10 de julho de 2026
Bairros

Filhos de hansenianos terão de deixar colônia do Lauro

Tisa Moraes
| Tempo de leitura: 3 min

Fotos: Samantha Ciuffa
Atualmente, 20 famílias, totalizando 68 pessoas, vivem na colônia do Lauro de Souza Lima

Markinho afirma que impasse pode ser resolvido com diálogo

Os filhos com mais de 21 anos dos pacientes com hanseníase que vivem na Colônia Aymorés, do Instituto Lauro de Souza Lima, terão de deixar o local até o final deste ano. A decisão foi tomada pelas secretarias estaduais da Saúde e da Fazenda com base em uma resolução de 2001, que não vinha sendo cumprida. Inclusive, as famílias já estão sendo notificadas.

Na corrida contra o tempo, os moradores acionaram o vereador Markinho Souza (PP), que tenta mediar uma solução para o caso. A intenção é recorrer ao prefeito Clodoaldo Gazzetta para que ele solicite agendamento de reunião com o secretário estadual da fazenda, Luiz Cláudio Rodrigues de Carvalho, para discutir o assunto.

"No passado, estes pacientes já foram arrancados à força de suas famílias pelo Estado e, agora, correm o risco de ver a história se repetir. É uma situação muito triste, que precisa ser solucionada com diálogo", comenta Markinho. O prazo para a saída definitiva dos filhos maiores de 21 anos, com exceção dos que possuem incapacidade física permanente para o trabalho, é 31 de dezembro.

Na semana passada, o parlamentar esteve no instituto para conversar com os moradores. Atualmente, 20 famílias, totalizando 68 pessoas, vivem na colônia do Lauro, entre eles maridos, esposas, pais, filhos e irmãos dos pacientes.

PROPOSTA

Embora o Estado não confirme, nos bastidores acredita-se que a decisão foi tomada como forma de reduzir custos, já que gastos com água e energia elétrica são bancados pelo poder público. Por este motivo, Markinho acredita que seja possível reverter a decisão, já que as moradias da colônia foram construídas pelo governo estadual em área que pertence à Sociedade Beneficente Doutor Enéas de Carvalho Aguiar.

"Nossa sugestão é que o Estado doe estas casas para a sociedade beneficente e que, a partir de então, as famílias assumam o custeio destas contas e outros possíveis tributos. Elas estão dispostas a pagar", acrescenta, salientando que outras despesas, como alimentação, já são garantidas, atualmente, apenas aos hansenianos.

Hoje, vivem na Colônia Aymorés famílias apenas de pacientes antigos, que foram internados compulsoriamente e afastados do convívio familiar, em um momento da história permeado pelo preconceito com os doentes de hanseníase. "São pessoas que estão acostumadas a viver naquele local, confinadas. Uma nova separação, neste momento, seria um prejuízo emocional muito grande para todos os envolvidos", observa o vereador.

Por meio de nota, a Secretaria de Estado da Saúde reforçou que a medida "é amparada judicialmente e segue a legislação, respeitando os direitos das pessoas envolvidas no processo".

'RETROCESSO'

Elias de Souza Freitas vive na colônia há 18 anos com a esposa e filha. Em entrevista concedida à TV Câmara e exibida na sessão legislativa de ontem, ele lembrou o estigma a que todos os hansenianos foram submetidos no passado e destacou que a retirada de familiares depois de tanto tempo seria um retrocesso. "Nós somos sofridos. Como acontece no Rio de Janeiro e no Acre, o governo dividiu as terras no entorno do hospital e construiu casas para os hansenianos. O mesmo deveria ser feito aqui", comenta.

Também asilada, Neusa Rio Branco também está preocupada, já que tem duas filhas com idade superior a 21 anos, que, segundo ela, não possuem condições de viver fora da colônia. "Eu vim para cá com 22 anos. Passei minha mocidade toda aqui dentro e nunca saí daqui. Para viver em outro lugar, agora, não tem condições. E quero que elas continuem vivendo comigo", afirma.