08 de julho de 2026
Articulistas

A salada educacional

Zarcillo Barbosa
| Tempo de leitura: 4 min

O presidente eleito Jair Bolsonaro correu o risco de acertar na escolha do ministro da Educação. Mozart Ramos tem currículo e é um nome respeitado, tanto no meio privado como no acadêmico. Sua indicação parecia boa demais para ser verdade. E era.

O educador foi vetado pela poderosa bancada evangélica, aliada do futuro presidente. Entrou em cena a turma da Escola Sem Partido - movimento criado em 2002 e que se opõe ao que considera ser "doutrinação ideológica" nas escolas. Foi apresentado o nome de Guilherme Schelb, o mesmo que denuncia pela rede a existência de um complô para "doutrinar" e "erotizar criancinhas nas escolas". Bolsonaro preferiu ouvir seu guru Olavo de Carvalho, antes de bater o martelo encerrando a discussão. Vai ser Ricardo Vélez Rodrigues, colombiano naturalizado brasileiro, professor da Escola de Comando e Estado Maior do Exército. O ideólogo e polemista Olavo de Carvalho, é autor do livro "O mínimo que você precisa saber para não ser um idiota". Bolsonaro sempre deixa um exemplar sobre a mesa de casa, para que jornalistas e curiosos saibam qual é a sua leitura preferida, além da Bíblia. Olavo já havia apadrinhado o trumpista Ernesto Araújo, emplacado ministro das Relações Exteriores. Agora, deu por esgotado o seu estoque de ministros. Indagado sobre as origens de tanta influência sobre os Bolsonaro - pai e filhos - explica: "Eles leem coisas que eu escrevo e levam a sério". O olavismo passou de piada a doutrina oficial do governo. Periga, um dia, o eleitorado cansar-se do intermediário e lançar "Olavo para presidente".

No aspecto prático, o futuro ministro da Educação, indica que sua política educacional dará autonomia a Estados e municípios, em consonância com o mantra bolsonarista "Menos Brasília e mais Brasil". Especialistas da área temem uma ruptura brusca do projeto unificado para o sistema de ensino no Brasil. Também não se sabe quem, realmente, irá comandar a "reforma" do ensino. Indicado para a Secretaria de Privatização, o empresário Salim Mattar, quer que prevaleça a lógica liberal para a educação. E ela passa pelo setor econômico e se encaixa no conjunto das privatizações. Uma das mudanças seria a do "voucher educação", que estipula a criação de vales para as famílias escolherem um colégio privado e matricularem seus filhos. Mattar, um ultraliberal convicto, dono da Localiza, defende também aprofundar a formação técnica profissional. Em vez de "formar para a vida", o plano é o de preparar a massa para o "mercado de trabalho". Aí entra o astronauta bauruense Marcos Pontes. O ensino superior deverá estar sob o seu comando na pasta da Ciência e da Tecnologia. Entra em pauta a velha questão de se cobrar mensalidade em universidades públicas. Outro foco é o ensino à distância, voltado às áreas rurais. Bolsonaro também quer botar a sua colher no angu, chamando para si as mudanças nas provas do ENEM. Sem Pajubá, aquele dialeto falado pela comunidade LGBT . Na campanha eleitoral, prometeu a construção de uma Escola Militar em cada capital brasileira. O custo do modelo é três vezes maior que da escola pública. O investimento é alto e o alcance é baixo, num universo de 40 milhões de estudantes do país.

Ao ministro Rodríguez, ouvidos os evangélicos, caberá a missão de vetar a palavra "gênero" e a expressão "orientação sexual" do ensino básico. A matéria pode ser votada ainda este ano, pela Câmara dos Deputados. Elimina-se a proposta de Escola sem Homofobia, aquela que ganhou o apelido de "kit gay", de grupos conservadores. Outra discussão traumática será a da eliminação das cotas raciais.

A aprovação dos principais ingredientes dessa salada dependerá do Congresso Nacional. A Constituição prevê a gratuidade em todos os níveis do ensino público. As cotas são garantidas por lei federal de 2012. Qualquer emenda na Carta exige a aprovação em dois turnos na Câmara e no Senado, com maioria qualificada (três quintos). Serão muitos os envolvidos, sem foco definido em nada.

Sou do tempo em que se estudava Latim no Ginásio. Entrei com quatro anos na escola, no Jardim da Infância, e saí com 60 anos, no pós-pós, com interregnos. Passei por muitas reformas no ensino. Naquela época, ninguém se preocupava com Escola sem Partido ou "ideologização de índole cientificista" por parte dos professores. Magister dixit - o mestre disse. Fim de papo. De todas as diretrizes e mudanças curriculares a que assisti, gravei somente o comentário do professor de Química, com base na Teoria da Bosta Seca. Quanto mais mexe, mais fede.