| Douglas Reis |
| Professor Rodolfo Langhi observava o céu desde criança, hábito que permanece |
Desde os primórdios da história humana, o céu desperta interesse. Ao observá-lo, o homem dava início à mais antiga ciência natural, que até nos dias atuais guia uma legião de adeptos. Entre eles, está o professor do Departamento de Física da Unesp e coordenador do Observatório Didático de Astronomia, em Bauru, Rodolfo Langhi, de 45 anos, um dos muitos admiradores do céu.
Com brilho no olhar, ele afirma que o ser humano deve tirar lições da grandiosidade do universo, como ele mesmo o fez. "Observando o céu, aprendi que somos completamente insignificantes e que toda esta ganância não leva a nada", explica.
Neste sentido, o professor publicou o livro "Aprendendo a ler o céu: pequeno guia prático para a astronomia observacional". E não parou por aí. Ele também é autor de outras duas obras: "Educação em astronomia: repensando a formação de professores" e "Astronomia na Educação Infantil e nos anos iniciais do Ensino Fundamental".
Além de conciliar a pesquisa, o ensino e a extensão, Rodolfo ainda integra o Projeto Eratóstenes Brasil - responsável por desenvolver e aplicar ações de formação continuada de professores na astronomia -; o Programa Mundo Astronômico, que vai ao ar toda quarta e sexta-feira, às 11h15 e 18h, na Rádio Unesp; e o Astrolab, divulgado no decorrer da programação da TV Unesp.
Entre tantos afazeres, o professor reservou um tempo para atender a reportagem. Abaixo, os principais pontos da entrevista.
| Douglas Reis |
| Autor de livros, Langhi é formado em Ciências, além de ter mestrado e doutorado em Educação para a Ciência |
Jornal da Cidade - O senhor comentou que sempre gostou de ler Isaac Asimov. Então, a astronomia se fez presente na sua vida logo na infância?
Rodolfo Langhi - Com certeza. Eu sempre gostei de observar o céu estrelado e a Lua. Inclusive, a minha mãe diz que, antes mesmo de aprender a falar, eu já ficava olhando para o céu. Além disso, nasci em São Bernardo do Campo e, quando criança, brincava bastante com a vizinhança, principalmente com o meu amigo Marcelo Breganhola, que também gostava de astronomia. Tanto que fez o curso e, hoje, trabalha na Universidade Federal do ABC.
| Arquivo Pessoal |
| Professor Rodolfo Langhi, com os três filhos Yuri, Nicolas e Rodolfo, além da esposa Patrícia Elaine Ceschin Langhi |
JC - Nesta época, vocês já faziam experimentos voltados à astronomia?
Rodolfo - As brincadeiras normais ficavam em segundo plano. Nós gostávamos mesmo era de fazer experimentos. Íamos até a biblioteca e procurávamos por livros do tipo. Certa vez, descobrimos que, se enrolássemos um fio de cobre e o submetêssemos a uma corrente elétrica alternada, transmitiríamos ondas eletromagnéticas. O objetivo era enviar sinais para o Espaço. O livro dizia que, quanto menor a quantidade de voltas, mais longe chegariam as ondas eletromagnéticas. Olha o que a falta de conhecimento faz: pensamos em dar apenas uma volta no fio e inseri-lo na tomada. Aquilo gerou uma explosão tão grande que eu fiquei com um zumbido no ouvido por três dias seguidos. Neste mesmo episódio, minha mãe veio ao meu encontro com o cabelo molhado e o secador em mãos, porque havia caído até o disjuntor de casa. Apagou tudo.
| Arquivo Pessoal |
| Patrícia Elaine Ceschin Langhi, Victório Langhi (avô de Rodolfo), Leonor Langhi (avó de Rodolfo) e Rodolfo Langhi |
JC - Que sufoco! Até hoje, é muito comum crianças e adolescentes lançarem protótipos de foguetes, com água e garrafas PET. Vocês desenvolveram algo do tipo?
Rodolfo - Sim, só que nós queríamos fazer com que o foguete decolasse com combustível e descobrimos que a pólvora era a melhor opção. Então, resolvemos fabricá-la. Como o meu avô gostava muito de experimentos, nos deu a fórmula da pólvora - creio que 70% de salitre, 20% de carvão e 10% de enxofre. Deu certo. Contudo, o tubo que arranjamos era muito pesado e o foguete não subiu, mas ficou voando por todos os lados.
JC - O senhor nasceu e passou boa parte da vida em São Bernardo do Campo. Por que decidiu deixar a sua terra natal e vir para Bauru?
Rodolfo - Eu e a minha esposa saímos do ABC em 2001. Nesta época, eu era professor temporário em uma escola pública e nós estávamos casados havia quatro anos. Porém, queríamos levar uma vida sossegada e decidimos nos mudar para Adamantina, onde tínhamos alguns amigos. Nesta cidade, lecionei nas Faculdades Adamantinenses Integradas, já que possuía formação em Ciências pela Universidade Fundação Santo André. Em 2002, comecei o mestrado em Educação para Ciência, na Unesp, em Bauru, mas só nos mudamos para o município em 2007. Dois anos depois, terminei o doutorado na mesma área e prestei concurso para trabalhar como professor do Departamento de Física da Universidade Federal do Mato Grosso do Sul, em Campo Grande. Nós ficamos lá até eu voltar para a Unesp, em Bauru, em 2012, quando me tornei professor do Departamento de Física. Por isso, dei nota 10 à minha esposa, que me apoiou durante toda esta trajetória.
JC - Quando o Observatório Didático de Astronomia entrou na sua vida?
Rodolfo - Quando comecei a fazer o mestrado na Unesp, em 2002, conheci a professora Rosa Scalvi, que coordenava um grupo voltado ao ensino da astronomia. Em 2009, o Observatório Didático de Astronomia Lionel José Andriatto foi inaugurado, mas eu tinha me mudado para Campo Grande. Logo que retornei à Unesp, em 2012, me vinculei ao Observatório e, há dois anos, me tornei coordenador desta instituição, que abriga, hoje, 25 alunos da graduação e da pós-graduação.
JC - No ano anterior, o senhor concedeu uma entrevista ao Jornal da Cidade, na qual comentou que o Observatório estava sem respaldo financeiro. Isso mudou?
Rodolfo - Nós paramos de atender escolas por dois anos, porque o prédio precisava de algumas adaptações e não tínhamos dinheiro para tanto. Já fizemos a reforma parcial e voltamos a receber os alunos do ensino fundamental e ensino médio - 4 mil deles, no decorrer do ano letivo. Inclusive, na semana passada, atendemos estudantes de uma escola militar do Mato Grosso. O nosso objetivo é e sempre foi tornar a astronomia mais acessível, mas ainda faltam recursos.
JC - Diante desta filosofia, qual é a sua opinião sobre o fato de o astronauta Marcos Pontes ter sido confirmado como ministro da Ciência e Tecnologia?
Rodolfo - Ele é bauruense e sabe da existência do observatório. Espero que continue se lembrando de nós quando estiver por lá.
JC - Sei que já deve estar cansado de responder esta pergunta, mas acredita que haja vida em outros planetas?
Rodolfo - Prefiro dizer que só vou acreditar quando eu vir. Se um dia eu souber da existência de um extraterrestre, vou passar a acreditar. Mas, até agora, não existe qualquer prova disso.
JC - O senhor observa o céu nas horas vagas também? Tem isso como um hobby?
Rodolfo - Agora, não tenho muito tempo. Mas, de vez em quando, monto meu telescópio. Este é um momento de meditar sobre como o ser humano é arrogante e tem mania de grandeza. Observando o céu, aprendi que somos completamente insignificantes e que toda esta ganância não leva a nada.
JC - Por fim, qual é a mensagem que deixa para aqueles que, como o senhor, têm afinidade com o céu?
Rodolfo - Que continuem olhando para o céu, fato que leva à reflexão acerca da importância da humanidade. É preciso enxergar, no universo, a necessidade de ter uma vida mais significativa, ou melhor, procurar extrair lições dele. Afinal de contas, temos de pensar na humanidade enquanto um grupo que mora em um planeta, em vez de focarmos apenas na nossa rua, no nosso bairro e no nosso País. Se você não pensa enquanto planeta, para onde você vai, caso ele seja destruído?