| Cinthia Milanez |
| Ricardo Santana está internado desde o dia 23 de outubro |
A perspectiva de passar o Natal longe da família deixa Ricardo Epifânio Santana, de 52 anos, desolado. Diagnosticado com Doença Renal Crônica (DRC) em outubro, o jornalista está internado no Hospital de Base de Bauru (HBB) desde então. Só ficando "preso" por lá e ainda ocupando um leito em uma cidade que já sofre com esse problema, ele consegue encaixe para fazer hemodiálise pelo SUS, devido à falta de vagas. Segundo a Secretaria de Saúde do Estado, órgão responsável pelo remanejamento dos pacientes para este tratamento, Ricardo é uma das quatro pessoas nesta situação.
Tudo começou no dia 21 de outubro, quando o jornalista foi até a UPA do Ipiranga. Com os membros inchados e a pressão alta, ele descobriu que os rins pararam de funcionar. Embora a unidade de saúde não tenha tanta estrutura quanto os hospitais de Base e Estadual, referências na chamada terapia renal substitutiva dentro da cidade, o paciente ficou no local, enquanto aguardava vaga para internação.
No dia 23 do mesmo mês, Ricardo foi transferido para a Clínica 2 do Base, onde concentram-se os casos de urologia e nefrologia. Após 15 dias no local, ele começou o tratamento. "Eu fico internado e eles me encaixam quando tem espaço, ou seja, preciso estar no hospital para conseguir. Como não existe qualquer previsão de alta, creio que passarei o Natal 'preso' no Base", constata, entristecido.
O JC apurou que o hospital abriga, pelo menos, outros três pacientes na mesma situação. "Parei de trabalhar para sobreviver", observa o jornalista, que precisa fazer hemodiálise três vezes por semana, sempre às segundas, quartas e sextas.
CONSEQUÊNCIAS
Ainda de acordo com ele, é possível ir ao local apenas para se submeter ao tratamento, porém, se o paciente receber alta, perderá a vaga. "Dizem que faltam leitos e nós estamos ocupando espaço de quem, de fato, precisa estar internado".
Além desta questão, Ricardo teme contrair uma infecção hospitalar, já que está há mais de 50 dias dentro do Base. A saída é o transplante, algo que não é tão fácil de conseguir. Por ora, o paciente pretende procurar a Justiça para não ter de ficar internado e ir até a unidade três vezes por semana.
60 MÁQUINAS
O Departamento Regional de Saúde de Bauru (DRS-6), órgão vinculado à Secretaria de Saúde do Estado, informa que, no município, os hospitais de Base e Estadual oferecem a chamada terapia renal substitutiva pelo SUS. Os dois, juntos, abrigam 60 máquinas de hemodiálise.
Atualmente, o Hospital de Base é o único local em toda a área do DRS-6, que abrange 68 cidades, incluindo Bauru, com pacientes internados para fazer hemodiálise. Ao todo, há quatro pessoas na unidade.
Tal situação não ocorre no Estadual, porque, segundo o DRS-6, o hospital deu início ao Projeto de Diálise Peritoneal "Urgent Start", que capacita as famílias para o tratamento.
Médico coordenador da Nefrologia do Hospital Estadual, Durval Sampaio de Souza Garms implantou o método na unidade em abril deste ano, com o intuito de zerar a fila de pacientes internados, aguardando a hemodiálise.
A maioria dos pacientes que chega ao Estadual com o diagnóstico de DRC e precisa urgentemente de um método de substituição renal é submetida à diálise peritoneal. Eles ficam internados por até cinco dias. Depois, comparecem três vezes por semana ao local para fazer o procedimento.
Após três semanas, tempo necessário para o treinamento do familiar, a diálise passa a ser feita em casa. "A única diferença entre a hemodiálise e a diálise peritoneal é o método utilizado".
Contudo, o médico frisa que a diálise peritoneal apresenta contraindicações para alguns pacientes. Porém, de maneira geral, a maioria deles consegue fazer o tratamento.
O Hospital de Base oferece o procedimento desde 2017, mas estas quatro pessoas não podem aderir ao programa, porque não têm indicação médica.
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Sem déficit?
Na área do DRS-6, há 196 máquinas de hemodiálise, utilizadas por 1 mil pacientes do SUS. Logo, cada equipamento atende, em média, cinco pessoas.
Há, ainda, oito máquinas, na Santa Casa de Jaú, aguardando a liberação do Ministério da Saúde. Embora o Estado não fale em déficit de vagas, é possível constatar que os novos equipamentos atenderiam até 40 pessoas a mais e, portanto, existiria tal demanda.
Além disso, em 2017, o Conselho Nacional dos Secretários de Saúde propôs que o governo federal bancasse integralmente o tratamento de hemodiálise, como já ocorre no caso dos transplantes renais. Até então, a remuneração da terapia renal substitutiva era feita por uma espécie de média de produção, mas a conta era incompatível, porque prejudicava as clínicas que mantêm convênio com o SUS. Assim, muitas vezes, tais empresas restringiam o atendimento aos novos pacientes, aumentando a fila de espera.
A proposta foi acatada em novembro deste ano. Questionada sobre a data em que o Ministério da Saúde começaria, de fato, a bancar todo o tratamento e quando liberaria o uso das oito máquinas pela de Jaú, a assessoria de comunicação da pasta não retornou até o fechamento desta edição.
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