08 de julho de 2026
Tribuna do Leitor

Desgarrar-se

Roque Roberto Pires de Carvalho - E-mail: roquerpcarvalho@gmail.com
| Tempo de leitura: 2 min

Mais de sessenta anos!... Independentemente do tempo ele guardava na memória o dia em que habitou uma casa grande no endereço antigo. A cidade estranha ainda guardava os bons ares por ser, naquela época, ainda bastante provinciana com vocação para metrópole. Naquela tarde, final de outono, reuniu a família dizendo-lhe da necessidade de mudança daquele lugar para outro aparentemente melhor. Se assim falou, a seguir colocou a tralha no caminhão com carroceria aberta. Seguramente iriam encontrar, não só os bons ares como também as boas escolas para as crianças, para ele e para a esposa.

O novo lar situava-se em rua movimentada e a casa nova tinha aparência de ter sido anteriormente um armazém de secos e molhados; portas de ferro e janelas envidraçadas. A ampla garagem deu lugar a uma modesta biblioteca com jornais, revistas e livros para jovens e adultos local bem adequado ao aprimoramento de todos. De tão movimentada era a rua que seus moradores acrescentaram o carinhoso apelido de "rua do pito aceso".

Os demais cômodos abrigaram família feliz. O piano perdeu sua primeira e única pianista e por falta de uso emudeceu , encostado à uma parede sofria as ausências da Titular, das pautas e dos sons. Foi desafinando perdendo toda sua magia, sua marca e seu verniz de outrora. A sala de jantar, em muitas ocasiões, ficou repleta de familiares e amigos, quando dos aniversários e nas festas de fim de ano. Em um ano qualquer, meados de abril, era preciso dizer adeus à casa grande com seus pertences. Ele já tinha visto alçar voo sua filha e filhos, neto e netas.

Havia experimentado momentos mais dolorosos com a perda de pessoas tão queridas e agora era chegada a hora de despojar-se das coisas materiais que ao longo do tempo foram amealhadas com muito amor e carinho e regadas com orvalho na testa de uma vida laboriosa. À hora do crepúsculo, quando a noite desce sobre a Terra ele sentia-se momentaneamente só! Estaria mesmo só ? - Não... não estava !

Pela palavra esclarecida de Léon Denis, a noite é apenas a véspera da aurora assim como ao acabar o verão e ao deslumbramento da primavera vai suceder o inverno taciturno, e após no outono acorda o escrevinhador para ver chegar, de mansinho os momentos de nostalgia.

Para ele restava consolar-se com os pensamentos voltados à família e pessoas tão queridas. Olhar também para o jardim quando chegada a primavera. A lei da natureza substituía uma estação pela outra, desgarrando-se também uma da outra no processo de evolução e renovação de todas as espécies na Terra.