11 de julho de 2026
Ciências

Tratar o canal da raiz não faz mal! Por Alberto Consolaro


| Tempo de leitura: 3 min

O documentário "Root Cause" ou "A Raiz do Problema", na Netflix aponta para o tratamento de canal como responsável por doenças como o câncer, reumáticas, ortopédicas, cardíacas e urinárias, recomendando que o tratamento de canal seja extinto da odontologia, pois não traria benefício algum!

Há mais de 100 anos as pessoas com artrites e reumatismos iam ao médico e a primeira coisa que indicava era a extração dos dentes e colocação de dentaduras. Mas isto é muito ultrapassado, a ciência mostrou que estes problemas tinham várias outras razões como focos infecciosos também nos olhos, ouvidos, gargantas, unhas, genitália e muitas outras causas.

No centro dos dentes tem um tecido mole chamado de "nervo" ou polpa, cheio de nervos, artérias e veias, tudo em pequeno espaço. Na coroa, este espaço se chama câmara e, nas raízes, é conhecido como canal. As bactérias da cárie e boca no canal chegam na ponta da raiz que se comunica com o organismo por um pequeno orifício com diâmetro de 10 a 20% de um milímetro.

No canal cabem bilhões de bactérias e o endodontista usa substâncias e instrumentos para limpar, desinfetando-o. Depois obtura o canal, enchendo-o com cimento, uma pasta que veda todos os espaços até o limite do orifício apical. Se obturar de forma incompleta ou extravasar o cimento para fora da raiz, pode se ter problemas, mas se a saúde do paciente for boa, serão facilmente contornados. Tratamento de canal bem feito não faz mal, só faz bem!

PERIGO

Cada vez mais vivem entre nós pessoas com saúde fragilizada que, décadas atrás, morreriam precocemente, como diabéticos, com doenças autoimunes, viciados em tabaco, álcool e outras drogas, que fazem regimes malucos para emagrecer, que se tratam dos mais variados tipos de câncer e as que vivem estressadas.

A todo momento entram bactérias no corpo e isto se chama bacteremia transitória: ao escovar os dentes, pentear cabelos, coçar olhos, tomar banho e até beijar! Nas pessoas normais, em segundos, as bactérias são eliminadas.

A bactéria depois de 20 minutos duplica-se. Nas pessoas fragilizadas, sobrevivem horas ou dias, dando tempo para proliferarem, contaminando outras partes, aumentado a possibilidade de doenças graves!

Nas pessoas fragilizadas quando se vai fazer qualquer coisa como extrair dentes, fazer limpeza dos dentes, procedimentos na pele e vários outros, inclusive um "simples" tratamento de canal, requer que se tome antibióticos preventivos, para não deixar que as bactérias proliferem e contaminem o corpo, podendo até a levar à sepse, antigamente chamada "septicemia".

Se as milhões de pessoas fragilizadas que não tomam antibióticos quando precisam, podem ter problemas severos quando se submeterem a tratamentos de canal bem feitos ou mal feitos, mas também frente a várias outras situações do dia a dia ou a doenças comuns para uma pessoa normal como dores de garganta ou ouvido, conjuntivites, herpes e gripes.

CÂNCER

Também é irresponsável dizer que a prevalência de câncer ou outra doença qualquer é maior em pessoas que fizeram tratamento de canal, pois o material usado quando entra em contato com o organismo, o faz por um orifício muito fino. Isto o deixa limitado, logo fica rígido e tende a ser recoberto pelos tecidos neoformados no reparo, exceto quando acidentalmente extravasado.

Os produtos da obturação dos canais são pesquisados rigorosamente e, quando suspeitos de ser carcinogênicos, nem são usados! Esta época já passou, foi há décadas! O mais popular destes produtos é o hidróxido de cálcio e, só traz beneficio pela capacidade antimicrobiana e reparadora.

PRA QUÊ?

Para que fazer o canal? 1º). Devolver a função e estética e não ficar desdentado, mantendo a estrutura natural. Quando se infecta a unha, dedo, ouvido ou olho, o tratamento não é sua remoção, mas a eliminação das bactérias com medicamentos e intervenções no local, sem mutilações, 2º). Para limpar e fechar o canal infectado, eliminando as bactérias que necrosaram a polpa, 3º). Para permitir reconstituir a parte externa do dente, recuperando a capacidade plena de se alimentar e devolver a alegria de sorrir.

"A raiz do problema" não é o tratamento de canal, mas sim a ignorância ou má-intenção!

Alberto Consolaro é professor titular da USP - Bauru. Escreve todos os sábados no JC.