08 de julho de 2026
Cultura

Bertolucci sai de cena


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Alessandro Bianchi/Reuters
Bernardo Bertolucci, durante mais um Festival de Cinema de Veneza, em agosto de 2013

Um dos mais conhecidos e polêmicos cineastas das últimas décadas, o italiano Bernardo Bertolucci morreu aos 77 anos vítima de câncer. Ele também vivia em cadeira de rodas desde uma complicada cirurgia de hérnia de disco em 2003.

Filho do poeta Atílio Bertolucci, Bernardo deu início à sua carreira com "La Comare Secca" ("A Morte") em 1962. Também teve destaque com seu segundo longa, "Antes da Revolução" (1962) - tema que ele reencontraria mais tarde no épico "Novecento, 1900" (1976).

O filme "1900" faz parte do, digamos assim, "núcleo duro político" da obra de Bertolucci, eixo que nunca deixou de conviver com outra de suas preocupações - a questão da subjetividade humana, em leitura psicanalítica (seu extremo, nessa tendência, seria "La Luna" (1979) sobre a relação entre filho e mãe em chave edipiana explícita.

Por isso, uma de suas maiores obras, "O Conformista" (1970), tirado do romance de Alberto Moravia, analisa a questão do fascismo na Itália em suas determinações sociais, mas também nas raízes psicológicas do personagem principal, vivido por um Jean-Louis Trintignant em estado de graça. 

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"O Último Imperador" venceu 9 Oscar, inclusive de melhor filme e direção: grandioso

A produção disse muito sobre a realidade italiana da época e talvez ainda tenha umas duas ou três palavras a dizer sobre a atualidade brasileira. A ser revisto em nossos dias.

Bertolucci gostava de apoiar-se em grandes autores. Stendhal em "Antes da Revolução", Moravia em "O Conformista" e Jorge Luis Borges em "A Estratégia da Aranha". Neste último, que é outro de seus grandes filmes políticos, Bertolucci inspira-se no breve relato de Borges "Tema do Traidor e do Herói" para falar da ascensão de Mussolini e dos crimes políticos na Itália fascista - uma de suas obsessões.

ÚLTIMO TANGO

Bertolucci já era amplamente conhecido por esses filmes, mas seu nome tornou-se universal com um sucesso de escândalo como "O Último Tango em Paris" (1973). Um desesperado viúvo de meia-idade (Marlon Brando) inicia caso terminal com uma jovem (Maria Schneider) numa Paris crepuscular. Schneider contaria, anos mais tarde, de que não sabia do realismo envolvido na cena de sexo com Brando (na famosa "cena da manteiga") em combinação dele com Bertolucci. Brando morreu em 2004 e Schneider em 2011.

O sexo, naquele filme, é menos exercício de prazer ou afeto e mais tentativa frustrada de remediar o vazio existencial. Amado e odiado, marcou época. Resistiu ao tempo e às tentativas de vinculá-lo aos controversos bastidores de filmagem. A crítica Pauline Kael comparou a importância do "Tango", para o cinema, à da estreia da Sagração da Primavera, de Stravinski, para a música.

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"O Último Tango em Paris" com Maria Schneider e Marlon Brando: cercado de polêmicas

CONSAGRAÇÃO

Bertolucci, que sabia trabalhar tão bem na contenção como no épico, não deixou de ser mordido pela mosca azul do êxito universal que, no cinema, atende pelo nome de Hollywood. Seu grande êxito nesse terreno foi com grandiloquente "O Último Imperador" (1987), ganhador de nove Oscars em 88, entre os quais os de melhor filme e diretor. 

Sua outra incursão oriental, em "O Pequeno Buda" (1993), não teve o mesmo sucesso - nem foi apreciado pela crítica. É um trabalho bastante artificial e inconvincente, um dos raros pontos baixos numa carreira em que cumes e cordilheiras são comuns.

Já em outro de seus filmes "americanos", "O Céu Que nos Protege" (1990), adaptado de Paul Bowles, foi bastante feliz, retomando o tema do estranhamento entre culturas, que também nunca deixou de fasciná-lo.

DESFECHO

A fase final de carreira inclui uma bela peça de câmara de retorno à Itália, como "Beleza Roubada" (1996), uma antevisão do que seria um tema comum nos anos 2000 com "O Assédio" (1998), uma revivescência dos anos rebeldes do maio francês de 1968 com "Os Sonhadores" (2003) e a questão familiar em tom minimalista com "Eu e Você" (2012), seu último trabalho. 

Você sabia?

Ele ganhou o Oscar de melhor filme e de diretor por "O Último Imperador" em 1988.