| Marcelo Szwarcfiter/Divulgação |
| Evellin dos Passos em uma de suas melhores performances, no Grande Prêmio Sul-Americano, no Uruguai, em 2018 |
Bauru, 2 de março de 1996. Nascia, neste dia, Evellin Ianca dos Passos, a garota com o sobrenome que parecia profetizar o que ela se tornaria ao longo da vida. Hoje, aos 22 anos, a jovem atleta da Associação Bauruense de Desportos Aquáticos (ABDA) já figura entre os destaques do atletismo no Brasil e coleciona vitórias importantes, algumas, inclusive, fora do País.
Apesar da paixão pelas corridas, Evellin conta que seguiu com passos curtos e atenciosos sua jornada para se tornar atleta de destaque. De origem humilde, ela viveu parte de sua infância no Parque Jaraguá e passava tardes trancada em casa brincando com os irmãos mais velhos. Aprendeu a correr aos 7 anos na Associação Comunidade em Ação Êxodo (Acaê), que a ensinou o "beabá" do atletismo. Aos 16 anos, alçou voos mais altos, treinando por conta própria, o que lhe rendeu a primeira medalha importante, um bronze nos Jogos Abertos.
Na época, fazia jornada tripla, dividia o treino com os estudos e trabalhava durante as noites como garçonete de um buffet para ajudar em casa. Também chegou a vender trufas para não ter que largar o atletismo.
Entre seus maiores incentivadores, está Alcides Dos Santos Gonçalves, o Cabo Alcides, a quem ela se refere como "Paizão", e o treinador Neto Gonçalves, ambos da ABDA. Junto à entidade, ela conseguiu bolsas de estudo e um estágio e se formou em Educação Física.
Agora, Evellin foca na continuidade dos treinos para voltar a representar o Brasil lá fora.
Junto com outros atletas do alto rendimento, ela participará, em 3 de fevereiro, da ABDA Urban Run, corrida que comemorará os 8 anos da ABDA.
JC - Conte um pouco sobre suas origens e infância. Quando o esporte entrou na sua vida?
Evellin dos Passos - Minha mãe era doméstica e criou a mim e meus dois irmãos praticamente sozinha. Morávamos no Parque Jaraguá. Minha mãe ficava fora das 7h às 17h e não deixava a gente ficar na rua, tinha medo da violência. Então, nós brincávamos dentro de casa. Quando eu tinha 7 anos, passei a ir para a Acaê à tarde. Lá, o Cabo Alcides, meu "paizão", foi meu professor de atletismo. Quando eu completei 15 anos, tive que mudar de projeto e fui para o Pro Jovem, mas lá não tinha atletismo. Então, eu pedi para continuar por conta própria. Três vezes por semana, eu treinava no Campo do Oriente.
JC- Foi nesta época que você começou a disputar campeonatos? Quando você virou atleta da ABDA?
Evellin - Sim, comecei o atletismo, de fato, um pouco tarde. Aos 16 anos, tive minha primeira medalha importante, um bronze nos Jogos Abertos. Isso me impulsionou a treinar ainda mais e até minha mãe passou a me incentivar. Na mesma época, a ABDA incorporou o trabalho do Cabo Alcides e ele me convidou. Fui a primeira atleta a ser registrada pela ABDA no atletismo. Na época, eu treinava com um pessoal mais velho e focava nos Jogos Regionais. Depois, modificamos os treinos com o Neto Gonçalves e foco eram as competições maiores.
JC - Quais foram suas principais vitórias até hoje? Alguma foi mais marcante?
Evellin- Em 2014, fui terceira colocada nos 5 mil metros no Campeonato Brasileiro Sub-20. No mesmo ano, disputei a Copa do Brasil de Cross Country e atingi o quarto lugar nos 6 quilômetros, que, pra mim, foi uma das mais importantes até hoje, porque foi a primeira vez que eu voei de avião e passei a conhecer o que realmente era o atletismo. Nessa competição, eu passei uma competidora quase na linha de chegada, foi emocionante. Com essa colocação, acabei convocada para representar o Brasil no Campeonato Sul-Americano de Cross Country, em Assunção, no Paraguai, onde consegui ser a 11.ª colocada.
JC - Em 2015, você foi vice-campeã no Campeonato Brasileiro Sub-20 nos 3 mil metros com obstáculos, que é seu forte. No mesmo ano, você voltou a ser convocada para representar o Brasil?
Evellin - Sim, fiquei em quarto na Copa do Brasil de Cross Country nos 6 quilômetros, que me deu vaga para ir a Colômbia, novamente pelo Brasil, para o PanAmericano de Cross Country, onde consegui o 11.º lugar competindo até com Jamaicanas. Foi bem difícil a prova. Em 2017, fui a terceira no Grande Prêmio Sul-Americano do Uruguai nos 10 mil metros, e campeã dos Jogos Regionais. Em 2018, voltei a ganhar os Jogos Regionais em três provas e fui bronze nos Jogos Abertos.
JC - Em algum momento, nas dificuldades, você pensou em desistir do esporte?
Evellin - Desistir não, mas minha mãe me incentivava a fazer outras coisas, porque o retorno financeiro do esporte é difícil. Com 15 anos, eu trabalhava de garçonete em buffet para pagar um curso de corte de cabelo. E, depois que ganhei medalha de bronze nos Abertos, a situação voltou a apertar em casa. Ela (mãe) queria que eu tivesse um emprego fixo. Foi um momento triste, cheguei a parar os treinos por uma semana, mas, depois, surgiu a ABDA e eu continuei. Ganhei bolsas de estudo. E vendia trufas para ajudar em casa. Em 2016, tive um problema no quadril e meu rendimento diminuiu, mas, nessa época, eu começava a faculdade.
JC - Você tem outros hobbies? Como concilia o tempo entre o esporte e a sua vida pessoal?
Evellin- Eu sou caseira e tímida. Gosto de cantar e coordeno um coral de crianças na igreja que frequento, a Assembleia de Deus Ministério Ipiranga, no Octávio Rasi. Além disso, adoro o estágio na ABDA. Fui bolsista e me formei em Educação Física, no final de 2018. Agora, ajudo a iniciar crianças no atletismo e é gratificante ver que elAs se espelham em mim. Eu enxergo neles o que fui um dia. Espero sentir que fiz a diferença na vida deles um dia.
JC - Projetos ou aspirações para o futuro?
Evellin- Como terminei a faculdade, agora, quero voltar a treinar mais puxado e começar uma nova etapa. Quero dar o meu melhor nas competições para voltar a ser convocada para representar o Brasil. Dia 29 de janeiro será a primeira, Cross Country em São Paulo. Também quero alcançar uma boa marca para poder correr na elite da São Silvestre. Meu sonho é ser uma inspiração para as pessoas.