11 de julho de 2026
Articulistas

Enciclopédia não tão livre

Adilson Roberto Gonçalves
| Tempo de leitura: 3 min

Minha primeira aquisição material foi uma coleção de livros enciclopédicos, que era vendida de porta em porta. Depois, com o trabalho de meio período, passei a colecionar a enciclopédia Novo Conhecer, vendida como fascículos semanais em bancas. E, por fim, o triunfo foi comprar a Enciclopédia Britânica. A famosa Barsa eu não tive. O material impresso era rico em informações e conteúdo e vinha com uma certeza: a fonte. Com o advento da internet, o acesso a conteúdos passou a ser mais rápido e dinâmico, relegando aquelas enciclopédias volumosas praticamente a museus.

A Wikipedia é o exemplo mais moderno desse material de fácil acesso, que por aqui se traduz como enciclopédia livre. Porém, ela é regulada e monitorada por uns poucos que possuem o direito de decidir o que fica e o que entra nela. Não é totalmente livre, como se pensa. Fiz meus testes, tentando incluir como verbete a Academia de Letras de Lorena, que completa sua primeira década de existência no ano que vem. O artigo foi eliminado por falta de fontes, mesmo tendo entre seus membros escritores famosos como Daniel Munduruku e Conceição Molinaro (falecida neste mês), o dramaturgo Caio de Andrade, e personagens importantes como Nelson Pesciotta, Francisco Sodero (estudioso de Euclydes da Cunha), Olga de Sá (intérprete de Clarice Lispector), sem desmerecer os outros 24 membros.

Em seminário recente sobre agricultura moderna, um dos palestrantes mencionou essa suposta liberdade de construção coletiva, mas que tem suas limitações. No caso, ele se referia ao conhecimento como um todo, que deixou de ser restrito a bibliotecas físicas e ganhou uma dimensão inimaginável. Ele tem razão sobre o acesso, mas não sobre a integridade desse conhecimento. Se antes gastávamos um tempo enorme para encontrar a informação desejada, hoje o tempo gasto é maior para separar o joio do trigo. Cada vez mais nos deparamos com falsas notícias e conteúdos duvidosos que nos levam a pesquisar mais a fundo para encontrar o que é realmente verídico ou, pelo menos, testado em sua autenticidade. Bem, nem todos fazem isso e acreditam na primeira mensagem de WhatsApp que lhes chegam.

No caso da Wikipedia há também a falta de controle sobre inverdades. Em outro experimento, coloquei em uma entrada algumas bobagens muito específicas de minha área de atuação. Como não há especialistas habilitados, a informação lá ficou por meses. Eu mesmo retirei depois, alegando atualização. Ninguém questionou a entrada ou a saída. Por isso alerto meus alunos e colegas pesquisadores sobre os problemas de citar a Wikipedia como fonte de dados científicos. É útil para aquilo de informação de almanaque que possui, com dados fáceis sobre demografia, biografias e outros. Mas não é confiável como fonte de pesquisa científica, sem contar que suas supostas fontes (outros sites da internet) apresentam falhas, foram removidos ou estão desatualizados. Se adentrar para as questões políticas, o problema é muito maior devido às interpretações. Bem, mas isso talvez deixe de ser problema, pois haverá a regência do pensamento único oficial a partir do ano que vem.

O autor é químico, pesquisador da Unesp-Rio Claro. adilson.goncalves@unesp.br