| Fotos: Bruno Freitas |
| Aposentado foi rendido, agredido, amarrado e levado até Piratininga em seu Uno por dois homens |
| Perseguição policial só terminou quando um buraco no asfalto estourou o pneu do veículo roubado |
Um aposentado foi rendido, agredido, amarrado e levado até Piratininga em seu Fiat Uno por dois homens que confessaram o crime, alegando que estavam sob efeito de crack e que queriam usar o veículo para poder se divertir. Os dois criminosos, presos em flagrante por roubo, também deram trabalho à Polícia Militar: houve longa perseguição, que só terminou quando um buraco no asfalto estourou o pneu do carro (leia mais abaixo). O caso registrado na última terça-feira (12) engrossa as estatísticas de ocorrências policiais em que o consumo de crack se associa à violência em Bauru.
Em janeiro deste ano, por exemplo, um rapaz de 25 anos, também usuário de crack, foi preso por suspeita de envolvimento em aproximadamente dez roubos a circulares do transporte coletivo.
Conforme o JC divulgou, ele portava um cano com cabo, possivelmente utilizado para simular uma arma de fogo sob a roupa. "É um rapaz que trabalhava como cozinheiro em um restaurante e estava há cinco anos afastado das drogas, mas teve uma recaída", aponta o titular da Delegacia de Investigações Gerais (DIG), Cledson Nascimento.
Segundo o delegado, são inúmeras as ocorrências de pequenos roubos em Bauru, em que os criminosos, inclusive, utilizam facas ou simulacros de arma de fogo para render as vítimas. Os autores, com sintomas da abstinência e obcecados para ter acesso às drogas, se tornam violentos e investem contra seus alvos - pessoas inocentes - para obter pequenas quantias em dinheiro, mesmo sob risco de serem presos.
É o ápice de um processo de embrutecimento, que gera rompimentos sobre a vida em sociedade em todos os âmbitos: familiar, de trabalho e escolar. "O usuário rouba um celular que vale R$ 700,00 e vende por R$ 50,00 na biqueira. O histórico é praticamente o mesmo: primeiro, a pessoa vende suas próprias coisas; depois, vende as coisas da família e, no fim, parte para a criminalidade, subtraindo bens de outras pessoas, muitas vezes com o uso de violência ou ameaça", detalha Nascimento.
Droga muito mais barata do que a cocaína e com efeito mais agressivo, o crack começou a se popularizar no Brasil na década de 1990. De lá para cá, todas as políticas assistenciais e de saúde estabelecidas para tentar reabilitar os usuários não obtiveram o êxito necessário para conseguir minimizar o poder danoso da droga em toda a sociedade.
Hoje, a maioria dos homicídios em Bauru tem vinculação com o tráfico de entorpecentes, especialmente o crack. Somente em 2019, duas pessoas - ambas dependentes químicas - foram assassinadas dentro deste contexto criminal e encontradas em covas rasas nas imediações da favela São Manoel.
A suspeita é de que uma delas tenha delatado à polícia atividades ilícitas de traficantes e que outra tenha furtado drogas de um esconderijo. Um jovem de 18 anos foi preso sob acusação de envolvimento com os homicídios.
| Bruno Freitas |
| A vítima, de 66 anos, foi atingida por coronhadas no peito |
'Eles me pegaram pelas costas e me agrediram'
A mais recente vítima da violência provocada pelo crack foi um aposentado de 66 anos, abordado por dois dependentes químicos na noite de terça-feira (12), quando chegava de carro em casa, no Parque São Geraldo, em Bauru.
Ferido, ele foi levado por Jefferson Luciano de Souza, 23 anos, e Cristiano Ferreira Martins, 32 anos, em seu Fiat Uno e libertado somente na divisa entre Bauru e Piratininga.
Pouco tempo depois, a dupla foi presa pela Polícia Militar, após longa perseguição que terminou quando um buraco no asfalto estourou o pneu do veículo roubado. A vítima relatou que, assim que chegou em casa e saiu do veículo, foi surpreendido com uma ''gravata' aplicada por um dos presos.
"Eles me pegaram pelas costas, me agrediram e me enfiaram de volta no carro. Falaram para eu não me mexer e, quando me soltaram, pediram pra eu seguir em frente sem olhar para trás", contou ontem ao JC, ainda tentando assimilar o que havia acontecido.
O aposentado foi ameaçado pelos assaltantes, que mostraram uma arma de fogo - um simulacro posteriormente localizado pela PM.
Ainda de acordo com a vítima, a dupla tomou seu celular e os R$ 30,00 que estavam em seu bolso e tentaram entrar na casa, o que só não ocorreu porque a chave quebrou dentro da fechadura do portão do imóvel.
Irritados pelo insucesso no roubo, os ladrões agrediram o aposentado com coronhadas, provocando ferimentos nos braços e no peito. Já com a vítima amarrada dentro do carro, eles seguiram até Piratininga. O senhor foi abandonado na Ponte do Cedro e socorrido por moradores das imediações.
A Polícia Militar foi acionada e uma equipe da 4.ª Companhia avistou o veículo em fuga no Jardim Ivone. Houve perseguição por diversos bairros até o pneu do Fiat estourar na quadra 4 da rua Maurícia Pereira de Lima, no bairro Pousada da Esperança 2.
Com passagens pela polícia, os dois homens foram presos em flagrante por roubo. Eles confessaram o crime, alegando que haviam consumido crack e que queriam pegar o veículo para poder se divertir à noite.