09 de julho de 2026
Articulistas

O lixo e o luxo

Valderez de Mello
| Tempo de leitura: 2 min

Num reino desencantado, onde a injustiça campeia, moravam entre extremos sociais o Lixo e o Luxo, camaradas da cidade grande onde tudo se escancara vergonhosamente alinhavado à disparidade.

O Luxo espiava atentamente dos altos de suntuoso arranha-céu o Lixo humilde atirado à sarjeta, onde cães famintos competiam pela conquista das sobras. Então, o Luxo, lá das alturas, bradou com incauta soberba: - Olá Lixo! Que vida ingrata a tua! No chão, exalando o aroma da decadência! Quanta diferença! Vivo na mais completa fartura, amanteigados, geleias e queijos, toalhas de linho, lençóis egípcios de incontáveis fios, talheres de prata, porcelana austríaca e cristais tchecos a tilintar saúde, tudo exalando fragrâncias importadas!

O Lixo, com voz embargada, própria dos sábios já resignados, levanta a cabeça para encontrar o olhar ousado do vizinho e responde: - Bom dia, Luxo! Que vidão, hein? Tens tempo de espiar a vida alheia, sorrir das desgraças dos menos favorecidos, desdenhar dos famintos e, por incrível que pareça, ainda sobra ociosidade para a ojeriza e o escárnio da realidade. Pois é, estou aqui na calçada com os cães famintos, antigos frequentadores de luxuosos petshops! E pensar que muitos deles viviam luxuosamente, mas foram covardemente descartados pelos requintados donos.

Porém, não somente os cães sobrevivem de minhas imundícies, há muitos humanos que aqui encontram o sustento para matar o arder da fome. Como vês sou útil, apesar de fétido. Afinal é desse imenso condomínio que recebo queijos finos quase inteiros, verduras e frutas em ótimo estado, nacos de carnes rejeitados, embalagens de doces exóticos e pacotes de bolachas importadas, tudo descartado pela insignificância. Como vês, alguém precisa ser útil neste mundo!

Nisso, o homem magro, retrato da miséria urbana, atrelado à tosca carroça, estacionou e deu início à busca no gratuito armazém dos ignorados! Papelão, plástico, madeira e alimento! E por ser tudo muito precioso, o aroma da miséria, que ali marcava presença, sequer era sentido!

Lá das alturas, o Luxo percebeu que tudo era efêmero e de pouca utilidade e que um belo dia poderia fazer companhia para o astuto e inteligente Lixo, assim como os cães. Então, descobriu que a ostentação nada significa e que o Lixo era deveras útil e importante, pois servia para matar a fome dos excluídos, anônimos que todos fingem não enxergar! Enfim, uma simples vogal pode mudar o mundo: lixo ou luxo? Depende da maneira como aprendemos a ler e interpretar as histórias que a vida escreve!

A autora é escritora, autora do livro Trama e Urdidura (2013).