitosas com os outros que pensam diferente de mim. Apresenta-se assim o contraditório.

O pensamento extremista, a meu ver, pode afetar nossa cognição, ou seja, passamos a não compreender e analisar as situações pela ótica da razão e dos fatos.

Nossas análises e crenças tornam-se então fanáticas, ideológicas, "apaixonadas" e, em muitas vezes, descontextualizadas e descoladas da realidade objetiva que se apresenta. Fazendo uma grosseira analogia, seria mais ou menos o que acontece com um torcedor de futebol fanático: seu time sempre é o melhor em tudo e os outros times são sempre os piores em tudo. Pela minha compreensão, parece também o que aconteceu nessas eleições: intolerância, desrespeito, fanatismo, antidemocracia e violência, de ambos os lados.

Para ilustrar, em uma conversa com um grande amigo "esquerdista" tentei argumentar sobre o problema da corrupção sistêmica que vem assolando o país nos últimos anos (isso é um fato!). Ele, movido mais pela emoção do que pela razão, argumentou que essa conversa não era pertinente porque, para ele, "sempre existiu corrupção no Brasil". Argumentei então que, por essa ótica, não deveríamos conversar sobre autoritarismo, sobre intolerância, racismo, perseguição das minorias, misoginia, roubalheira desenfreada, políticos oportunistas, populistas e corruptos, simplesmente porque tudo isso também sempre existiu no Brasil. Até as fake news sempre existiram, apenas elas se potencializaram pelas mídias que estão hoje disponíveis. Obviamente que isso não abalou nossa amizade, ao contrário, mas esse fato ilustra bem o que penso sobre esses "posicionamentos extremistas".

Dificulta-se o diálogo e o aprofundamento e coerência das ideias e acontecimentos e suas verdadeiras consequências. Prevalece assim a discussão rasteira e sem preocupação com a verdade dos fatos.

Uma conversa com profundidade de análise e conclusões, com coerência de argumentos e ideias, só é possível sem a presença do fanatismo. Arrisquei uma "passeada" pelas redes sociais e confesso que fiquei incomodado com o que presenciei. Com raras exceções, me deparei muitas pessoas olhando e analisando os acontecimentos do presente, passado e futuro pela ótica do fanatismo. Me deparei também (principalmente no Facebook) com muitos "donos da verdade" chegando ao ponto de desqualificar o outro, somente por pensar diferente. Cobra-se empatia sem ter empatia. Cobra-se gentileza sem ser gentil. Cobra-se coerência sendo incoerente. Encontrei até frases ameaçadoras do tipo: "agora sabemos quem são as pessoas que estão ao nosso redor", como se todos que estão ao nosso redor precisassem pensar como nós!

Afinal, somos ou não a favor da diversidade? Da competência intercultural? Se somos a favor, não podemos compactuar com isso. Se somos contra estamos assumindo uma postura intolerante, embora acreditando que o intolerante é sempre o outro.

Essa eleição presidencial é, sem dúvida, a mais difícil que já presenciei. Analisando os candidatos e seus "grupos", analisando antecedentes e consequentes dos partidos que esses pertencem e fazendo uso de uma "certa razão", tenho a convicção de que ambos os lados não são o que o nosso Brasil e o seu tão sofrido povo merecem!

O autor é professor do Departamento de Psicologia – Faculdade de Ciências na Unesp Bauru.