09 de julho de 2026
Geral

Aumento da frota intensifica gargalos no trânsito

Tisa Moraes
| Tempo de leitura: 8 min

Samantha Ciuffa
Letícia Kirchner, titular da Seplan, diz que a prefeitura tem buscado soluções para melhorar a mobilidade de Bauru

Nos últimos dez anos, a frota de Bauru tem crescido a uma média de 10 mil veículos por ano. Tantos carros e motos circulando em meio a um sistema viário já bastante saturado em algumas regiões gera uma equação cada vez mais difícil de ser solucionada pelo poder público. O que fazer para que o trânsito da cidade, que se intensifica nesta época do ano, não trave definitivamente?

Alterações viárias, como retirar o estacionamento de um dos lados da via, implantar semáforos ou mão única de direção, são saídas paliativas que ajudam a garantir maior fluidez ao trânsito em pontos críticos por mais alguns anos. Mas, ao mesmo tempo, soluções mais abrangentes, que custam caro e esbarram principalmente em restrições orçamentárias, precisam começar a ser implementadas.

Novos modelos de transporte coletivo, incentivo a modais alternativos de transporte, como a bicicleta, e a retirada da malha ferroviária da área urbana para a interligação de bairros por uma espécie de anel viário são algumas das principais medidas a serem adotadas, segundo especialistas ouvidos pela reportagem.

"Bauru tem um problema pior do que outras cidades de mesmo porte porque seus principais corredores de trânsito possuem baixa capacidade, com duas faixas de rolamento. Exemplos são as avenidas Nações Unidas, Rodrigues Alves, Duque de Caxias, Getúlio Vargas e Comendador José da Silva Martha", cita o engenheiro Archimedes Raia Junior, especialista em segurança viária e diretor de mobilidade da Associação dos Engenheiros, Arquitetos e Agrônomos (Assenag).

'NÃO HÁ MÁGICA'

Hoje, diante da falta de recursos financeiros, uma das saídas que ajudam a minimizar o impacto dos 280 mil veículos que circulam pela cidade está nas contrapartidas que a prefeitura exige de novos empreendimentos residenciais ou empresariais. Entre os exemplos recentes estão a continuação da avenida Adnan Shahateet, que interliga o final da Comendador José da Silva Martha com a Castelo Branco, e a avenida Jorge Zaiden (Água Comprida), que criou um novo acesso ao Jardim Marambá e Núcleo Geisel.

Outras intervenções desejadas pela administração municipal, apenas para citar exemplos, são a construção, pela concessionária ViaRondon, de um viaduto na avenida Cruzeiro do Sul sobre a rodovia Marechal Rondon; e a ponte sobre o Rio Bauru para implantar mão dupla no viaduto Nicola Avalone Jr., o viaduto Falcão-Bela Vista.

Porém, ao passo que as condições de tráfego vão se agravando, tornam-se cada vez mais limitadas as medidas para desafogar os gargalos de uma cidade como Bauru, que não cresceu de maneira planejada. "Não temos como desapropriar imóveis para alargar ruas. Não há mágica para os problemas do trânsito. A estratégia de longo prazo precisa ser arrojada, contemplando a oferta de um novo modelo de transporte coletivo de maneira coordenada com o incentivo a outros modais, como a bicicleta", acrescenta Raia.

'TESOURO'

A exemplo do que já ocorreu em outras cidades brasileiras, a prefeitura de Bauru reivindica, agora, a transferência para o município do domínio dos trechos de linha férrea encravados nas áreas urbanas consolidadas. Para tanto, irá requerer ao Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (Dnit) um estudo técnico de viabilidade econômica e ambiental para a alteração do trajeto do transporte de cargas, que passaria pelo contorno da cidade.

Samantha Ciuffa
Letícia Kirchner, titular da Seplan, diz que a prefeitura tem buscado soluções para melhorar a mobilidade de Bauru

"A área por onde passam os trilhos é um grande tesouro urbano, que poderia reduzir as distâncias das conexões entre os eixos da cidade e desafogar o problema de mobilidade de Bauru, com a possibilidade de implantação de transportes alternativos, como ciclovias e um futuro VLT (Veículo Leve sobre Trilhos)", comenta a secretária municipal de Planejamento, Letícia Kirchner, acrescentando que a medida também atenderia à ação civil pública movida pelo Ministério Público Federal.

Enquanto este projeto de médio prazo não é viabilizado, a Seplan solicitou ao Dnit para que o tráfego de trens com mais de cinco vagões seja interrompido nos horários de pico - das 7h às 9h, das 12h às 14h e das 17h às 19h - como forma de evitar o bloqueio dos veículos quando o fluxo é intenso. "Na Comendador José da Silva Martha, por exemplo, as filas de congestionamento chegam a mais de dois quilômetros, dos trilhos até a altura da rua Rio Branco", acrescenta.

BONS HÁBITOS E ROTAS ALTERNATIVAS AJUDAM A MINIMIZAR O CAOS

Planejar o deslocamento e estar atento ao volante são algumas medidas a serem adotadas enquanto saídas para o "nó" no trânsito ainda não são executadas

Fotos: Malavolta Jr.
Segundo o chefe do GOT, Flávio Ferreira, o condutor bauruense ainda não está acostumado com o trânsito carregado

Para o tenente José Sérgio de Souza, a desatenção dos motoristas em vias saturadas aumenta número de acidentes

Enquanto soluções definitivas para os grandes "nós" do trânsito bauruense não são encontradas, os motoristas podem adotar algumas medidas para tornar o trânsito menos caótico e, assim, chegar mais rápido ao seu destino. Uma delas é planejar o seu deslocamento e buscar rotas alternativas ao fluxo intenso de veículos. Outra é evitar trafegar nos horários de pico.

"A pessoa pode sair 15 minutos mais cedo de casa para o trabalho, por exemplo, para evitar os congestionamentos. É tempo suficiente para encontrar um tráfego completamente diferente. Cabe ao motorista se conscientizar. Se não se precaver, vai ficar mesmo preso nos gargalos", orienta o tenente José Sérgio de Souza, comandante do Pelotão de Trânsito da PM.

Apesar de a lógica das políticas públicas ainda privilegiar o transporte individual, que incentiva as pessoas a continuarem comprando carros e motos, o oficial também convida os moradores da cidade a experimentarem outras formas de locomoção, como a bicicleta e o transporte coletivo. "Dependendo da situação, em trechos não tão longos, a pessoa pode até fazer o trajeto a pé", completa.

Outra medida, essencial não apenas para a segurança, mas também para evitar mais transtornos durante o deslocamento, é manter-se sempre atento ao volante. Segundo o tenente, a associação da baixa velocidade desenvolvida pelos veículos nas vias saturadas com a desatenção dos motoristas tem resultado no aumento do número de acidentes sem gravidade, como colisões traseiras.

GENEROSIDADE

Apesar de não ser uma ameaça à vida das pessoas, estas ocorrências contribuem para atravancar ainda mais o tráfego já complicado de diversas vias da cidade. "Diante do volante, o motorista deve se preocupar estritamente em dirigir. Há estudos que apontam que 90% dos acidentes são resultado de falha humana", comenta, salientando que o uso de celular permanece como uma das infrações mais recorrentes na cidade.

Além de respeitar a legislação, cabe ao condutor exercitar a generosidade em meio ao caos do trânsito, dando passagem a outros veículos quando necessário e acionando a seta ao fazer uma conversão ou mudar de faixa, além de tentar manter a paciência mesmo diante de lentidão. "A verdade é que o motorista bauruense ainda não se habituou ao trânsito carregado. Ele ainda sai para seu destino muito próximo do horário, não faz um planejamento com antecedência e acaba se estressando quando se depara com algum imprevisto no trajeto", acrescenta o chefe do Grupo de Operações de Trânsito (GOT) da Emdurb, Flávio Ferreira. 

TRANSTORNO COMO VIZINHO

Fotos: Samantha Ciuffa

Sem muita dificuldade, todo bauruense é capaz de citar pelo menos dois ou três grandes gargalos da malha viária da cidade. São pontos como a Praça Primaz Chujiro Otake (Praça do Relógio), que faz a ligação entre a região central e a zona oeste da cidade; o final da avenida Nuno de Assis, no acesso à região do Núcleo Mary Dota; a rotatória no fim da avenida Getúlio Vargas, na altura da avenida Affonso José Aiello; e a avenida Comendador José da Silva Martha, nas imediações da linha férrea e da avenida José Vicente Aiello.

Nestes locais, insegurança e lentidão no trânsito são condições permanentes, conforme atesta quem trabalha ou mora perto. É o caso de Luciana Brodt, 43 anos, proprietária de um estabelecimento de revenda de automóveis seminovos localizado na avenida Castelo Branco, quase em frente à Praça do Relógio.

"Além do aumento da circulação de veículos nos últimos anos, a gente vê muita imprudência dos motoristas. Toda semana, acontece pelo menos um acidente aqui. A maioria é leve, mas já vi ocorrência feia, de quebrar perna de motociclista", comenta. Diante da inviabilidade financeira para ampliar a rotatória e aumentar a capacidade de vazão do fluxo de veículos, a implantação de semáforos seria uma alternativa eficaz para resolver o problema, segundo análise do engenheiro Archimedes Raia Jr.

Já Leonilson da Silva Soares, 32 anos, dono de uma quitanda localizada há três anos na avenida Comendador da Silva Martha, na altura da linha férrea, é testemunha diária do emaranhado de veículos que se forma naquela região, onde houve aumento expressivo de empreendimentos residenciais e, por consequência, de tráfego. "Quando passa um trem um pouco maior, o trânsito chega a ficar parado por 10, 15 minutos. Mas, como a avenida é muito movimentada, tem vezes em que o trânsito chega a parar em horário de pico até mesmo sem trem", revela, dizendo que o ponto para venda de frutas e verduras foi escolhido justamente em razão do trânsito intenso no local. "Para o comércio, o local é muito bom".

A região central de Bauru é outro ponto complicado para os motoristas, que enfrentam congestionamentos todos os dias em horários de pico. Para a aposentada Terezinha de Lourdes Pereira, 70 anos, moradora do Núcleo Isaura Pitta Garms (Bauru 1), transitar em meio às ruas do Centro só compensa no momento de ir às compras, devido aos preços oferecidos pelos estabelecimentos. "É preciso vir preparada para não ficar irritada, porque também é difícil encontrar estacionamento. Mas as mercadorias são mais baratas, então, o esforço compensa", completa.