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| José Sebastião dos Santos: "Sempre quis ser médico e professor" |
| Eliana Fortes Mello e José Sebastião em viagem à França, em 2017, com Marina Santos, uma das filhas do casal |
Foi em Uchôa, pequena cidade do Interior Paulista entre Catanduva e São José do Rio Preto, que teve início o sonho de José Sebastião dos Santos de se tornar médico. Sonho que virou realidade e foi até além do que ele poderia imaginar. Hoje, inclusive, Sebastião ultrapassa a missão nobre de atender e também atua como professor, gestor e articulador da saúde. É o atual superintendente "pro tempore" do Hospital de Reabilitação de Anomalias Craniofaciais da Universidade de São Paulo (HRAC/USP), o Centrinho, e também o coordenador do curso de Medicina da Faculdade de Odontologia de Bauru (FOB/USP).
Inspirado por um médico da família, saiu aos 17 anos de casa rumo à Faculdade de Medicina de São José do Rio Preto, onde concluiu a graduação em 1984. Dali em diante, a trajetória de estudos foi longa, passando, inclusive, pela University of Minnesota, nos Estados Unidos. Isso depois de concluir a residência médica em Cirurgia Geral e Cirurgia Digestiva pelo Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto (HCFMRP) da USP; mestrado, doutorado e livre docência em Cirurgia também na HCFMRP/USP; e especialização em Gestão Hospitalar pelo Ministério da Saúde. Também Já foi diretor da Unidade de Emergência do HCFMRP/USP e secretário municipal de Saúde de Ribeirão Preto (2005-2006). Fôlego para tudo isso? Determinação e inspiração nos professores que teve, sobretudo, naquela que o alfabetizou.
Atualmente, José Sebastião divide a moradia entre Ribeirão Preto e Bauru. Lá, mora com a esposa e os filhos. Aqui, passa de dois a três dias semanalmente por conta do trabalho na USP.
Polido e centrado, o médico, professor e gestor recebeu a reportagem do Jornal da Cidade na tranquilidade de seu escritório, na universidade bauruense, para uma conversa agradável sobre sua vida. Ele também aproveitou para avaliar o curso de Medicina da USP em Bauru e os desafios de gerir o Centrinho. Confira:
Jornal da Cidade - De onde surgiu o interesse do senhor pela medicina? Teve alguém que o inspirou nisso?
José Sebastião - A minha inspiração veio de um médico da minha cidade, Miguel Chaddad. Ele era como que um médico de família, atendeu a minha também e fazia uma atividade muito interessante junto à população. Depois, fiquei sabendo que fui professor de um neto dele. Inclusive, quando o menino se formou, liguei para o Miguel e tivemos uma conversa muito interessante.
JC - E como a docência chegou na sua vida?
José Sebastião - Na verdade, eu sempre quis ser médico e professor. Até fiz uma dedicatória em um livro que escrevi para a professora [Dalvina Blanco Kater] que me alfabetizou. Eu tenho enorme respeito por professores que alfabetizam porque eles nos dão a visão do mundo. Essa professora, dois outros de pediatria e um de cirurgia foram grandes inspirações para mim na docência.
JC - E, durante sua carreira, houve algum caso ou paciente que te marcou?
José Sebastião - Sim. Há pouco tempo, inclusive. Neste caso, eu vi a importância da integração entre polícia, Samu e o hospital. Tratava-se de um atleta que havia sido baleado e foi rapidamente resgatado pela polícia e Samu, mas chegou praticamente morto no hospital. Como eles nos informaram com antecedência, quando ele chegou, estávamos prontos. Salvamos ele, mas não pelo meu trabalho, mas pela união de esforços. Outro caso que lembro é de quando ainda não tinham muitos testes para Aids e uma paciente precisou de bolsas de sangue, uma delas de um homem que descobriu, tardiamente, que era soropositivo. Foi uma situação bastante complicada para equipe em relação a contar ou não para a paciente. O diretor do hospital foi sábio em dizer que teríamos que esperar para ver se ela desenvolveria a doença e não contar. Pedimos que ela não tivesse relações sexuais por seis meses, com outra justificativa e fomos fazendo testes. Por fim, ela não adquiriu a doença e não a assustamos.
JC - E, além da medicina e da docência, o senhor tem outras paixões? Como esportes, música...
José Sebastião - Quando eu era mais novo, eu ainda fazia alguns esportes, mas, com a idade, o ideal é preservar o corpo de um possível acidente, por exemplo, com a mão. Isso me prejudicaria muito por conta da minha profissão. Mas, gosto muito de caminhar em contato com a natureza. Também gosto de ler e confesso que a minha profissão não me permite acompanhar muito as novidades no cinema, na televisão e na música.
JC - Agora, falando um pouco sobre Bauru... como foi assumir o implantação do curso de Medicina da USP, algo tão sonhado pela cidade? Já tinha vindo para cá?
José Sebastião - Já estive sim, duas vezes, mas apenas para conhecer a USP. Para mim, a indicação foi um grande privilégio. O reitor na época, o professor Marco Antonio Zago, ter lembrado de mim foi, talvez, uma das coisas mais importantes da minha carreira.
JC - O senhor pode fazer um breve balanço sobre este primeiro ano de Medicina na USP em Bauru?
José Sebastião - Olha, o resultado foi além do que a gente imaginava. Os estudantes ficaram muito entusiasmados com a proposta curricular que foi feita, de trabalhar com metodologias ativas e interativas, desde o início do curso. Eles foram expostos a vários ambientes de formação, iam em serviços de saúde e, mesmo no câmpus, foram criados laboratórios específicos para que se desenvolvessem. Foi feita uma integração entre eles, a sociedade, as expectativas que essa sociedade tem. E esperamos levar assim, essa ampla interação, durante todo o curso.
JC - Falando sobre sua atuação como gestor, o senhor tem experiência como diretor da Unidade de Emergência do Hospital das Clínicas de Ribeirão Preto. Essa experiência ajuda na gestão do Centrinho?
José Sebastião - Ajuda muito. Aqui e para o resto da vida. Dirigir um hospital complexo como era aquele, de 200 leitos e referência regional, é a minha experiência de gestão mais marcante do ponto de vista profissional. Isso também me ajudou muito como professor, como médico e como gestor.
JC - E, além do seu extenso currículo em relação à medicina, o senhor fez curso de Administração, certo? Como surgiu esse interesse?
José Sebastião - O fato de ter coordenado alguns serviços e depois um hospital fizeram com que eu quisesse me aprofundar no assunto. Então, eu fiz dois cursos, um pelo Ministério da Saúde e outro MBA pela Faculdade de Economia e Administração (FEA) da USP. Isso ampliou muito meu olhar como gestor.
JC - E como está sendo a missão de assumir um hospital de referência nacional e internacional, como o Centrinho?
José Sebastião - É um privilégio e, para mim, um aprendizado. Eu pude ver um como o Centrinho se organizou ao longo de 50 anos para atender essa necessidade da população e fez isso com muita maestria e diferenciação. A responsabilidade é muito grande, porque a nossa expectativa é que a Faculdade de Medicina e o Hospital das Clínicas potencializem o que o Centrinho está fazendo.
JC - O que o senhor avalia como maior desafio?
José Sebastião - Acredito que estabelecer com o Sistema Único de Saúde uma cooperação onde o sistema sinta que o que vai ser agregado aqui possa mitigar um pouco as dificuldades que o sistema loco-regional enfrenta na questão do acesso e da resolutividade para problemas da saúde, que sabemos, que estão na fila. Definir como será o modelo administrativo jurídico do Hospital das Clínicas e como vai se relacionar com o sistema de saúde e a própria universidade é o desafio do momento. Queremos que seja um HC com a mesma inserção como o de São Paulo e de Ribeirão Preto, que vai, sem dúvida, atender o Sistema Único de Saúde, mas também às necessidades da Universidade, que é de formar bem, produzir novos conhecimentos e fazer uma assistência de ponta.
JC - O senhor tem suas competências em Ribeirão Preto e aqui em Bauru. Trabalhando com tanta demanda de si mesmo e com tantas lideranças, como o senhor se mantém firme?
José Sebastião - Acho que esse ano deu pra perceber que não é muito fácil, porque tem várias providências a serem tomadas. Mas a vantagem é que eu lido com muitas lideranças e, de certa forma, vou junto com as pessoas definindo um caminho e cada uma delas acaba se desenvolvendo e tocando parte desse projeto. Conto com muito apoio para tudo isso.
PERFIL
José Sebastião dos Santos tem 58 anos é filho de Aurélio dos Santos (in memoriam) e Flausina Camilo Pinto dos Santos e irmão de Geni, João Horácio, Jonas Vicente, Ana Maria e Marco Aurélio
É casado com Eliana Fortes Mello dos Santos e pai de Marina, Heitor e Beatriz
Em seu tempo livre gosta de ler e caminhar
Quando o assunto é futebol, torce para o Palmeiras
Indica como filme preferido Gandhi e como livro Ponto de Mutação, de Fritjof Capra
Está lendo atualmente Being Mortal, de Atul Gawande
Contato: jsdsanto@fmrp.usp.br