08 de julho de 2026
Articulistas

Coalhada

Roberto Magalhães
| Tempo de leitura: 4 min

Tudo que é horrível um dia vira frase. Bobagem, as coisas boas também. Aliás, tudo vira frase. Até este mal-ajambrado texto outra coisa não é senão tentativa frustrada de amarrar uma frase na outra. No universo doméstico, certas frases são demolidoras, acabam com os casamentos. Não só na vida conjugal, elas são predatórias. Também no campo profissional, no debate político, nas redes sociais então... É pela boca que nos afastamos uns dos outros.

Por ora, fiquemos no restrito espaço conjugal, é nele que elas machucam mais. Entre marido e mulher, existem frases corrosivas, perversas, impiedosas. No bate-boca, quebramos a promessa feita ao padre. Um exemplo? É odioso quando nossa doce e terna mulherzinha, subindo-nos nas costas, lá de cima berra: "Eu não te avisei? Aviseeeeei siiiiim! Adianta? Não adianta! Você não me escuta! Você não pensa!!!" Pronto, vai a gente, vai a cara, vai a dignidade, inclusive a frase, tudo pro chão.

Nada pode ser pior. Primeiro, porque nossa mulherzinha está nos dizendo na lata que somos completamente burros. Sim, existem burros incompletos. Não é o nosso caso, fomos avisados da "coalhada" que faríamos e, mesmo assim, fizemos a "coalhada". Digamos assim para garantir a higiene do texto. Dita literalmente, a frase federia muito.

Segundo, porque somos obrigados a admitir que a nossa doce e inteligente mulherzinha só não nos protege mais porque somos de uma idiotice tsunâmica. Terceiro, porque essa frase, para a infelicidade de quase todos os maridos, - os outros já fizeram as malas e sumiram - vai ser repetida "per saecula saeculorum". Esta expressão - se não for latim é alemão - deve ser assim traduzida: "até que a morte os separe", coisa que demora pra caramba, séculos e saeculorum. Pronto, bem ou mal, está traduzida.

"Ah, mas o marido da fulana não é assim". Essa frase é um chute no "baço". Digamos assim para garantir a eficiência da rima. Marido comparado a outro marido é coisa de esposa cruel. Às vezes, a gente até é amigo desse marido exemplar, mas, depois dessa comparação, o melhor é que ele fique bem longe de nós. Aliás, comparar é um jeito cruel de jogar a gente no lixo. Só eu sei o que sofri na infância quando minha mãe me comparava ao meu irmão, deixando bem claro que a genética tinha caprichado num e feito "coalhada" no outro. Ainda me lembro traumaticamente das redações dele, que ela colava num álbum azul, prevendo que o abençoado seria um grande escritor ou jurista. E o "traste" seria o quê? Ela sempre se dizia preocupada com o meu futuro trastoso. Nesse aspecto, não errou de todo.

Nunca e sempre. Dois advérbios odiados por todos os maridos. Mania besta de eternizar nossas coalhadas. "Você NUNCA me faz um elogio!" "Você não aprende mesmo, SEMPRE mija no chão!" Duas grandes injustiças. Primeiro, você elogiou sim, disse que o vestido era bonito e que ela estava um arraso. E o que recebeu de volta? "Nossa que milagre! Você NUNCA tem olhos para mim... SEMPRE que você vem com essa boca melada, alguma coisa tá querendo, ah tá!"

Segundo, essa acusação do jato torto é inaceitável. Claro, para elas é muito fácil. Sentados, também não erraríamos o alvo. Mas não fica bem, convenhamos. Por que elas não experimentam fazer em pé? Só quem conduz o órgão urinante em pé, ou melhor, só quem em pé conduz o órgão urinante - melhor dizer nesta ordem para evitar ambiguidade - sabe que ele não é confiável. Sem qualquer inclinação ideológica, tem dia que o desgraçado acorda mais para a direita; em outro, entorta mais para a esquerda. Por melhor que o seguremos, acaba espirrando onde não devia. Quando percebemos, - na maioria das vezes não percebemos - a "lagoa" ( palavra ofensiva que elas usam) já está feita.

Sei que, neste texto, há coisa mais torta pedindo pra endireitar. Vamos a ela. As mulheres também odeiam - e com toda a razão - certas frases que SEMPRE estão na boca maldita dos maridos. Reconheçamos, são canalhas e cruéis. Assumo a parte que me cabe neste latifúndio, lembrei-me do João Cabral. Só não vou falar delas, porque só as mulheres estão habilitadas a fazê-lo.

O casamento, amigos, é um permanente exercício de alfinetadas recíprocas. A gente apanha, depois bate; a gente bate e depois apanha. E assim, entre tapas e beijos, vamos navegando "até que a morte nos una". Foi o Chico quem disse isso.

O autor é professor de redação e autor de obras didáticas e ficcionais - curso_romag@uol.com.br