08 de julho de 2026
Articulistas

Solidariedade perde espaço para indiferença

Archimedes Azevedo Raia Jr.
| Tempo de leitura: 2 min

Em Campinas, 11 de fevereiro de 2019, ocorreu um improvável acidente de transporte, envolvendo um caminhão e um helicóptero. A aeronave transportava Ricardo Boechat, um dos mais respeitados jornalistas, que proferira palestra em um evento e retornava à São Paulo.

Como quase tudo o que acontece nos dias atuais, o acidente foi registrado por câmeras de monitoramento e inúmeros celulares. Não há dúvida de que o acidente foi inusitado, chocante e que comoveu o Brasil, com repercussões no exterior. No entanto, nos minutos subsequentes, outro fato foi vituperioso, principalmente aos mais sensíveis, que procuram olhar mais para os aspectos humanos e menos sensacionalistas dos fatos.

Ato contínuo, a mídia televisiva passou a acompanhar com imagens ao vivo toda a sequência de ações, de onde se destacava uma pessoa que, quase solitariamente, tentava socorrer o homem preso às ferragens. Era uma mulher, a vendedora Leilaine R. Silva, de 29 anos, que viajava em uma moto ao lado do caminhão acidentado. As cenas mostram Leilane em pé, desesperada, sobre a mureta de concreto lateral da pista, pois havia risco de incêndio no caminhão. Os restos do helicóptero ardiam há poucos metros dali.

Alguns destroços da aeronave ficaram incrustrados na parte frontal do caminhão e se confundiam com os fragmentos do para-brisa. Ela quebrou o vidro da porta do caminhão com o capacete e procurou empurrar para fora da cabine os pedaços da aeronave. Prensado entre o para-brisa e o banco estava inerte o motorista do caminhão esperando pelo resgate.

Com todo o esforço dispendido, Leilane se sentia sem forças e conclamava os homens no entorno. Encontrando dificuldades, em determinado momento, ela se desespera e grita: "ajuda aqui gente, ajuda..." Esta cena é patética e lamentável! No meio de tantos homens presentes, foi uma mulher, Leilane, que tomou a iniciativa de socorrer o motorista acidentado. O que faziam os homens? Filmavam e fotografavam a cena, certamente, para publicar nas redes sociais como prova de seu protagonismo no episódio fatídico.

Aliás, fatos como este se repetem recorrentemente. As pessoas mais se preocupam em registrar em foto ou vídeo determinada ocorrência, ao invés de socorrer as pessoas envolvidas. A solidariedade parece estar ficando esquecida. A febre pelas redes sociais, com o registro de cenas as mais bizarras possíveis, parece atrair mais do que o sofrimento humano.

Tornou-se mais importante registrar fatos nas redes do que exercer a solidariedade, se preocupar em acolher e ajudar o semelhante, o dever de socorrer o irmão. Pobre sociedade, escravizada pela exposição e publicidade. A relação pessoal, a troca de gentilezas, o acolhimento dá lugar à superficialidade, frieza nos relacionamentos e indiferença em relação aos que sofrem.

Um alerta foi dado. Em junho de 2018, o Papa Francisco exortou: "Façamos das redes sociais um lugar de humanização, de abertura ao outro, à sua cultura, à sua tradição religiosa e espiritual, à sua diferença; lugar de diálogo a serviço de uma cidadania responsável". Precisa-se acabar com essa indiferença e reaquecer os corações.

O autor é professor sênior da UFSCar e diretor de Mobilidade da Assenag.