10 de julho de 2026
Articulistas

Óbitos de motociclistas em Bauru

Archimedes Azevedo Raia Jr.
| Tempo de leitura: 3 min

Nas últimas décadas, assim como ocorre com outros países em desenvolvimento e no Brasil, em Bauru tem aumentado o uso de motocicletas nas viagens urbanas e as externalidades dele decorrentes. A frota total em Bauru possui, segundo o Departamento Nacional de Trânsito, em 2018, mais de 279 mil veículos, sendo que automóveis/caminhonetes representam 73% e motos, 17%.

Apesar desta porcentagem proporcionalmente pequena, os usuários de motos foram responsáveis por 50% dos óbitos no município, o que é preocupante.

A partir dos dados do Infosiga - Sistema de Informações Gerenciais de Acidentes de Trânsito do Estado de São Paulo, realizou-se um estudo sobre este tema. Analisando-se este banco de dados, constatou-se que, no município de Bauru, incluindo mortes em vias urbanas e rodovias, perderam a vida, de janeiro de 2015 a setembro de 2018, 86 pessoas condutoras ou ocupantes de motocicletas. Destes, 11,6% eram mulheres, 84,9% eram homens e 3,5% não informados.

Um dado interessante é aquele relacionado com o período da ocorrência do acidente envolvendo motocicletas. De noite e de madrugada ocorreram 59,3% das mortes; pela manhã 17,4%; à tarde 14% e não disponível 9,3%.

À noite, quando o tráfego diminui, e pela madrugada, quando o fluxo é bem baixo, registrou-se quase 60% dos óbitos. Os condutores das motocicletas correspondem por 88,4% das vítimas fatais; 9,3% de passageiros e 2,3% não disponíveis.

Quando a análise abarca as faixas etárias das vítimas fatais, os dados são cruéis. Mais de 51% das mortes foram pessoas com até 30 anos, ou seja, jovens no início de suas vidas adultas e produtivas. Duas destas vítimas, condutoras, sequer tinham 18 anos. Quão grande é a dor dos pais em sepultar seus filhos ainda tão jovens. Na faixa de 31 a 40 anos, 25,6%; de 40 a 59 anos, 16,3%; mais de 60 anos, 4,7% e vítimas com idades não disponibilizadas, 2,3%.

Analisando-se a localização dos acidentes fatais no município de Bauru, não se verificou um padrão espacial sugerindo a existência de pontos negros. O que se pode depreender do estudo é que grande parte desses acidentes ocorre em vias de maiores velocidades, caso de rodovias e de avenidas, as quais aumentam sobremaneira o risco aos motociclistas. Infere-se, portanto, que esses acidentes fatais ocorrem muito mais como fruto de comportamento humano inadequado dos condutores, como é o caso do excesso de velocidade e de direção perigosa, do que propriamente de problemas advindos dos projetos de circulação.

Para mitigar este grave problema de saúde pública, como é considerada a acidentalidade viária pela Organização Mundial da Saúde, urge que políticas públicas de segurança sejam desenvolvidas em níveis federal, estadual e municipal, e de maneira particular, envolvendo o modo motocicleta. Somente a conscientização e severa fiscalização poderão fazer com que este quadro tenebroso seja modificado.

Afinal, a maioria dos leitos de traumatologia dos hospitais é ocupada por vítimas de acidentes de trânsito, principalmente de motociclistas. Estes leitos liberados poderiam reduzir de maneira significativa a carência de leitos hospitalares para o restante da população, principalmente, aqueles de responsabilidade do SUS. Fica a sugestão para o novo presidente.

O autor é engenheiro, doutor em Engenharia de Transportes, especialista em segurança viária, profes sor sênior da UFSCar e diretor de Mobilidade da Assenag.