10 de julho de 2026
Regional

Arborização urbana mobiliza municípios da região

Aurélio Alonso
| Tempo de leitura: 14 min

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Botucatu tem incentivado a criação de corredor verde para aumentar o plantio de árvores

As árvores urbanas são importantes para a melhoria da saúde pública das cidades. O desafio é conseguir ter uma estrutura que possa manter espécies exóticas e nativas sem trazer problemas para a fiação elétrica. A manutenção também exige pessoal especializado em poda e no manejo.

Em Jaú, a Faculdade de Tecnologia (Fatec) iniciou um amplo levantamento que fez diagnóstico de como está a situação da arborização urbana na área central. Um grupo de alunos coordenados pelos professores doutores Jozrael Henriques Rezende e José Carlos Toledo Veniziani Junior avaliou as árvores de 137 quarteirões da cidade. Há um déficit de mais de 2.100 árvores - a arborização não atinge 50% do ideal que seria de 4 mil árvores.

O levantamento feito em parceria com a prefeitura constatou uma grande quantidade de árvores podadas de forma drástica, canteiros totalmente inadequados que dificultam o florescimento da estrutura arbórea e predominância de poucas espécies e a maioria exótica. 

O censo vai continuar em um ritmo mais lento, porque os estagiários convocados para a empreitada são estudantes e têm um período de trabalho curto. No momento estão sendo avaliadas as árvores de 20 praças.

Prefeitura de Botucatu
Botucatu tem levantamento que aponta déficit de árvore e pretende plantar 10 mil neste ano

A pesquisa também aponta propostas para que a arborização em Jaú melhore. Rezende cita que será necessário até proibir o plantio de resedá, alfeneiro, oiti e murta-de-cheiro na cidade. Essas espécies representam 57% das árvores plantadas. Também será necessária a atualização do Código Municipal de Arborização de 2003 e elaborar um novo Plano Municipal de Floresta Urbana definindo todas as ações, além de profissionalizar a Secretaria de Meio Ambiente com pessoal técnico.

Em Botucatu, o secretário do Verde Márcio Piedade Vieira, não esconde que o "ponto fraco" é a arborização urbana. O município tem problema semelhante a Jaú com déficit de árvore, principalmente nos bairros mais novos.

Numa estimativa da Prefeitura de Botucatu aponta que na área urbana tenha 40 mil árvores nas calçadas, o ideal seria 140 mil. Esse cálculo é feito com base no tamanho da área com a quantidade de habitante conforme índice da FAO/ONU. Nesse cálculo não são computadas somente as árvores urbanas, mas até as plantadas em quintais e praças entram nos cálculos. Para atingir o número ideal de árvores na área urbana será preciso mais de sete anos, calcula o secretário botucutuense.

A prefeitura tem incentivado a criação de "corredor verde", plantio nos dois lados de avenida para que no futuro possibilite sombra ao longo dessas vias, além do incentivo da criação de pomares em praças.

Censo arbóreo aponta falta de árvore 

A falta de árvores nas cidades é uma constatação que vem ganhando relevância por conta das questões ambientais. Em Jaú, um amplo levantamento coordenado pela Faculdade de Tecnologia do município (Fatec) fez um diagnóstico da situação no Centro que vai possibilitar à prefeitura tomar medidas para melhorar a distribuição e o manejo de árvores.

A pesquisa a prefeitura disponibiliza no seu próprio site que avaliou inicialmente o número de árvores em 137 quarteirões, um perímetro total de quase 55 quilômetros ou mais de 1 milhão e 700 mil metros quadrados, levando em conta a largura média de lotes com pouco mais de 13 metros e considerando que cada um deles tenha pelo menos uma árvore. Com esse levantamento foi possível calcular o número ideal de árvores. Conforme a pesquisa, é em torno de 4 mil árvores, no entanto, no trabalho de campo não chegou a 1.900 na área central. Há um déficit de mais de 2.100 árvores, ou seja a arborização não atinge 50% do ideal, explica o professor doutor Jozrael Henriques Rezende que junto com seu colega José Carlos Toledo Veniziani Jr., o Kiko, coordenaram as equipes compostas de estagiários e estudantes da faculdade. Ainda não foi feito em toda a cidade.

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Parceria entre Fatec e a prefeitura possibilita fazer levantamento da arborização urbana em Jaú

É um trabalho científico que faz o raio X de como está a arborização, porém propõe soluções, que se adotadas devem melhorar a paisagem verde. 

Sem contar com a quantidade de árvores podadas de forma drástica e anualmente descaraterizada num processo que se chama de 'arbustização', há canteiros totalmente inadequados e muito pequeno com predominância de poucas espécies e a maioria exótica. "É uma situação ruim para essa área da cidade e o restante não vai mudar muito", observa Rezende.

As principais propostas são: evitar e até proibir o plantio de resedá, alfeneiro, oiti e murta-de-cheiro em Jaú, porque no Centro essas quatro espécies representam 57% das árvores plantadas, além disso é preciso atualizar o Codigo Municipal de Arborização de 2003 e elaborar o Plano Municipal de Floresta Urbana definindo todas as ações e aproveitando os dados do diagnóstico que estabeleceu as ações relacionadas as espécies adequadas. Também é necessária a revitalização das árvores, dos canteiros e das calçadas, produção de mudas e um cronograma para isso.

Conforme o professor Jozrael Rezende, uma ferramenta de geoprocessamento tem de ser incorporada à gestão.

Na pesquisa sugere à prefeitura que é necessário criar um cargo de analista ambiental por meio de concurso público na Seceretaira de Meio Ambiente que vai contribuir na fiscalização e no monitoramento. Esse órgão vai ter a função de aplicar as penalidades previstas na legislação quando municípes e prestadores de serviços desrespeitarem a lei na supressão sem autorização de árvore ou da poda drástica, como também fiscalizar canteiros inadequados e até punir técnicos e fiscais que agirem por omissão, negligência e favorecimento, em laudos que não condizerem com a verdade.

'Diagnóstico' propõe atualizar legislação

O professor doutor Jozrael Henriques Rezende junto com o professor José Carlos Toledo Veneziano Jr., ambos da Fatec, foram os coordenadores do censo arbóreo de Jaú em uma parceria com a prefeitura do município que mapeou as árvores de 137 quarteirões da área central.

Já há um diagnóstico parcial de como está a situação da arborização urbana com propostas de melhorias, dos quais atualizar a legislação municipal, capacitar os técnicos, podares, comerciantes de plantas para que a médio prazo a prefeitura de Jaú melhore a arborização urbana. A seguir os principais trechos da entrevista por e-mial:

JC - Por que é necessário o Plano Municipal de Floresta Urbano com definição de várias diretrizes?

Jozrael Henriques Rezende - A capacitação dos técnicos, podadores, comerciantes de plantas e outros é fundamental para profissionalizar a arborização urbana no município. Só com a profissionalização é que vamos realmente conseguir plantar as espécies adequadas, manejar de forma correta e conduzir o plantio para evitar os conflitos com os outros equipamentos urbanos, ajustar o tamanho de canteiro, acabar com a cultura da poda desnecessária principalmente a drástica. Só assim vão respeitar, admirar e a comunidade ter pertencimento em relação às árvores urbanas.

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Jozrael Henriques Rezende

JC - O que precisa ser atualizado no Código Municipal de Arborização? A lei é muita desatualizada?

Jozrael - O Código de Arborização tem que ser atualizado para definir as proibição de plantio de outras espécies, para adequar às questões do manejo ou seja da poda inicial e de condução da muda até tornar-se uma árvore - da utilização de espécie de porte adequado, definir os canteiros que precisam ser modificados com urgência - um dos maiores problemas é a inadequação dos tamanhos dos canteiros, enfim, toda lei precisa ser revista com certa regularidade. O Código de Arborização já tem quinze anos e precisa efetivamente ser revisto.

JC - Por que é necessário o Plano Municipal de Floresta Urbano com definição de várias diretrizes?

Jozrael - O Plano Municipal de Floresta Urbana é que vai nortear todo o planejamento da arborização urbana, nesse documento legal vai definir como deve ser os canteiros para cada situação encontrada na cidade, quais são as espécies recomendadas para cada situação, como deve ser as mudas, como serão produzidas para arborização que é um processo diferente - as mudas devem ter um tamanho adequado, quais as recomendações que são feitas e como deve ser feita a poda, qual o cronograma de ações, então é de extrema importância a elaboração e aprovação de um Plano Municipal de Floresta Urbana.

JC - Na proposta consta criar uma estrutura mais técnica no Departamento de Meio Ambiente. Isso não tem atualmente? Falta essa profissionalização?

Jozrael - A Secretaria de Meio Ambiente tem poucos técnicos e fiscais trabalhando nessa área, embora tenha pessoal capacitado, mas o numero é pequeno. É preciso um número maior de técnicos. Na Secretaria já melhorou o conhecimento e tem outra visão da arborização urbana, porque essa profissionalização na Secretaria já está acontecendo.

Macatuba também faz censo das árvores

Macatuba é um município diferenciado quando o assunto é arborização urbana. Em todas as ruas dos bairros tem uma árvore. De acordo com a prefeitura, o plantio sem planejamento, no entanto, fez com que a municipalidade iniciasse um trabalho de redefinição das diretrizes da arborização urbana,  para evitar os conflitos com aparelhos urbanos, problemas com vias públicas e as podas.

Pela legislação para novos parcelamentos de solo,  todo empreendimento habitacional deve ter um projeto que contemple ao menos um espécime arbóreo por lote, além das áreas verdes preconizadas em outros diplomas legais. Existe sobretudo um projeto que contempla fiação compacta, variabilidade de espécies e escolhas de espécie de porte e tamanho adequado. Neste ano também foi incluído o conceito de 'Espaço Árvore' com medidas próprias e georreferenciada para garantir sempre o espaço destinado à árvore.

No momento está em elaboração o Plano Municipal de Arborização Urbana para definir diretrizes e objetivos para a arborização urbana nos próximos 20 anos.

Neste ano teve pela primeira vez a participação popular no censo arbóreo. Os membros do Lions Clube auxiliaram e participaram do levantamento do número de árvores nos bairros Jardim Europa e Vila Santa Rita.

O município também tem uma cartilha de arborização urbana que de forma didática explica como deve ser o manejo da arborização urbana.

A Santa Casa de Macatuba, por iniciativa do obstetra Calixto Felipe Hueb, entrega a cada criança que nasce no município uma muda de árvore nativa. As mudas são doadas pela Prefeitura Municipal ou por empresas parceiras.

Para 2019, a prefeitura pretende frisar a questão da arborização urbana tanto na educação formal como na educação não formal para implantar as novas diretrizes na arborização urbana, informa a assessoria de imprensa da prefeitura. 

Botucatu incentiva 'corredor verde'

Prefeitura de Botucatu
O secretário do Verde de Botucatu, Márcio Piedade Vieira, diz: há déficit no número de árvores 

Botucatu tem se destacado no ranking do município verde e azul da Secretaria de Estado de Meio Ambiente. E dentre as várias diretrizes ambientais estão a arborização urbana no município. O secretário municipal do Verde, Márcio Piedade Vieira, o 'Kaco', admite, sem falsa modéstia, que a arborização é um dos "pontos fracos" embora a administração tenha se dedicado a baixar o déficit de árvores com a implantação até mesmo de pomares urbanos, 'corredor verde' e disque-árvore.

Numa estimativa da prefeitura aponta que o município tenha 40 mil árvores, o ideal seria 140 mil. Esse cálculo é feito com base no tamanho da área com a população conforme índice da FAO/ONU. Nesse cálculo não estão só as árvores urbanas, mas até as plantadas em quintais e praças entram na estatística. Pelos cálculos vão ser preciso mais de sete anos para chegar ao número ideal de árvores na área urbana.

Para fazer frente a essa "falta de árvore", a Secretaria do Verde traça meta de fechar o ano com o plantio de mais 10 mil. "Estamos fazendo quase um quarto do que tinha de árvores com o plantio de novas espécies neste ano. Não havia um planejamento no plantio das árvores, tudo era feito aleatoriamente, sem obedecer normas como largura de calçada de nem se a árvore poderia atingir fiações elétricas", comenta o secretário.

Atualmente, a Secretaria do Verde tem estudo definido para cada tipo de árvore que deve ser plantada nas calçadas, obedecendo limites no passeio público, se há fiação primária ou secundária e espécie adequada.

Devido a falta de critério ao longo dos anos, o secretário admite que há muitas árvores no Centro de Botucatu que deveriam ter sido suprimidas, devido ao porte inadequado por problemas de ocupar espaço nas calçadas pelo tamanho dos troncos, mas como há falta de árvore tem permanecido as que ocupam espaço e fora das especificações. "Há calçada no Centro antigo com largura de  1,20 m e tem árvore que cresceu muito e no local não passa nem cadeirante e mal passa gente, mas se for tirar todas essas árvores seria pior", declara.

A prefeitura criou o disque-árvore, um sistema em que o munícipe interessado em ter uma árvore na porta de sua casa pode solicitar pelo telefone. A Secretaria do Verde vai ao local, verifica se tem fiação e onde pode plantar. "Há um estudo feito aqui em Botucatu que de cada 10 árvores, quatro morrem. Estamos conversando com as pessoas, porque por esse sistema é mais eficiente. Para requerer o habite-se é obrigatório ter árvore, mas pode ocorrer da pessoa não cuidar e a árvore morrer", conta o secretário.

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Secretaria do Verde tem incentivado o plantio de árvores frutíferas em praças de Botucatu

As mudas que estão sendo plantadas deve ter no mínimo 1,80 m de altura para ter a possibilidade de resistir, a planta em tamanho menor acaba não resistindo e morre.

Botucatu tem mais árvores na área da cidade antiga e menos nos bairros novos, mesmo com legislação que obriga o plantio. "Com a ampliação da cidade, os governos anteriores não foram generosos em incentivar o plantio de árvores, daí a deficiência, embora isso não seja o fim do mundo, porém precisa ter mais árvores", explica.

Atualmente tem incentivado a criação de "corredor verde". As principais ruas e avenidas de Botucatu vem ganhando novas árvores. A intenção é plantar mudas nas calçadas das ruas que levam até o Centro de Botucatu e assim estimular que as pessoas façam caminhadas por vias mais arborizadas.

As mudas de árvores são próprias para a arborização urbana, escolhidas por técnicos, que analisam a tipologia de fiação elétrica, espaçamento de calçada, existência de rede de esgoto, tubulações de gás, entre outros elementos que devem ser levados em consideração na hora da escolha da espécie. "Temos cerca de 14 áreas verdes e em algumas delas estamos transformando em pomares urbanos com plantio de frutas. Futuramente vamos ter a arborização local e ainda essas frutas", finaliza Vieira.

Para os especialistas, arborização urbana deve ser planejada

Os biólogos Alessandro Zabotto, da Faculdade de Ciência Agrária (FCA) do câmpus da Unesp de Botucatu, e Fernando Periott, da UFScar, explicam que cada cidade deve definir quais são as espécies nativas e exóticas de árvores em vias públicas, porque depende do bioma local. Recentemente, eles deram um curso de arborização urbana na FCA.

Dentre as espécies inadequadas, os biólogos citam figueiras, chorão e flamboyant. Essas árvores possuem sistema radicular agressivo e vigoroso. Também árvores frutíferas de grande porte como abacateiro, mangueira e jaqueira devem ser evitadas por serem muito suscetíveis ao ataque de cupins. Outras são as que exijem podas frequentes e que possuam substâncias tóxicas.

Eles observam que a prefeitura deve ter um planejamento tanto de plantio como nas podas. A seguir os principais trechos da entrevista concedida por e-mail:

JC - Quais são os cuidados que devem tomar para as árvores plantadas recentemente e as perenes?

Alessandro Zabotto e Fernando Periotto - As recentemente plantadas, covas bem-feitas, remoção de parasitas, adubação adequada e irrigação constante até que ela se estabeleça. Para as mais velhas, perenes, podas e remoção, caso necessário por algum perigo potencial.

JC - Qual a importância em uma cidade a arborização urbana: como se faz a valoração monetária e ecológica de árvores urbanas?

Zabotto e Periotto - Várias importâncias como redução na temperatura, elevação da permeabilidade do solo, redução da poluição do ar, proporcionar sombra, embelezamento de bairros e ruas e até bem-estar psicológico, trazendo valorização aos bairros e atraindo a fauna (aves, insetos e pequenos mamíferos) nativos.

JC - Há riscos de quedas de árvores colocando em risco a população e mesmo a rede elétrica? Isso pode ser avaliado e tem como prevenir? Quais os tipos de árvores a serem evitadas na arborização?

Zabotto e Periotto - Sim. Podem haver muitos riscos, principalmente se a implantação da arborização urbana for feita sem critérios técnicos botânicos estratégicos quanto a fiação elétrica e todos os demais equipamentos urbanos. Desde a germinação da semente escolhida, inicia-se ou evita-se o problema das espécies vegetais escolhidas para serem postas em calçadas, canteiros centrais, praças ou parques municipais.

JC - No Brasil, quais são as espécies de árvores que predominam na arborização?

Zabotto e Periotto - Depende do tipo de bioma que a cidade está inserida, porém, são encontradas muitas árvores de pata-de-vaca (Bauhinia purpúrea), quaresmeira (Tibouchina granulosa), pau-ferro (Libidibia férrea), ipê-amarelo (Handroanthus umbellatus), sibipiruna (Caesalpinia peltophoroides), aroeira (Schinus terebinthifolius), Cássia do Nordeste (Cassia spectabilis), manacá-da-serra (Tibouchina mutabilisdentre) dentre outras.