08 de julho de 2026
Cultura

Bauru com emoção

Dulce Kernbeis
| Tempo de leitura: 5 min

Álbum de família
Miguel Ângelo Ruiz, o talentoso compositor erudito de Bauru

Malavolta Jr.
Os filhos de Miguel Ângelo Ruiz, Mário Silvio Dias e Maria Zuleika Ruiz, com a nora Maria Aparecida Batista de Souza Ruiz (mulher de Marco Aurélio Dias Ruiz - in memoriam) com Sônia Berriel, Jean Reis e Luiz Fonseca no Jornal da Cidade

O maestro Jean Reis, diretor artístico do Festival Internacional de Música de Bauru (Fimub), vive a expectativa de executar o que chama de "o privilégio da emoção de momento único": ver o fruto da música da cidade, aqui composta, ser valorizado". Ele se refere à homenagem ao compositor bauruense Miguel Ângelo Ruiz em concerto noturno nesta quarta-feira (23), às 20h, no Teatro Municipal (av. Nações Unidas, 8-9, Centro), com entrada gratuita. 

A obra de Ruiz, Jean Reis teve o prazer de conhecer já há algum tempo. E se sente tocado com a Sonata nº 1 em Dó menor, para violino e piano (composta 1968), que será uma das executadas hoje. "Essa sonata me impressionou muito".

Ele faz um paralelo entre o festival, iniciado domingo, a música e o homenageado, lembrando que a erudição é como "uma videira seca, mas onde há muita vida, ela não está morta. E uma composição tem o poder de escancarar o renascer, transformar o inóspito em algo cheio de vida, de beleza...tanto que nunca dizemos 'a música tocou minha mente e, sim, tocou meu coração', é isso", sintetiza.

Amor pela cidade

Embora tenha nascido em Santos,  em 31 de maio de 1909, Miguel Ângelo Ruiz veio com a família para Bauru dois meses depois e, em 1980, foi agraciado com o título de cidadão bauruense pela Câmara Municipal.

Com talentos múltiplos e dominando vários instrumentos, escrevendo com prazer suas partituras, "que para mim parecia ser chinês, quando o via escrever na infância", lembra um dos filhos, Mário Silvio Dias, "o título só coroou o amor que tinha pela cidade, onde morreu aos 71 anos em 1981".

Uma pessoa simples é a lembrança que Mário tem do pai, "eu sei que ele foi um grande músico, e me lembro dele ao piano com seu cigarrinho de palha".

Mário Dias ainda se recorda de, ao crescer, ter ajudado o pai musicalmente "carregando o acordeon pesado", brinca.

HINO DO NOROESTE

Funcionário público, foi aqui que Miguel Ângelo Ruiz criou os seis filhos, cinco homens e uma mulher. Quer uma prova do quanto gostava daqui? Basta dizer que, quem é torcedor do Noroeste, sem dúvida conhece o hino da maquininha vermelha, composto por ele, letra e música, que começa dizendo "Avante, avante, Noroeste, Bauru com emoção".

Sua obra é vasta, vastíssima. Mas não viveu da arte. Trabalhou a maior parte de sua vida, a partir de 1945, no Departamento de Correios e Telégrafos, mas sempre conciliando o amor pela composição e ministrando aulas particulares de música.

Sua vida como instrumentista foi mostrada em solos e em grupos musicais, em milhares de apresentações públicas. Tinha uma característica peculiar que era a de presentear amigos e pessoas conhecidas com lindas composições para piano solo e canto. E um ouvido afinadíssimo.

Além de um olhar perspicaz. De suas pescarias pelo Mato Grosso nasceram por exemplo, obras como as suítes "Na Floresta", para piano (1976) com "A Dança do Gafanhoto da Perna Quebrada" e "As Abelhas" ou a Suíte "Selva Brasileira" para piano (1963) com "A Dança dos Grilos" e "A Dança dos Sapos".

Uma simples olhada em seu perfil na Wikipedia, mostra o quanto foi criativo. Há dezenas de hinos, ao Rotary, ao Bauru Tênis Clube (valsa), Canção da FOB (1979), Hino à EEPSG "Silvério São João", marcha escolar, Hino Oficial pelo "Jubileu de Prata" da Fafil (1978). E centenas de valsas, muitas vezes compostas com a inspiração da filha. "A gente trocava cartas com os namorados, era o costume da época", lembra a filha Maria Zuleika Ruiz, aos 83 anos, recordando como o pai era rápido ao compor.

"A gente mostrava uma carta, juras de amor, e em instantes estava lá ele rascunhando a partitura e saía uma nova composição. Era demais", relembra. 

Uma feliz coincidência

A maestrina Sônia Berriel se considera da família do compositor. "Com orgulho posso dizer que sou uma Ruiz".

É que ela nem imaginava que o grande amigo, incentivador, impulsionador da carreira de muitos, inclusive dela, do qual se considera uma filha e com quem conviveu por pelo menos 35 anos, iria fazer parte de sua família de verdade. Ou ao contrário: ela da família dele.

É que, hoje, ela tem bisnetos de sobrenome Ruiz. "A gente nunca imaginaria naquela época de estudos, ele me orientando no trabalho musical, que um dia uma neta minha casaria com um neto dele, nunca mesmo", diz satisfeita com a coincidência.

Dizem que coincidências não existem, então dizendo melhor, está satisfeita, com a sincronicidade que o destino lhe presenteou. "Ele não viveu o suficiente para ver a união dos nossos netos, mas, com certeza, na espiritualidade está muito feliz com isso".

Para finalizar faz questão de resumir quem era o homem que será homenageado hoje: "O maior compositor de música erudita de Bauru". E claro, de música, ela entende.

'Somatória de talentos estratosféricos'

Vinícus Laureto/Divulgação/Secretaria da Cultura
O festival tem atrações gratuitas no Teatro Municipal: doação de 1kg de alimento é incentivada

O Fimub só termina no próximo sábado. A programação ainda tem muitas surpresas, mas o secretário de Cultura de Bauru, Luiz Fonseca, que já se considera um bauruense (está na cidade há pelo menos 15 anos), demonstra de modo fácil a satisfação com o evento que é encabeçado pelo secretaria que dirige. 

"Estamos vivendo um momento especial. É preciso valorizar este momento, é algo fantástico e creio que nunca tivemos algo assim. A somatória de pessoas engajadas, como o maestro Jean Reis (nível internacional e estratosférico), a Sônia, que todos conhecem o talento dela, e mais as pessoas que estão se apresentando (não dá para citar o nome de todos os envolvidos, mas são músicos de alto nível), tudo o que está acontecendo não tem preço.

Tenho certeza de que outros encontros como este acontecerão, que todo o esforço dos dirigentes não pare por aí", faz questão de frisar, chamando o público a prestigiar as noites que ainda virão e a homenagem ao cidadão bauruense que foi Luiz Ângelo Ruiz. "Vivemos um momento muito especial" e esperamos revelar outros talentos, sintetiza.

SERVIÇO

Atrações de hoje e outros dias: https://www.fimub.com.br