10 de julho de 2026
Nacional

Polícia encontra R$ 450 mil em fundo falso e armas na casa de João de Deus

Estadão Conteúdo
| Tempo de leitura: 3 min

A Polícia Civil de Goiás anunciou, nesta quarta-feira (19), que encontrou, com base em mandados de busca e apreensão, aproximadamente R$ 405 mil em dinheiro vivo na residência do médium João Teixeira de Faria, o João de Deus, investigado por abuso sexual. A quantia estava em um fundo falso de um guarda-roupas no quarto dele, onde também foram encontradas cinco armas - uma delas com a numeração raspada. Ontem, o Superior Tribunal de Justiça (STJ) negou habeas corpus para libertá-lo.

Diferentes tipos de moedas, incluindo reais, francos suíços, dólares americanos e canadenses, pesos argentinos e euros, foram localizados pela polícia. Ainda não sei sabe a origem desse dinheiro. A princípio, nenhuma das armas têm registro da Polícia Federal ou do Exército e, por isso, o médium também pode ter de responder por posse ilegal de arma de fogo, com agravante de uma delas ter a numeração raspada, o que altera a tipificação criminal. Uma nova busca na Casa Dom Inácio, onde o religioso atende em Abadiânia, foi feita ontem. Mas sem que fossem divulgados detalhes.

Questionado sobre a descoberta, o advogado de João de Deus, Alberto Toron, negou que o dinheiro tenha qualquer relação com a suposta movimentação de R$ 35 milhões nas contas do médium, registrada às vésperas da prisão dele, no domingo. Ele disse que vai consultar seu cliente para saber a origem dos valores.

A própria Polícia Civil admite que esse dinheiro pode, sim, ser fruto das atividades religiosas exercidas por João de Deus. Nas buscas, os agentes encontraram, por exemplo, livros contábeis que apontam para um volume de circulação próximo a R$ 500 mil por mês na Casa.

Abusos

Tanto o dinheiro quanto as armas encontradas não devem ser utilizados, por enquanto, como provas no primeiro inquérito sobre abuso, previsto para ser concluído hoje. A Polícia Civil de Goiás deve se basear em um único caso.

O processo deve mostrar que o líder religioso ofereceu presentes para uma mulher de cerca de 40 anos, como uma pedra de valor e um quadro religioso, após tentar atos libidinosos. Inicialmente, foram relatados 15 casos, mas apenas um deles aconteceu recentemente e não perdeu seu prazo decadencial (período no qual a denúncia pode ser feito sem perder punibilidade). Segundo a investigação, essa vítima teria sido abusada em outubro deste ano.

A reportagem apurou que a mulher visitou a Dom Inácio várias vezes. Em uma dessas ocasiões, ficou sozinha com o médium. Com as luzes apagadas, João de Deus teria começado a tocar próximo da região íntima da denunciante, que, neste momento, percebeu que ele estaria com o membro sexual para fora da roupa.

Aos policiais, a vítima contou que resistiu e fez menção de interromper qualquer contato físico com o médium. Neste momento, João de Deus teria oferecido a pedra e o quadro.

A Polícia Civil de Goiás deve oferecer a denúncia por um único crime, por enquanto: o de "praticar ato libidinoso com alguém, mediante fraude ou outro meio que impeça ou dificulte a livre manifestação de vontade da vítima", tipificação presente no artigo 215 do Código Penal. A pena prevista para esse crime é de até seis anos de reclusão, em regime fechado.

Ainda assim, a Polícia Civil e o Ministério Público de Goiás podem abrir novos inquéritos contra o médium com base em de novas denúncias. Somente o MP já recebeu mais de 500 relatos de abuso sexual e outros 30 casos foram formalizados por meio de depoimentos recolhidos presencialmente nos Estados.