09 de julho de 2026
Geral

O homem de 96 anos e um emprego só

Marcele Tonelli
| Tempo de leitura: 3 min

Samantha Ciuffa
Seo Hermelindo Polido recorda as memórias do seu antigo emprego na NOB e relata a saudade das amizades que fez por lá

Ele tem 96 anos, 4 filhos, 7 netos e 3 bisnetos, mas teve um emprego só em sua vida toda. Este é Hermelindo Polido, o bauruense que foi funcionário da Estrada de Ferro Noroeste do Brasil (NOB) por mais de três décadas até se aposentar e nunca mais teve outro emprego.

Filho de imigrantes italianos e morador da Vila Falcão por mais de cinco décadas, seo Hermelindo se diz nada ganancioso e prova com sua história o que parece ser improvável para grande parte dos jovens no atual mercado de trabalho (leia mais abaixo).

Apaixonado por trens, ele ingressou na NOB aos 18 anos, influenciado pelo pai, que também havia se aposentado no local. E trabalhou até os 51 anos em um galpão da oficina mecânica da estação. "Eu via aqueles trens e sempre tive vontade de trabalhar lá. E nunca mais sai, porque aprendi e fiz de tudo, da mecânica ao almoxarifado. Até ferramentas aprendi a produzir e consertava tudo o que pudesse. Era uma empresa muito boa, que valorizava seu funcionário", afirma.

VALORIZAÇÃO

Entre os benefícios, seo Hermelindo cita os hospitais conveniados com a NOB, na época, além dos descontos nas passagens para e ele e sua família viajar nas folgas e as licenças prêmios.

Arquivo Pessoal
Família Polido há 60 anos: Hermelindo, de terno escuro, à direita da foto, com a filha no colo; ao lado, a esposa Aracy Ruiz Polido e dois filhos; no centro, estão sentados seus pais, Adino e Santa Vivan Polido, em meio aos irmãos e sobrinhos

"Tinha médicos e dentistas à disposição. O trabalhador tinha muitos direitos, não é como hoje. Tínhamos 75% de desconto nas passagens e sempre levava minha família para São Paulo. E tudo na primeira classe, tá?", brinca seo Hermelindo. "Só de licença prêmio pude tirar três, com direito a ficar 6 meses afastados em cada uma. Isso tudo ajudava a valorizar muito aquele emprego", completa o idoso, que se aposentou na Rede Ferroviária Federal.

"É uma pena ver que tudo acabou. Uns anos após minha saída, os trens foram sumindo. Tenho certeza que, se existisse uma empresa assim, hoje, muitos jovens não estariam perdidos na vida", opina.

Mas o que ele mais valorizava por lá mesmo eram as amizades, que perduraram mesmo após a aposentadoria. "Uma pena que não tem quase mais nenhum amigo vivo daquela época", lamenta o idoso, que todos os dias caminha até um supermercado da cidade para fazer novas amizades.

VIAJAR

Depois que se aposentou, ele conta que quis aproveitar o descanso. "Eu fui é viajar, passear. Minha esposa adorava, nos divertimos e aproveitamos muito até ela falecer, há 9 anos", cita o homem, que, hoje, mora sozinho e ainda mantém independência da família.

Qual o segredo dele para a longevidade? "É esse mesmo, é não ficar em casa. É conhecer as pessoas e fazer amizades e, claro, comer pouco e muita salada. Também não deixo de beber meu copo diário de vinho. É uma forma de brindar a vida", finaliza seo Hermelindo.

Especialista fala sobre as mudanças do perfil

Há menos de duas décadas, ficar muito tempo em um emprego era considerado fator decisivo em contratações posteriores por ser tido como sinônimo de profissional que "veste a camisa". O recurso antes indispensável nas avaliações dos RHs de empresas, contudo, se transformou ao longo dos anos. Isto porque as gerações sofreram evoluções e o perfil profissional ganhou novo sentido.

"Está cada dia mais comum as pessoas terem de 4 a 5 carreiras ao longo da vida. Hoje, as pessoas têm necessidade de gratificação imediata e querem crescer. A vida no passado era mais simples e a estabilidade trazia segurança social. O consumismo não era intenso como hoje", comenta a especialista em Gestão de Pessoas Débora Scardine Pistori.

Ainda de acordo com ela, mesmo grandes empresas que possuem diversos benefícios registram alta rotatividade de funcionários. "Tem relação com necessidades e novos desafios também. Eu mesma sou formada em Administração, tenho MBA em Gestão de Pessoas, mestre em Engenharia de Produção e me formei em Gastronomia. O autoconhecimento é importante para que você conheça suas habilidades e competências e consiga direcionar isso", finaliza Débora.