08 de julho de 2026
Tribuna do Leitor

Ainda sobre Pedro Bento...

Lázaro Carneiro
| Tempo de leitura: 3 min

Numa análise superficial, porém desapaixonada e com a maior isenção possível sobre a evolução desse universo musical desde o seu nascedouro a essa parte, o ouvinte ou leitor perceberá que os assuntos abordados nas letras das músicas vem variando de acordo com a evolução da sociedade.

Para fugir do maniqueísmo de que as músicas antigas eram boas e as de hoje são ruins, precisamos voltar no tempo e ver a evolução e as transformações que esse estilo musical e a cultura ali representada experimentou.

Com o êxodo rural o público consumidor desse estilo deixou o ambiente rural e passou a residir em um cenário urbano e, aos poucos, foi percebendo as coisas que o rodeava. Por influência desse meio, seu gosto musical foi se alterando e dando espaço para a primeira grande mudança na musica caipira. Foi quando surgiram cantores modernos que destoavam dos já famosos Torres e Florêncio, Tonico e Tinoco, isso para ficar só com dois exemplos marcantes naquele momento, o moderno foram duplas como Nenete e Dorinho, Caçula e Marinheiro, Tibagi e Miltinho e outros que com suas músicas românticas já abordavam romances. E também descreviam fatos de um ambiente citadino. Isso agradava uma grande parcela dessa nova massa consumidora e simultaneamente a reprovação dos que resistiam as mudanças em curso. Era comum por parte desse público mais conservador dizer que essas músicas eram "musicas de zona".

Como se dizia naqueles tempos, enquanto o mundo gira, alpargatas rodas! E assim o mundo seguia de forma inexorável, e novas mudanças na sociedade foram implementadas, a ditadura militar contribuía enormemente com a falta de informação para o povo criando assim terreno fértil para a alienação cultural, levando a população a perder quase que por completo o censo do que é belo, passando a consumir coisas ridículas em matéria de músicas, esse fenômeno se dá também no âmbito da música caipira, a ponto de vivermos hoje uma bandalheira explícita com duplas que, gravando um amontoado de besteirol, fazem verdadeira apologia ao estupro.

Duplas boas com repertorio de bom gosto e culturalmente correto sempre conviveram com as porcarias e oportunistas, assim como acontece em todas as atividades humana, mas é verdade que nos últimos anos essa espécie invasora tem aumentado.

Para entendermos a evolução da música caipira temos que levar em conta um aspecto importantíssimo que é o regime capitalista pelo qual a sociedade brasileira "optou" ao optarmos pelo capitalismo.

Automaticamente escolhemos a barbárie, a falta de ética nas relações e o lucro acima de tudo, inclusive das artes, como no mundo capitalista lucro é sinônimo de sucesso, aí vale tudo para obtê-lo e a música caipira não foge a essa regra.

E essa busca insana pelo sucesso e lucro fácil vem se acentuado ao longo dos anos na medida em que a sociedade vai avançando e se deteriorando em seus costumes e valores.

Como podemos observar nada mudou, o que houve foi que a sociedade avançou rumo a barbárie acentuando assim a bandalheira e, hoje, temos boas duplas naufragadas na mídia que corrompe e mata a verdadeira música sertaneja onde o banjo o violino e o "cautri" americano continuam nos colonizando.

Mas ainda vale a pena navegar em meio a esse mar de lamas e ver flutuando com leveza verdadeiros clássicos e lindas poesias onde poetas que não se deixam dobrar, e aí eu me incluo modestamente, seguem com suas narrações épicas sobre imaginário caipira.