10 de julho de 2026
Economia & Negócios

Negócios em casa: qualidade de vida

Lucas Scatolini
| Tempo de leitura: 3 min

A bicicletaria do casal Carolina e Juliano Tancredi funciona na garagem da casa, em São Paulo: "Nós trabalhamos todos os dias, de segunda a segunda e feriados. A gente está contra a crise"

Levantamento do Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae) em 2017 aponta que existem hoje mais de 6 milhões de trabalhadores com registro de Microempreendedores Individuais (MEI) e que quase metade deles opera na própria residência. Em São Paulo, essa prática antiga tem ressurgido nos bairros da capital não só como forma de driblar a crise econômica, mas também como forma de buscar melhor qualidade de vida, como uma tentativa de evoluir profissionalmente ou mesmo colocar os projetos pessoais em prática.

Após 26 anos trabalhando como correspondentes bancários e corretores de seguros, Carolina Tancredi, 41 anos, e o marido dela, Juliano Tancredi, 42 anos, aproveitaram a leve retomada na economia para abrir um novo negócio próprio onde funcionava o escritório do casal. Depois de cerca de um ano fazendo pesquisa de mercado, o casal decidiu abrir uma bicicletaria dentro do espaço de 56 m² com vitrine para a rua, onde atualmente eles vendem equipamentos e mantêm uma oficina.

Para o especialista em empreendedorismo do Sebrae, Ênio Pinto, a falta de oportunidades no mercado de trabalho tem aumentado o número de pequenos negócios em residências nos últimos anos. "Nós temos 13 milhões de desempregados que não conseguem ingressar na sociedade produtiva como empregado, colaborador, funcionário. Você não tem emprego, mas tem muito trabalho à frente de pequenos empreendimentos, então, com certeza, há uma expansão desse perfil de negócio", avalia.

Marcos Salusse, coordenador de projetos do Centro de Empreendedorismo e Novos Negócios, da Fundação Getulio Vargas (FGV), aponta que o empreendedor por necessidade tem como características optar por negócios não inovadores e sem planejamento. "Em 2016, quando a economia começa a melhorar, a primeira coisa que acontece é que essas pessoas voltam para o mercado de trabalho, então as taxas de empreendedorismo acabam caindo. Foi o que a gente viu nesse período", explica.

CONTRA A CRISE

Além de ser um mercado em expansão, Carolina Trancredi justifica a escolha do empreendimento como um segmento "prazeroso". "A gente queria algo saudável, queria algo pra cima, algo alegre, com menos estresse, e a bicicleta trazia isso", explicou a administradora.

A bicicletaria, localizada no bairro da Água Branca, zona oeste da capital paulista, completará um ano de funcionamento em outubro. Sobre o retorno financeiro, Carolina afirma estar muito satisfeita, mas ressalta que o momento exige dedicação.

"Quando a gente abriu a loja, a gente tinha quatro, cinco bicicletas para vender, e hoje já tem um estoque de quase 50 bicicletas para venda. A gente tem um movimento diário de clientes que vem buscando a parte de manutenção. Nós trabalhamos todos os dias, de segunda a segunda, de feriado. A gente está contra a crise".

Outro ponto que a empreendedora destacou foi o investimento relativamente baixo na adequação do espaço. Com os recursos financeiros que tinham, cerca de R$ 8 mil, o casal resolveu utilizar materiais de reúso na reforma, como foi o caso das grades da porta, no vidro utilizado na vitrine, além de objetos construído com pallets. Muitos dos materiais para oficina foram adquiridos com lojistas que estavam fechando o negócio e eles também contaram com a doação de fornecedores que apostaram no empreendimento.

O especialista do Sebrae alerta que é preciso ter cuidado para não misturar as contas da empresa com as despesas pessoais. "E na hora que você mistura as contas da sua casa com as contas do negócio você começa a ter dificuldade de tomar decisão gerencial, não sabe quais são os reais números do empreendimento e fica com dificuldade de fazer análise e tomar decisões", disse Ênio Pinto.

Para a administradora da bicicletaria, o fato de não ter uma renda fixa todo mês é uma barreira na organização. "Quando a gente é microempreendedor, é muito difícil separar a pessoa física da pessoa jurídica, porque você não tem nada garantido. A gente não tem um salário fixo, que todo quinto dia útil está na nossa conta", apontou.