10 de julho de 2026
Geral

Médicos cubanos deixam UBSs nesta quarta-feira

Marcele Tonelli
| Tempo de leitura: 5 min

Malavolta Jr.
Cubanos recebem certificado de reconhecimento da Prefeitura de Bauru pelo trabalho prestado

A partir desta quarta-feira (21), cinco Unidades Básicas de Saúde (UBSs) da área urbana de Bauru, mais a do distrito de Tibiriçá, não contarão com o atendimento prestado pelos 10 médicos cubanos. Eles se desligaram, ontem, oficialmente do "Mais Médicos" - cerca de uma semana após o anúncio da saída de Cuba do programa brasileiro. Conforme o JC já noticiou, a Secretaria Municipal de Saúde calcula que a situação resulte em 960 consultas semanais a menos nos postos nas áreas de pediatria, clínica médica e ginecologia.

Unidades que terão o atendimento reduzido: UBS do Bela Vista, UBS do Núcleo Beija-Flor, UBS do Jardim Godoy, UBS Geisel, UBS do Mary Dota e a UBS do distrito de Tibiriçá. Todas possuíam médicos cubanos em seu quadro profissional desde 2014, quando o programa do governo federal teve início.

A prefeitura se despediu dos profissionais nesta terça-feira. O encontro foi marcado por emoção tanto dos representantes do Executivo quanto dos médicos cubanos. Eles devem começar a deixar Bauru a partir do dia 22 de novembro. O prazo segue até 3 de dezembro.

A Polícia Federal da cidade chegou a registrar até dez ligações diárias de profissionais do município e da região, nos últimos dias, interessados em pedir refúgio, mas nenhum requerimento foi aberto até essa terça-feira (20).

RECONHECIMENTO

Nesta terça-feira, o prefeito Clodoaldo Gazzetta e o secretário José Eduardo Fogolin (Saúde) prestaram homenagem aos profissionais cubanos durante uma coletiva de imprensa ocorrida no gabinete. Os médicos receberam um certificado de reconhecimento pelo trabalho prestado na cidade.

"Foi importante para a população bauruense. Vocês trazem consigo algo importante da medicina, que é o acolhimento, o carinho com que tratam os usuários. Só tenho a agradecer. Espero que um dia possamos nos rever e que vocês possam voltar a nos ajudar nessa tarefa tão importante na saúde pública, principalmente num País como o nosso, de desiguais", disse Gazzetta.

"Tenho orgulho de ter tido vocês como nossos profissionais, assim como tenho orgulho dos nossos médicos brasileiros. Levem o certificado como nosso reconhecimento por tudo o que fizeram pela nossa comunidade. Este é um papel, mas levem meu coração", afirmou Fogolin, emocionado. 

A Prefeitura de Bauru deve se responsabilizar pelo transporte dos profissionais até o aeroporto.

'UMA PENA'

A maioria dos médicos chorou ao receberem a homenagem da prefeitura de Bauru. A médica Yuleydis Coss Ramirez, que atendia na UBS do Beija-Flor, respondeu o carinho dizendo que levará Bauru no coração.

"É uma pena que o programa termine desse jeito. Fizemos tudo o que podíamos fazer pela comunidade de Bauru. Agora, voltarei para Cuba ver meus filhos", disse Yuleydis.

Recém-casado com uma bauruense, o médico Yunier Rios Paz, que atendia na UBS do Bela Vista, apesar de ter a prerrogativa de ficar, decidiu voltar para Cuba para cuidar de seus pais idosos.

"Foi tudo muito rápido e minha esposa terá que ficar, por enquanto. Mas eu não penso duas vezes em voltar, mais para frente, caso o Brasil precise de novo de nós para ajudar os mais carentes. Sentirei muita saudade da família que fiz aqui, a Doralice, enfermeira chefe, foi minha mãe, me ajudou com tudo desde que cheguei, até com a mudança", conta o rapaz.

CONTRAPONTO: FICAR

Já a médica Lilian Santos, que atende na UBS do Geisel e é casada há 5 anos com um bauruense, pretende usar essa prerrogativa para ficar no País.

"Morro de saudades da minha mãe e amo meu País, Cuba me deu uma formação gratuita e excepcional em medicina. Mas quero construir uma família com meu esposo, por isso pretendo ficar no Brasil. Ainda não sei aonde ou com o quê irei trabalhar", conta a médica.

EXPECTATIVA

O Ministério da Saúde publicou um edital chamando médicos brasileiros para ocuparem as vagas e as inscrições começam hoje, a partir das 8h, e terminam às 23h59 de domingo (25) - informações no site https://maismedicos.gov.br

"Em Bauru teremos 11 vagas, uma a mais do que as dos cubanos para suprir uma defasagem antiga. Nossa expectativa é de que todas sejam ocupadas, porque o município não tem como contratar tantos médicos neste momento", afirma Fogolin.

Em casa de família

Malavolta Jr.
"Muito triste voltar", comenta Jaqueline

A despedida da Prefeitura de Bauru aos médicos cubanos reuniu representantes de conselhos gestores das UBS. Dulcenéia Cosmo, da UBS de Tibiriçá, reclamava do desfalque. "Moramos a 25 quilômetros de Bauru, quem não tem carro terá que pagar até R$ 70,00 para ter socorro. Já perdi uma irmã por causa disso há anos. Quando os cubanos chegaram, tudo melhorou. Eles atendem os acamados em casa", observa a moradora.

A médica que atendia em Tibiriçá, Jaqueline Iparraguirre, conta que, para não arcar com multa do aluguel, já entregou o imóvel no qual residia, no Centro de Bauru. Ela está hospedada na casa da família de Dulcenéia Cosmo, que virou amiga. "Muito triste ter que voltar, mas minha família também é importante, tenho uma filha de 12 anos. Aqui, o trabalho era mais tranquilo, lá pegarei plantões. Posso trabalhar mais 40 horas para ganhar menos", compara.

Polícia Federal de Bauru recebe cubanos interessados em refúgio

Samantha Ciuffa
Chefe da PF de Bauru, Karen Dunder: procuram para perguntar

Desde o anúncio da saída de Cuba do Mais Médicos, no dia 14 de novembro, após declarações do presidente eleito Jair Bolsonaro (PSL), o Núcleo de Estrangeiros da Polícia Federal de Bauru tem recebido até dez chamados, por dia, de médicos cubanos procurando orientações sobre o como pedir refúgio para ficar no Brasil.

"Eles ligam ou vêm até aqui para saber qual a documentação necessária para ingressar com o pedido de refúgio, que é submetido à avaliação do Ministério da Justiça. Apesar da procura, não protocolamos nada ainda. Há somente pedidos de permanência com base na união estável", ressalta a chefe da PF de Bauru, Karen Dunder.

Segundo ela, há certo receio dos cubanos em relação a um documento que é exigido para o pedido de refúgio e que deve ser liberado pelo consulado cubano. "Eles temem não conseguir a certidão de antecedentes criminais", detalha.

ASILO: O QUE DIFERE?

Ela explica que o pedido de refúgio é diferente do pedido de asilo por considerar convicções pessoais dos pretendentes de forma mais ampla. Pode ser solicitado quando o País de origem passa por situação grave, de guerra, doença, ou quando a pessoa teme alguma retaliação, política ou não, ao retornar.

Já o asilo político é concedido somente pelo presidente da república e a situação deve ser comprovada. "Só quem sofre perseguição política, racial ou religiosa costuma pedir", cita Dunder. A avaliação do pedido de refúgio leva em média dois anos e, durante o tempo de análise, o pretendente pode continuar no País.