10 de julho de 2026
Regional

Revitalização de teatros depende de lei de incentivo e investidores

Aurélio Alonso
| Tempo de leitura: 14 min

Malavolta Jr
Como está atualmente o galpão do antigo armazém de café nas esquinas das ruas Humaitá e Quintino Bocaiuva, em Jaú

A revitalização de prédios tombados históricos e antigos cinemas não depende mais somente de recursos públicos. A tendência moderna é buscar investidores por meio de leis de incentivos fiscais ou apoio da própria comunidade. Em Jaú, cidade centenária com um acervo de imóveis do século passado tombados, surgiu há poucas semanas a proposta de transformar um antigo armazém abandonado em Centro Cultural.

O entrave é que o imóvel se encontra inventariado com grau máximo de proteção e dependerá de uma análise do Conselho de Preservação do Patrimônio Cultural de Jaú (Conppac).

O projeto de revitalizar o galpão, que já pertenceu à antiga Companhia Paulista de Estrada de Ferro e onde foi a Fiação Jauense, foi anunciado no último mês como a alternativa para que o local não fique mais fechado e no abandono.

A proposta foi apresentada pelo diplomata e diretor da Somatória Desenvolvimento, Ramis Aiub Júnior, à Secretaria de Cultura e Turismo de Jaú de edificar em três andares, além de subsolo para estacionamento, espaço a duas salas para teatro, multiuso e até um restaurante com vista panorâmica. 

Se caso viabilizar o projeto, Jaú poderá ganhar um Centro Cultural na área central, próximo à rodoviária.

Na região de Bauru há outros imóveis que vem passando por reforma e que chegaram a ficar com as instalações fechadas.

Divulgação
Projeto dos arquitetos Ana Cláudia Ribeiro Ângelo e João Fávero para Centro Cultural em Jaú

Em São Manuel, o Teatro "Dr. Alberto Pampado" vem sendo recuperado com ajuda da comunidade, apesar das tentativas de buscar recursos por meio de leis de incentivo fiscal.

O músico Arnaldo Catalan lidera um movimento na cidade para recuperar o imóvel construído no início do século passado e conseguiu reabri-lo, provisoriamente em outubro.

No momento Catalan ocupa o cargo de secretário municipal da Cultura no município e graças ao seu empenho foi possível recuperar o espaço histórico ao reformar o prédio, executar pintura interna e externa, acessibilidade, iluminação e sonorização. "Esse teatro é minha paixão", relata Catalan.

O teatro é pequeno, com capacidade para 200 pessoas, construído no formato de palco italiano e plateia elisabetiana, com seus camarotes e mezaninos copiados de grandes teatros europeus, além de uma particularidade: um dos poucos com fosso de orquestra próprio de salas para apresentação de músicas e óperas.

Em Macatuba, a prefeitura tem planos de reformar o Teatro Municipal "Renata Lycia dos Santos Ludvico" com restauração e acessibilidade, que vai custar R$ 499 mil por meio de convênio com a Secretaria de Estado da Justiça com recursos do Fundo de Interesses Difusos (FID).

Fundado em 1997, o teatro macatubense sofreu com atos de vandalismo e depredação nos últimos anos.  "Com a reforma, o Teatro Municipal vai voltar a ser palco de grandes eventos, além de melhorar a estrutura para o atendimento dos artistas, formaturas e outros eventos locais. Outro ponto importante é que passará a atender com conforto todos as pessoas portadoras de deficiência, que poderão circular livremente por todas as áreas do teatro", declara o prefeito Marcos Olivatto por meio de sua assessoria de imprensa.

Em Torrinha, o atual Centro Cultural é o antigo cinema, também precisa de passar por reforma. O secretário de Cultura, Cesar Sibaldi, explicou que só é possível recursos via lei de incentivos fiscais. Agora a administração precisa elaborar um projeto para buscar um Proac/ICMS. "Vamos ter que elaborar esse projeto e enviar à Secretaria de Cultura Estadual para análise. Só depois de aprovado, será necessária nova etapa para captação de recursos", conta. Leia mais nas páginas 18 e 19.

Jaú tem megaprojeto de centro cultural

 

O antigo armazém de café no cruzamento das ruas Quintino Bocaiuva e Humaitá, ao lado da rodoviária de Jaú, poderá se transformar em um Centro Cultural com um teatro possuindo duas salas, com capacidade de 212 pessoas e 110 pessoas, além de espaço de multiuso para escola de cinema. Tudo isso com recursos da iniciativa privada, mas por se tratar de imóvel tombado pelo patrimônio municipal ainda dependerá de passar pelo Conselho de Preservação do Patrimônio Cultural Histórico (Conppac).

O entrave é esse imóvel estar inventariado com grau máximo de proteção no Conppac. Já houve uma apresentação prévia do projeto à Secretaria de Cultura, que confirma que os recursos serão de grupo de investidores.

Mas no momento o armazém está fechado e praticamente deteriorado. O objetivo é dar nova destinação e revitalizar esse espaço que já pertenceu a antiga estrada de ferro e foi também a Fiação Jauense até fechar as portas.

Quem está à frente desse projeto é o diplomata Ramis Auib. que é conselheiro na W Torre, grupo empresarial de São Paulo ligado à construção civil que investiu no Allianz Parque, arena do Palmeiras. Embora esteja sendo mantido em sigilo os nomes dos investidores, o empreendimento visa dar uma destinação a uma região de Jaú que por força do Plano Diretor determinou tombamento de muitos imóveis e dificulta a revitalização da área.

A secretária municipal de Cultura e Turismo, Carolina Panini, afirma que apenas foi convidada a participar da apresentação prévia do projeto, onde constatou tratar-se de investimento particular em imóvel de terceiro (leia texto nesta página).

Procurado por telefone pelo JC, Ramis Auib confirma que existe o interesse pelo investimento que vai mudar o eixo de desenvolvimento na área central do município. De acordo com ele, o Plano Diretor " blindou" alguns interesses imobiliários de levar os investimentos somente para a região do atual shopping.

Agora, o objetivo é resgatar um imóvel que está parado na área central. "Toda vez que você quer fazer uma intervenção há essa discussão que não pode, tem que passar por um Conselho. Há um decreto lei que não tem validade constitucional nenhuma e por isso buscamos essa alternativa que contará com investidores que se mostraram interessados", explicou o diplomata que tem família em Jaú.

A proposta é que nessa área seja erguido um Centro Cultural com três andares com capacidade para ter um restaurante, salas culturais e um subsolo com estacionamento. E esse contrato de gestão será feito com a Sociedade São Vicente de Paulo, mantenedora do prédio. "Já conversamos com a presidência da Sociedade e chegamos a manter contato até com a sede dela, que é na França", relata Ramis.

O projeto do novo teatro é dos arquitetos Ana Cláudia Ribeiro Ângelo e João Fávero e foi apresentado no dia 22 de outubro na Secretaria de Cultura e Turismo.

Secretaria diz que Conppac vai analisar projeto

A secretária municipal de Cultura e Turismo de Jaú, Carolina Panini, alega que não tem conhecimento se o projeto foi formalmente apresentado junto à Prefeitura de Jaú, mas que houve o convite para ela participar de uma reunião em que foi apresentando o projeto arquitetônico do Centro Cultural.

Por tratar-se de imóvel tombado pelo Poder Público, a secretária explica que o processo, que solicita autorização para fazer a obra, tramitará pela Secretaria de Cultura e depois o remeterá ao Conppac, entretanto, não há como fixar-se prazo para aprovação.

Questionado sobre eventual contrapartida de investidores para reverter o grau máximo de preservação do imóvel, a secretária alegou que a pasta não tem qualquer competência para falar sobre o assunto. "O mesmo se diz a respeito do alegado sigilo".

Mas a secretária de Cultura confirma que sugeriu ao empreendedor estudos para aumentar a capacidade da sala de teatro. O projeto contempla a construção de duas salas, com capacidade para 212 e 110 pessoas, além de outras duas salas multiuso que poderão ser usadas para escolas de cinema, teatro e música. "A quantidade de cadeiras para o teatro, que consta no projeto, é pequena para uma cidade do porte de Jaú. Já temos espaços com 220 lugares, eles deveriam fazer um teatro no mínimo para 400 lugares e orientamos para adequação do projeto, mas não é a Secretaria que determina isso", declarou Carolina.

O diplomata e diretor da Somatória Desenvolvimento, Ramis Aiub, diz que não justifica fazer uma sala com mais de 220 lugares para o porte de Jaú. Ele cita que um teatro feito em Amparo com capacidade para 700 pessoas está ocioso. "Não dá mais para ter mais do que isso (220 lugares). A tendência hoje em dia desses espaços culturais é ser menor, a não ser para teatro mais antigos ou como foi no caso da Sala São Paulo", explicou.

A secretária municipal de Cultura jauense ressalta, no entanto, que somente após o protocolo oficial do projeto na prefeitura, com croquis, memorial descritivo e outros documentos pertinentes, é que o projeto será submetido à apreciação do Conselho Municipal de Preservação do Patrimônio Cultural de Jaú (Conppac).

Deficiência técnica inviabiliza Teatro 'Elza Munerato'

A Prefeitura de Jaú não tem interesse em reformar o Teatro "Elza Munerato", um dos principais espaços públicos da cidade para apresentações musicais e de eventos. O espaço foi criado em 1975.

Devido as suas deficiências técnicas, justificadas em processo administrativo próprio, a secretária municipal de Cultura e Turismo, Carolina Panini, declarou que já há lei autorizado sua permuta com outro bem pertencente à Fundação Educacional Jahu "Dr. Raul Bauab".

Com isso mesmo assim não há possibilidade de ficar sem espaço para apresentações com a desativação do "Elza Munerato". Carolina alega, no entanto, que, mesmo sem a estrutura do Teatro Municipal, eventos e atividades das artes cênicas não vão ser prejudicados no município, que tem realizado diversas apresentações nas Praças da República e Siqueira Campos, no Parque do Rio Jaú, no Cine Municipal, Cide e no Centro de Artes e Esportes Unificado (CEU). "É um auditório (o atual teatro) adaptado e para deixá-lo apto a voltar a funcionar, o valor do investimento seria muito alto e teria que ser refeito muita coisa, por ser inteiro de madeira. Por isso, decidimos desafetá-lo como teatro", esclareceu. O prédio vai continuar sendo usada pela Fundação.

Prefeitura de Macatuba
Teatro "Renata Lycia dos Santos Ludvico" foi inaugurado em 1997

Macatuba tem planos para reformar teatro

Nos últimos dois anos, o Teatro Municipal "Renata Lycia dos Santos Ludvico" de Macatuba já passou por melhorias no prédio, mas há planos de uma reforma total com restauração e acessibilidade que vai custar R$ 499 mil por meio de convênio com a Secretaria de Estado da Justiça com recursos do Fundo de Interesses Difusos (FID). 

Fundado em 1997, o Teatro Municipal sofreu com atos de vandalismo e depredação nos últimos anos. Associado a falta de manutenção e pouco uso para atividades culturais, o prédio ficou em uma situação bem crítica, inclusive com pichação na área interna e cadeiras quebradas que chegaram a ser substituídas por assentos de plástico.

"Com a reforma, o Teatro Municipal vai voltar a ser palco de grandes eventos, além de melhorar a estrutura para o atendimento dos artistas, formaturas e outros eventos locais. Outro ponto importante é que passará a atender com conforto todos as pessoas portadoras de deficiência, que poderão circular livremente por todas as áreas do teatro", declara o prefeito Marcos Olivatto por meio de sua assessoria de imprensa.

O projeto prevê a reforma e acessibilidade dos banheiros e camarins e a construção de um novo camarim totalmente acessível com entrada externa e saída direta no palco. Troca do madeiramento do palco, instalação de plataforma elevatória para PCD no palco, troca de todos os carpetes e cortinas, pintura interna e externa, e aquisição de novos e modernos equipamentos de som e iluminação também estão na lista.

"Desde o início do ano passado, quando assumi a secretaria, venho trabalhando com o apoio do prefeito e da equipe para melhorar as condições de uso, o que foi feito. Mas o prédio precisa de uma reforma geral e ao sabermos desta verba do FID fomos atrás. Graças a Deus o projeto está aprovado e agora dependemos da liberação do recurso que deve sair no ano que vem, já que tivemos troca de governo do Estado", explicou a secretária de Cultura, Lara Cardoso Mariano Pereira.

Saiba o que é o FID

O Teatro "Dr. Alberto Pampado" de São Manuel chegou a ficar abandonado em 2009. O músico Arnaldo Catalan liderou um movimento na cidade para recuperá-lo sem recursos públicos e conseguiu reabri-lo, provisoriamente, em outubro.

No momento, ele ocupa o cargo de secretário da Cultura no município, mas desde quando voltou de Santos para a sua cidade natal, decidiu se engajar para recuperar esse espaço histórico e envolver a população para reformar o prédio, quando fez a pintura interna e externa, acessibilidade, iluminação e sonorização. "Esse teatro é uma paixão para mim", relata Catalan, que tem empresa que trabalha na área de cultura em todo o País.

O teatro é pequeno, com capacidade para 200 pessoas, construído no formato de palco italiano e plateia elisabetiana, com seus camarotes e mezaninos copiados de grandes teatros europeus tem também a particularidade de ser um dos poucos com fosso de orquestra próprio de salas que apresentaram e apresentam musicas e óperas.

A imponência está na arquitetura preservada e na história de sua fundação. No palco já se apresentaram grandes companhias de óperas com encenação de "O Guarani", "La Traviata", "O Barbeiro de Sevilha", nos períodos quando o município era forte na cafeicultura. 

Catalan relata que essa obra se destacou na época como uma das principais edificações no Estado sendo inaugurado a 15 de janeiro de 1908 pela companhia do maestro Antônio Leal com a peça "O Cinematógrafo Japonês". A Câmara Municipal adquiriu o edifício do Grupo Dramático e no mesmo local veio a funcionar o Teatro Royal. 

A luta pela reforma já teve a elaboração por meio de lei de incentivos fiscais para levantar R$ 240 mil para o fazer o essencial. "Esse pedido não foi aprovado ainda, mas teve uma verba de R$ 505 mil que é um absurdo, não precisa isso, prometida por dois deputados. Resultado: o povo parou de ajudar e a verba não veio. Fui até Brasília e não deu certo".

Antes nesse local já funcionou o cinema, mas teve que parar. Os equipamentos antigos ainda estão lá. A intenção é retomar as exibições mas não lançamentos de filmes. A previsão é no final do mês retomar pelo menos duas exibições de filmes, gratuitamente.

O único problema a ser solucionado é um corredor na lateral que pelas exigência de segurança deve ter dois metros de largura e como é um edifício velho a medida é de 1,60 metro. "Se tiver que bater o pé e exigir que são 2 metros de largura, o teatro poderá não ser reaberto e ficará como museu ou qualquer outra coisa. Para aumentar esses 40 centímetros tem que comprar um prédio ao lado, mas acho que será resolvido com bom senso", comenta o secretário de Cultura.

Comunidade ajuda a recuperar teatro

O Teatro "Dr. Alberto Pampado" de São Manuel chegou a ficar abandonado em 2009. O músico Arnaldo Catalan liderou um movimento na cidade para recuperá-lo sem recursos públicos e conseguiu reabri-lo, provisoriamente, em outubro.

No momento, ele ocupa o cargo de secretário da Cultura no município, mas desde quando voltou de Santos para a sua cidade natal, decidiu se engajar para recuperar esse espaço histórico e envolver a população para reformar o prédio, quando fez a pintura interna e externa, acessibilidade, iluminação e sonorização. "Esse teatro é uma paixão para mim", relata Catalan, que tem empresa que trabalha na área de cultura em todo o País.

O teatro é pequeno, com capacidade para 200 pessoas, construído no formato de palco italiano e plateia elisabetiana, com seus camarotes e mezaninos copiados de grandes teatros europeus tem também a particularidade de ser um dos poucos com fosso de orquestra próprio de salas que apresentaram e apresentam musicas e óperas.

A imponência está na arquitetura preservada e na história de sua fundação. No palco já se apresentaram grandes companhias de óperas com encenação de "O Guarani", "La Traviata", "O Barbeiro de Sevilha", nos períodos quando o município era forte na cafeicultura. 

Catalan relata que essa obra se destacou na época como uma das principais edificações no Estado sendo inaugurado a 15 de janeiro de 1908 pela companhia do maestro Antônio Leal com a peça "O Cinematógrafo Japonês". A Câmara Municipal adquiriu o edifício do Grupo Dramático e no mesmo local veio a funcionar o Teatro Royal. 

A luta pela reforma já teve a elaboração por meio de lei de incentivos fiscais para levantar R$ 240 mil para o fazer o essencial. "Esse pedido não foi aprovado ainda, mas teve uma verba de R$ 505 mil que é um absurdo, não precisa isso, prometida por dois deputados. Resultado: o povo parou de ajudar e a verba não veio. Fui até Brasília e não deu certo".

Antes nesse local já funcionou o cinema, mas teve que parar. Os equipamentos antigos ainda estão lá. A intenção é retomar as exibições mas não lançamentos de filmes. A previsão é no final do mês retomar pelo menos duas exibições de filmes, gratuitamente.

O único problema a ser solucionado é um corredor na lateral que pelas exigência de segurança deve ter dois metros de largura e como é um edifício velho a medida é de 1,60 metro. "Se tiver que bater o pé e exigir que são 2 metros de largura, o teatro poderá não ser reaberto e ficará como museu ou qualquer outra coisa. Para aumentar esses 40 centímetros tem que comprar um prédio ao lado, mas acho que será resolvido com bom senso", comenta o secretário de Cultura.