09 de julho de 2026
Regional

Caricatura resgata autoestima

Aurélio Alonso
| Tempo de leitura: 10 min

Aurélio Alonso
Barbeiro mais antigo de Reginópolis, Alberto Biel está entre as charges do cartunista Fausto Bergocce

Divulgação
Fausto Bergocce é cartunista profissional desde 1974 e nasceu na cidade de Reginópolis

Acervo pessoal Diogo G.Ladeira
Diogo Ladeira faz caricatura em Pederneiras e criou o desenho afetivo

A caricatura enfatiza e exagera as características de uma pessoa de forma humorística, assim como acentua gestos, vícios e hábitos particulares. Quem a faz tem um talento nato para desenhar. Imagina os tipos populares que compõem uma cidade serem retratados dessa forma. O chargista Fausto Bergocce é um nome consagrado na ilustração gráfica, nascido em Reginópolis. Aprendeu a desenhar na infância nas ruas da sua cidade natal. E após mudar para a capital no início dos anos 60, onde fez toda a sua trajetória profissional com 12 livros publicados, decidiu homenagear os amigos e contar a história desse pequeno município com a publicação de um livro com desenhos e aquarelas. Neste ano, a segunda parte desse projeto, foi fazer 120 caricaturas de tipos populares e amigos, usando uma técnica que mistura o grafite com o acabamento no processo digital.

Fausto seguiu a máxima do escritor Leon Tolstói: "Só seremos universais se conhecermos e amarmos nossa aldeia". Todo esse acervo se encontra com a Prefeitura de Reginópolis, que tem planos para fazer em breve uma exposição.

Está lá entre os vários tipos populares o barbeiro Alberto Biel, de 86 anos, ainda na ativa, do salão Guadalajara, bem no marco central da cidade. São-paulinho e uma espécie de "confidente' da população. Afinal da cadeira de barbeiro, se discute e sabe se de tudo do que ocorre na cidade. Outras pessoas relembradas: o ''seo' Zezinho, de 92 anos, dono de um bazar em que o cartunista frequentava quando criança e também está o amigo pessoal e contador Maurilio Perez Camargo, o "prefeito-tampão" por três meses quando a cidade mergulhou numa crise política com cassação de prefeito, vice e impedimento do presidente da Câmara de administrar a cidade.

Mas a caricatura além de levar o bom humor também pode ter uma inspiração mais afetiva. Saindo de Reginópolis e dirigindo até Pederneiras, há um designer gráfico, Diogo Ladeira, que faz os desenhos por encomendas, mas quando concluiu o curso na Unesp usou a caricatura para que as pessoas mergulhassem no seu interior e buscasse pontos positivos de suas vidas. 

Charges resgatam tipos populares

Chargista e cartunista Fausto Bergocce reproduziu 120 fotos de moradores de Reginópolis que futuramente farão parte de exposição?

O chargista e ilustrador Fausto Bergocce levou muito a sério a frase do escritor Leon Tolstói: "fale de sua aldeia e estará falando do mundo". É bem isso que ele fez ao desenhar 120 caricaturas dos mais variados tipos populares da sua cidade natal: Reginópolis. E adotou um tipo de caricatura desenhada no estilo do grafite, com as linhas recortadas e a confecção final no processo digital.

Fausto atualmente mora em São Paulo, no entanto, a cidade natal é onde se sente em casa e sempre relembrada. Autor de 12 livros, ele é cartunista profissional desde 1974. Já publicou em inúmeros jornais e revistas, como "O Estado de S.Paulo", "Última Hora", "Folha de S.Paulo", "O São Paulo", "Diário Popular", "Diário de S.Paulo" e TV Cultura. Já participou de exposições de charges, quadrinhos, ilustrações e cartuns na França.

Em Reginópolis, em 2011, Fausto, junto com texto do professor Henrique Perazzi Aquino, lançou em livro a história da cidade por meio de ilustrações e aquarelas, já tinha resgatado alguns tipos populares. Agora numa extensão da publicação, o ilustrador decidiu fazer 120 caricaturas. É uma homenagem a pessoas simples a até "influentes" que convivem em qualquer comunidade.

Está lá o barbeiro mais antigo da cidade, o são-paulino Alberto Beil de Marins, de 86 anos, do salão Guadalajara com a pequena porta bem na frente da praça central da cidade, o comerciante 'seo' Zezinho, José Alves de Oliveira, de 93 anos, da loja de armarinhos, espécie de "vende de tudo", localizada também no mesmo quarteirão da barbearia, a Maurilio Peres Camargo, que já foi prefeito por três meses, quando a cidade entrou uma crise política e institucional e precisou de um "interventor" escolhido às pressas pela Câmara. Há mais tipos populares, como a turma das quintas e moradores das mais variadas profissões (leia mais nesta página).

Fausto conta que o objetivo mesmo é valorizar as pessoas que fazem a história da cidade. Até os falecidos tiveram um espaço para serem relembrados. Se pudesse haveria muito mais, porém foram selecionadas 120 pessoas, muitos amigos pessoais do ilustrador. "A caricatura é um tipo desenho que todo mundo adora. Esse foi o momento de juntar uma coisa legal com a outra: homenagear as pessoas e valorizar cada um deles", revelou.

O chargista contou com a ajuda do memorialista Marcos Lazari do blog "Anos Dourados" para localizar fotos das pessoas, principalmente as já falecidas. Lazari as enviava por meio de email para que Fausto pudesse fazer os desenhos. 

Todo o material se encontra na Prefeitura de Reginópolis guardado a sete chaves, porque existe o projeto de fazer uma ampla exposição, se possível em praça pública.

Técnica mescla estilo de grafiteiro com digital

O ilustrador e chargista Fausto Bergocce adotou a técnica do estêncio de acetato para pintura das charges que é utilizada por grafiteiros. É um tipo de folha de papel fina que serve de matriz para impressão usado para aplicar um desenho ou ilustração por meio da aplicação de tinta, aerossol ou não, por intermédio do corte ou perfuração em papel ou acetato.

Cada peça foi desenhada, recortada e depois convertido o desenho na forma física para digital por meio de um scanner óptico. A colorização foi feita digitalmente. “Optei pela cor pura, que fica mais bonita com destaque para o azul, o vermelho e amarelo. A ideia é ficar um desenho bonito”, contou.

O interessante é que são utilizados desde o desenho convencional, com cada traço sendo cortado no estilete. “Fiz 120 desenhos e tive sorte de não cortar o dedo nenhuma vez. O trabalho é feito em um papel pequeno, com espaço curto. Não aconteceu nada”, relembra o ilustrador.

Barbeiro mais antigo e comerciante estão na lista

Fotos: Aurélio Alonso

Alberto Biel Martins mostra charge dele, torcedor apaixonado pelo time do São Paulo

O poeta Ferreira Gular conta que a história humana não se desenrola apenas nos campos de batalhas e nos gabinetes presidenciais. Ela se desenrola também nos quintais, entre plantas e galinhas, nas ruas de subúrbios, nas casas de jogos, nos prostíbulos, nos colégios, nas usinas, nos namoros de esquinas. Ao destacar os tipos populares de Reginópolis, o cartunista Fausto Bergocce resgatou história de gente simples que faz o dia a dia da cidade.

O Salão Guadalajara é uma espécie de testemunha dos acontecimentos da cidade. Pela cadeira do barbeiro Alberto Beil de Martins já se passaram desde os mais simples aos mais "influentes". De fala mansa, lúcido, o são-paulino 'seo' Alberto mantém ainda nas paredes posteres do seu time do coração e ainda a foto do Papa João Paulo II. No fundo do salão uma prateleira de troféus dos bons tempos que ele dirigiu o Reginópolis Futebol Clube, campeão amador e batizado de "Galo da Comarca" por um juiz de Pirajuí.

Há 69 anos no ramo, a barbearia funcionou por pelo menos 30 anos em outro local, atualmente fica em frente da praça principal que está decorada para o Natal. Alberto é um dos "homenageados", mas guarda com carinho outra charge exposta no espelho do salão com ele segurando a tesoura e, claro, não podia faltar a referência ao Tricolor do Morumbi.

Ali bem perto, fica outro amigo e personagem retratado por Fausto, o 'seo' Zezinho, nome José Alves de Oliveira, com seus 93 anos, dono do bazar em atividade desde 1951. Ali vende todo tipo de miudezas: confecção, papelaria, brinquedo. O chargista conta que não tinha como não incluir 'seo' Zezinho. Quando garoto o cartunista frequentava o estabelecimento.

Também incluído na lista está o contabilista Maurilio Peres Camargo, com o escritório e o autoescola no outro lado da praça. Ele já foi prefeito-tampão por "uns meses", exatamente três. Em 2008, a crise política cassou prefeito, vice e impediu que o presidente da Câmara assumisse o Poder Executivo. Sobrou para Maurilio ser o interventor até o novo prefeito se eleger e tomar posse. "Foi um fato inédito. Só aqui e em outra cidade do Piauí. Foi polêmico, havia outros pretendentes, mas a Câmara decidiu me escolher e o juiz concordou. Esconderam até a chave da prefeitura no dia que fui tomar posse", relembra. Além dele, a turma das quintas, uma confraria de amigos de Fausto, a professora Ivone Salmen, Barroso, Leandro Brow, Damião Maffei, João da Câmara, Nenê Donato são alguns dessa galeria de 120 pessoas homenageadas. Em breve, essas charges em formato grande estará em exposição.

Fotos: Aurélio Alonso
José Alves de Oliveira tem 93 anos e está na ativa na sua loja de armarinhos, em Reginópolis

Maurilio Perez foi prefeito por três meses

Em Pederneiras, chargista criou o que ele chama de 'desenho afetivo'

Diogo Ladeira, formado em design pela Unesp de Bauru, usa a caricatura como instrumento para retratar pessoas e buscar o autoconhecimento?

Fotos: Divulgação
Diogo Ladeira também é ilustrador gráfico e acumula mais de uma função de caricaturista no seu dia a dia

Tony Quagliato e Juliana com as caricaturas do casal

Acervo Diogo G. Ladeira
Matheus e sua caricatura, feita pelo Diogo Ladeira

O design Diogo Ladeira tem um estúdio em Pederneiras e desde a sua conclusão de curso usou a caricatura como desenho afetivo. O objetivo é buscar os traços positivos das pessoas. Excelente ilustrador e com uma produção de desenhos variados, Diogo já foi mochileiro. O desenho foi a sua forma de comunicação com as pessoas.

Nos últimos anos, ele tem sido requisitado para produzir charges, algumas delas até de pessoas que moram no Exterior que o conheceu pelas andanças pelo país. O design até brinca com uma das iniciais de seu nome ao assinar Diogo G. Ladeira, o que remete ao eletrodoméstico.

A sua produção está disponível no Facebook e blog próprio, mas atualmente tem um estúdio em um imenso casarão que divide com sua esposa, Renata Rodrigues, cuja sala dá de frente para a restaurada estação ferroviária de Pederneiras.

Formado pela Unesp de Bauru, Diogo tem talento para o desenho desde garoto e veio de Santa Cruz do Rio Pardo.

O desenho afetivo teve um estudo de trabalho de conclusão de curso para colar grau em design gráfico e Diogo teve essa ideia para um encontro com ele mesmo. "Eu comecei a fazer caricatura aos 14 anos quando vi no ''Estadão' os desenhos do Batistão. Fiquei apaixonado, achei essa arte demais," relembra.

Depois chegou a desenhar por encomenda, quando começa a se profissionalizar. Na faculdade de design parou de fazer as caricaturas.

Cansado dessa produção de free lancer de design, do qual não gostava de fazer. "Um dia decidi voltar a fazer caricatura, coloquei uma música de Jimi Hendrix. E acabei desenhando esse famoso guitarrista. Quando deu 4h, descobrir que gosto de desenhar caricatura", conta Diogo.

E o projeto foi voltado para o autoconhecimento, aliando a caricatura, a pessoas (gosta de conhecer a história delas, porque quando vai produzir um desenho acaba entrando no mundo delas e o design que é a harmonia dos traços.

Diogo conta que saiu pelas ruas entrevistando as pessoas. E pedia que naquele momento se olhasse para dentro de si e lembrasse do sonho, como era quando criança e se aquele tempo poderia trazer algo bom de volta. "Eu perguntava posso fazer uma entrevista sobre a vida, mas a pessoa não sabia que eu ia fazer um desenho dela de acordo com tudo o que ela falou", relembra.

Essa entrevista era gravada em vídeo e perguntado como era o dia a dia, o que mais gostava de fazer na vida, como era na infância e se tem algum sonho para realizar. "Essas perguntas acabavam emocionando elas e eu também. São histórias bonitas, como a de um senhorzinho que veio da Itália e dizia que o maior sonho seria ser motorista. E perguntei para ele: o que senhor fez aqui no Brasil? Me respondeu: trabalhei 40 anos de motorista e em seguida passou a rir e a chorar. Emocionado dizia: realizei o meu sonho", cita o desgin. Todas essas pessoas posteriormente ganharam uma caricatura de seus sonhos e de seus atributos.

Cada um dos entrevistados para o TCC da faculdade recebeu o desenho sobre a vida deles. Foi emocionante. "É a arte afetando a vida das pessoas", diz Diogo. Atualmente, os interessados sempre encomendam caricaturas para retratar bons momentos. O contato é (14) 98832-2264.

Fotos: Divulgação
Casal Daniel e Lilian com a caricatura deles do dia do casamento

Carola e Nathan preferiram a caricatura como registro da foto de casamento

Caricatura em homenagem ao cineasta Steven Spielberg

O lutador Muhammad Ali (Cassius Clay), Fred Mercury e Jimi Hendrix, ídolos de Diogo Ladeira retratados em charge