Os departamentos de Psicologia das universidades norte-americanas mostram, com números, que na noite de 24 de dezembro, às 22 horas, há maior probabilidade de uma pessoa sofrer enfarte cardíaco. Os riscos de descompasso no coração também aumentam no dia de Ano Novo. Coisa de 37% a mais. São várias as causas, mas as principais estão ligadas a uma maior carga emocional - revolta, ansiedade, luto ou alegria. Fatores paralelos também contribuem para obrigarem as pessoas a baixarem ao hospital, como excesso de comida, bebida e falta de sono. Some-se a isso, mudanças no estilo de vida e o calor intenso neste início de verão, para quem vive no Hemisfério Sul. Contribuem para aumentar os riscos, a escassez de médicos e enfermeiros nos PAs. As triagens ficam menos rigorosas porque, sempre haverá alguém na emergência, em situação mais grave que a sua.
Fico pensando na possibilidade de percentual negativo mais severo, no Brasil, que acaba de sair das eleições de outubro. Aqui, as famílias nunca brigaram tanto pelo WhattsApp. Rancores ainda separam ferrenhos defensores da esquerda ou da direita, eleitores de Jair Bolsonaro ou de Fernando Haddad. Os parentes vão ter que se reencontrar, para a ceia ou almoço de Natal, na casa do patriarca, ou da matriarca. Mamãe pode não perdoar a ausência do filho que mora na mesma cidade. Seria uma afronta. "Vou por causa de mamãe, mas se meu cunhado repetir que eu virei gay, só por ter amigos LGBT, o pau vai comer". A ameaça é verdadeira, colhida no "Laboratório de Conversas Difíceis", que combina conhecimentos de psicologia e estudos sobre paz e conflitos, para entender por que as pessoas discutem. Pesquisas aplicadas, nas universidades, querem identificar quais são as habilidades necessárias para resolver diferentes situações de forma efetiva.
Nada fácil. Ninguém sabe o tamanho da encrenca, mas, o mal-estar causado pela polarização política nas famílias brasileiras é uma realidade. Há indícios de um fenômeno sem precedentes na história recente. Ainda no período eleitoral, mensagens enviadas pelas redes sociais tentavam fazer graça da situação e se tornaram virais. Há atitudes conciliatórias meio ingênuas, como a daquele pai que mandou mensagem para o grupo familiar: "Agora que a eleição acabou podemos brigar pelo que realmente importa. Natal com ou sem uva passa? " Nem assim, o humor do patriarca serviu para dissipar as preocupações. A família inteira brigou, na última campanha eleitoral. E não foi só com a sogra.
No Instituto Sedes Sapientiae, de São Paulo, que mantém um laboratório com o nome de "Rodas de Conversa", descobriu-se sem surpresa, que "decepção, tristeza, raiva, ressentimento e perplexidade com familiares, amigos ou colegas de trabalho foram, ao lado dos medos do que está por vir, os sentimentos mais presentes". Uma moça contou que a família dela bebe e come bem, até a meia-noite. Lá pelas tantas, basta uma piada e o ambiente se incendeia.
É preciso mudar a temática dos diálogos familiares, em benefício da saúde do miocárdio. Também para que prevaleçam a paz e o amor no Natal. Pelo menos assim recomendam as mensagens e as letras das canções próprias da época. Deveriam ser proibidos, de comum acordo, assuntos em família como luta contra a corrupção, homofobia, racismo, a favor da ditadura, escola sem partido, ideologia de gênero e as ideias liberais numa economia anêmica. Nada de perguntar se já acharam o Queiroz. O conselho dos psicólogos é, justamente, o de se estabelecer regras básicas antes da festa. Se for inevitável bordear o momento político, que se procure pontos em comum, sem declarações acusatórias. Incentive os convidados a ouvir com respeito. Ainda que necessário, que se critique ideias, em vez de atacar pessoas. Parentes e amigos podem até não concordar em determinadas questões. Com um pouquinho de boa vontade, quem sabe até descobrem que possuem valores e desejos em comum. E por isso são capazes de discutir civilizadamente. Siga os conselhos para suportar parente chato e não engasgar com a farofa. Respeite às próprias coronárias, antes da pessoa do cunhado, que também merece tratamento condigno. Nem que seja meramente protocolar. Natal e Ano Novo são dias péssimos para morrer. O trauma do luto fica para sempre.
O autor é jornalista e articulista do JC.