10 de julho de 2026
Articulistas

Tudo elétrico ou tudo em choque?

Adilson Roberto Gonçalves
| Tempo de leitura: 3 min

A Tesla, de Elon Musk, tem seu carro elétrico e autônomo. O Brasil terá seu caminhão elétrico totalmente nacional em 2022. É forte o crescimento da energia fotovoltaica, mas sua participação na energia elétrica consumida é ainda de menos de 1% do total no país. Os europeus criticam o uso de áreas agricultáveis para implementar painéis solares, que impedem os cultivos, tanto de alimentos como de biocombustíveis.

Eis um conjunto de manchetes e cenários atuais, conflitantes e desafiadores. Conseguiremos dar conforto aos sete bilhões de seres idênticos a nós, sem destruir o único planeta habitável que conhecemos? Energia vai deixando de ser fundamental para a sobrevivência e passa a ser elemento de sustentação da comodidade. Precisamos nos proteger do frio, mas gastamos muito mais para transportar uma banana sul-americana para ser consumida em Moscou, do outro lado do mundo.

Na esteira dos motores elétricos para veículos, aparece também o carro movido a hidrogênio como panacéia para acabar com os problemas de poluição. E parecem que todos dizem sim para o fato, sem questioná-lo, ou sem avaliar os fundamentos dessas questões. Sabendo que é um vespeiro e a vara é curta, mesmo assim, vão algumas considerações.

O gás hidrogênio não pode ser considerado um combustível por ser muito raro na natureza. O elemento hidrogênio, por outro lado, é o mais abundante do universo. A confusão se dá entre o que é substância e o que é elemento, tal como seria entre palavra e letra. Os átomos de hidrogênio estão presentes na maioria dos compostos orgânicos que constituem as células, nos chamados ácidos minerais, em alguns sais e - muito importante - na água. A substância hidrogênio precisa ser fabricada de alguma forma, com alto custo energético. Por meio da eletrólise da água, a passagem de eletricidade transforma o líquido vital em duas outras substâncias: hidrogênio e oxigênio. Processo simples para descrever, mas muito oneroso industrialmente. Nesse ponto os dois conceitos convergem: hidrogênio e energia elétrica. A eletricidade vem de alguma outra fonte. Usar carros movidos a hidrogênio que foi obtido pela eletricidade advinda da queima de carvão em poluentes termelétricas, como é comum nos países europeus, está muito longe de ser prática sustentável. Se a origem da energia para promover a eletrólise da água vier do sol, aí sim temos um bom caminho a trilhar, ainda que se devam considerar os custos de fabricação dos painéis fotovoltaicos e seu tempo de vida útil (os fabricantes dizem que é de 25 anos), antes que virem sucata e criem outro problema ambiental de deposição dos resíduos gerados.

A propalada combustão sem poluentes do hidrogênio tem sentido apenas no âmbito local, onde ele foi queimado. Em centros urbanos, de forte aglomeração de veículos em trânsito, o hidrogênio produz apenas água como produto, uma reação inversa daquela da eletrólise. O impacto mundial pelas mudanças climáticas se faz evidente, mas o Brasil em um clique de WhatsApp refuta seu orgulhoso passado de busca por alternativas energéticas mais limpas e quer abandonar o Acordo de Paris. Quer dizer, não o Brasil ciente e consciente, mas o que tem a caneta bic à disposição e foi ungido no Armagedom político nacional.

O autor é químico, pesquisador da Unesp-Rio Claro. adilson.goncalves@unesp.br