09 de julho de 2026
Geral

Lambe-lambe bauruense ganha o mundo

Nélson Gonçalves
| Tempo de leitura: 3 min

Arquivo Pessoal
Gabriel X. Santos, 22 anos, e Nicolas C. Figueiredo, 18 anos

A arte não tem barreiras, nem de conteúdo e nem físicas. É o que estão experimentando, na prática, os jovens Gabriel Xavier Santos, 22 anos, e Nicolas Correa Figueiredo, 18 anos. Eles passaram a produzir conteúdo artístico em lambe-lambe há pouco tempo e, após conseguirem que uma amostra fosse divulgada em festival na Argentina, viram seus materiais ganharem o mundo. O lambe-lambe dos bauruenses acaba de obter destaque em exposição no Egito e em mostra no Líbano. 

O lambe-lambe é uma vertente da arte de rua que utiliza cartazes como intervenção urbana. Ela teve origem na propaganda popular, através do velho cartaz de muro. Utilizado com propósitos diferentes - desde a transferência simples de ideias ou divulgação de artes a protestos elaborados através de imagens e textos -, o lambe-lambe tomou conta da vida dos jovens bauruenses.

Eles contam que se "infiltraram" em contatos entre coordenadores de mostras e conseguiram que cartazes fossem colados no Mercado de Pulgas, em Buenos Aires, Argentina, há alguns meses.

"Dos contatos e do envio de material em arquivo, uns cartazes foram selecionados. Eu fui para Buenos Aires e lá lotou a exposição no Mercado de Pulgas, na Capital. Aí nós conseguimos enviar material para uma chamada aberta da Lambes Brasil, a principal produtora de festivais e mostras do meio, e fomos parar com nosso material na exposição do Cairo, no Egito. O Alberto Pereira, um reconhecido organizador de lambes, levou nossos cartazes. De lá, agora no início de novembro passado, o material fez sucesso e veio o convite para a exposição na Embaixada Brasileira do Líbano, em Beirute", conta Gabriel.       

 Nicolas começou a produzir a arte em 2012, mas também gostava de grafite. "Eu tinha um professor grafiteiro no ensino médio. Sempre gostei de arte, fiz curso na Casa Amarela em Bauru, tive aula de desenho de realismo no ensino fundamental. Participei de arte de rua e estive no programa "O Eixo", desenvolvido pelo Sesi para atividades artísticas, além do currículo natural. Pintamos primeiro em Bauru e aí encontrei o Gabriel e passamos a produzir e enviar para mostras, e deu muito certo", comemora. 

Eles contam que o material pode ser confeccionado de diversas maneiras, utilizando-se de computação gráfica, pintando com tintas e sprays e também stencils (molde). Os produtos finais variam de tamanho e, em geral, são colados. Para eles, a referência na arte no Brasil é Bueno Caos.

Gabriel começou em 2012. "Eu comecei com lambe-lambe, mas gostava de grafite e não tinha muita técnica. Comecei com molde e depois fui desenvolvendo. Antes de enviar para os festivais, agora, eu tive uma experiência sozinho antes. Eu aproveitei uma viagem a passeio, na casa de parente, em Barcelona, na Espanha. Então, me cadastrei para pintar muro e tive o pedido aprovado. Em Barcelona, eu fui para rua e pintei dois muros, que lá são indicados previamente no cadastro. A arte é autorizada e tem programa habilitado na Espanha, diferente daqui", completa Gabriel.     

CURIOSIDADE

Segundo o documentário "Cola de Farinha", os cartazes de lambe-lambe se difundiram a partir de 1454 (período do Renascimento) por Saint Fleur.

Depois, o conteúdo foi seguido por Toulouse-Lautrec, que retratava o submundo e a boemia de Paris, França. Já em 1917,  ano do início da Primeira Guerra Mundial, os russos começaram a produzir cartazes. A ação foi copiada pelo nazismo utilizando da técnica lambe-lambe. 

No Brasil, o lambe-lambe teve maior importância na época da ditadura militar tanto quanto manifestação de protesto, resistência, quanto pela polícia.

O aparato de segurança utilizava a técnica para ir atrás de procurados pelo regime.