10 de julho de 2026
Geral

Entrevista da semana: Valter Luiz Zorzetto

Marcele Tonelli
| Tempo de leitura: 6 min

Marcele Tonelli
Especialista em Urgência e Emergência, Valter Zorzetto tem perfil extremamente humanizado; tornou-se médico ao seguir os passos do irmão mais velho, também cardiologista

Se o assunto é coração, Valter Luiz Zorzetto é o "cara", ou melhor, o médico certo! Angiologista e cirurgião cardiovascular e vascular, especializado em Urgências e Emergências, ele dedicou 34 anos de sua vida ao Pronto-Socorro Central (PSC) de Bauru e aposentou-se como o médico mais antigo do local até hoje. Ao todo, foram mais de 44 mil horas de atendimentos prestados a centenas de pacientes por meio da principal unidade médica pública de Urgência e Emergência no município. Trajetória que ele conta com orgulho e atribui como um aprendizado para uma de suas principais qualidades profissionais, a de médico com perfil extremamente humanizado.

De origem humilde, doutor Zorzetto é nascido em Floresta, distrito de Cabrália Paulista, e ajudava o pai e os cinco irmãos a cuidarem de um armazém da família. Depois, morou em um sítio em Paulistânia, pouco tempo antes de chegar a Bauru. Foi aqui, na cidade onde vive há mais de 50 anos, que ele estudou antes de entrar para a medicina na Unesp de Botucatu, inspirado no irmão mais velho, também médico cardiologista, Vilson Luiz Zorzetto.

Apaixonado pela esposa e os dois filhos, Zorzetto se dedica ainda à culinária, ocupação que corre em paralelo. Mas adianta que, apesar dos pratos dignos da alta gastronomia, não pensa em investir. As degustações ocorrem apenas para os mais chegados e nos dias fora dos plantões que ele ainda dá na rede particular e em sua clínica, a OftCor, na quadra 20 da Azarias Leite.

Arquivo pessoal
O médico Valter Zorzetto com e esposa e dentista Yáskara Assad Zorzetto

JC- Você diz que seu coração é bauruense, como teve início sua relação com a cidade?

Valter Zorzetto - Em 1968 meus irmãos mais velhos vieram para Bauru estudar e meus pais resolveram vir também, mudamos em 1969 e moramos por muitos anos no Jardim Bela Vista. Estudei a vida toda aqui. Antes da medicina, eu estudei Eletrônica no colégio técnico, atual CTI da Unesp, mas era pago naquela época e acabei desistindo no primeiro ano.

JC - E quando foi que a medicina entrou para sua vida? Por que optou pela área cardiovascular?

Dr. Zorzetto - Em 1972 meu irmão mais velho passou em medicina em Botucatu. Eu fui passar um feriado com ele lá, me encantei com a universidade e decidi que era o que eu também queria fazer. Fiz cursinho e passei, me formei em 1982 e tentei outras residências, mas acabei passando em uma de Campinas, da área de cirurgia vascular e cirurgia torácica. Em paralelo, prestei um concurso da prefeitura de Bauru e passei. Assumi como médico no PS em 1984 como generalista clínico. Eu fiquei muito feliz, porque pude voltar para Bauru e retribuir com a profissão tudo o que a cidade me deu.

Arquivo pessoal
Valter Zorzetto com sua mãe Ideici Zanini Zorzetto durante a formatura

JC - Ao longo dos 34 anos de atuação no PS quais foram as principais dificuldades encaradas?

Dr. Zorzetto - Quem trabalha no PS tem gostar. Mais de 600 médicos passaram por lá neste tempo, eu ficava triste em ver os colegas saindo. Muitos usam as unidades públicas só como trampolim para ingressar em outros projetos ou abrirem o próprio negócio. E há muito preconceito com quem fica e se dedica. É taxado como profissional malsucedido. Mas eu nunca liguei para isso, sinto que fui verdadeiro comigo mesmo. Trabalhei com tudo ali, fui diretor, perito e todos me conheciam, especialmente meus amigos da enfermagem. Salvei muita gente e tive que "me virar nos trinta" muitas vezes, porque faltavam remédio e material. Mas essa experiência me tornou um médico completo, aprendi muito lá, não só sobre medicina, mas sobre o "ser humano".

Arquivo pessoal
Cirurgião Valter Zorzetto ao trocar o bisturi pela faca de cozinha: terapia

JC - Quais os momentos que marcaram sua rotina como médico da Urgência e Emergência no PS?

Dr. Zorzetto - Os casos de acidentes na estrada eram os mais tristes. Às vezes, a gente atendia o marido que nem sabia que havia perdido a esposa ou os filhos. Tinha acidente que sobrava apenas uma pessoa viva na família. Nos últimos anos, eu não conseguia esconder e chorava junto. Mas, por outro lado, pude salvar muitas vidas e livrar muitas pessoas de dores e isso é incrível. Lembro-me de uma criança que deu entrada desfalecida engasgada com um espeto de carne. Eu consegui tirar e ela voltou a respirar. A mãe se ajoelhou aos meus pés e foi emocionante.

JC - O que a medicina lhe ensinou ou lhe deu e que nenhuma outra profissão seria capaz?

Dr. Zorzetto - É a melhor profissão do mundo, pois o leque de atuação é muito grande e ganha-se bem, os que gostam de trabalhar, claro. Principalmente se for com plantões. Mas o ganho com a medicina é além, lidar com vidas é algo satisfatório, as pessoas confiam tudo em você e veem o médico como uma espécie de figura divina.

Arquivo pessoal
Da direita para a esquerda: Valter Zorzetto com a filha Ana Laura, estudante de medicina, o filho Décio e a esposa a dentista Yáskara Assad Zorzetto

JC- O que mais lhe preocupa quando falamos em medicina no Brasil, atualmente? Para onde estamos caminhando?

Dr. Zorzetto - O número exuberante de faculdade que abriram no País nos últimos dez anos me causa certo receio, em virtude da qualidade da formação. E dos profissionais que teremos nos próximos anos. Hoje, o médico e o paciente estão muito dependentes da tecnologia. E o dr. Google anda ensinando muito, mas também causando confusão. Hoje, o médico não precisa mais nem decorar fórmulas, basta um Google.

JC - Além de médico da sua família soube que você também é o cozinheiro da casa?

Dr. Zorzetto - Desde os 6 anos já cozinhava com a minha mãe. Na época da faculdade, eu era o principal cozinheiro da república, caprichava nas refeições e o pessoal adorava, mas ficava bravo, porque eu gastava muito no mercado. Não sei se é dom, mas cozinhar é prazeroso e desestressa. Gosto de cozinhar comida salgada e fui me aprimorando ao longo dos anos, mas só para família e amigos. Eles até me falam para montar um bistrô, mas daria muito trabalho. Sobre ser médico da família, é real, dificilmente vamos a um hospital, só quando a coisa é séria mesmo.

JC - Você chegou até a fazer curso de salgadeiro?

Dr. Zorzetto - Sim, há três anos, no Senac. Foi engraçado, o pessoal do curso estranhou um médico por lá.

JC- No fim, medicina e culinária se relacionam?

Dr. Zorzetto - Sim, somos o que comemos. E a culinária de qualidade e com produtos saudáveis funciona como medicina preventiva. Além do que, tanto na medicina, quanto na culinária é preciso carinho e cuidado na hora de trabalhar.