O Brasil já teve problemas mais prosaicos, no passado, do que esse da complicada reforma previdenciária. Segundo o ministro da Economia Paulo Guedes, se não for feita no curto prazo, levará o país à recessão profunda. Em 1816, o botânico francês Auguste de Saint-Hilaire, estudou a nossa floresta e concluiu com uma célebre frase, até hoje na boca do povo: "Ou o Brasil acaba com a saúva ou a saúva acaba com o Brasil".
Hoje, a onipresença das formigas-cortadeiras que tanto impressionaram Saint-Hilaire, é lembrada como metáfora sobre as mazelas da vida nacional. Enquanto a agricultura moderna conseguiu conviver no mesmo espaço geográfico das formigas, na área urbana ainda são descobertos "panelões" com milhões de notas de cem reais. Certamente carregadas à noite, pelas cortadeiras dos recursos públicos, desde as hortas vicejantes da propina.
O poeta Mário de Andrade, em Macunaíma, a clássica novela modernista publicada em 1928, adaptou a temática num só versinho: "Pouca saúde e muita saúva os males do Brasil são". Pior é que, sem conseguirmos resolver problemas antigos, outros surgem ainda maiores. A Previdência responde por 60% de todo gasto do estado. Em 10 anos, sem reforma, será de 80%.
Despesas com saúde, educação e infraestrutura - que hoje cabem nesses 40% restantes do orçamento, terão que caber na metade. Isso porque a Previdência cresce com o envelhecimento populacional e, por ser um gasto obrigatório, ocupará fatias cada vez maiores do bolo. Na ausência de reforma, dizem os especialistas, por volta de 2035 a Previdência simplesmente ocuparia todo o orçamento do governo. A soma de déficits futuros - até 2060 é de mais de R$ 5 trilhões para Estados e Municípios. E é de mais de R$ 9 trilhões para a União. Esses trilhões vão consumir cada vez mais espaço do orçamento.
Caminhamos para o fim do estado-provedor, surgido no após II Guerra, como forma de revitalização do capitalismo. No estado-babá, todos querem cada vez mais benesses, e alegremente entregam o comando de suas vidas ao estado. Em vez de dizer muito obrigado ao pagador de impostos que lhe provê benesses, o cidadão de um estado assistencialista é ensinado a dizer: O que mais tenho o direito de receber? "Exija o impossível" - era o slogan dos rebeldes dos anos 1960.
Voltando a Saint-Hilaire, quando ele chegou a São Paulo, com sua coleção de espécimes acondicionadas em caixotes sobre lombo de mulas, surpreendeu-se ao saber que a saúva era uma iguaria culinária apreciada. O abdômen avantajado da tanajura ou içá, era comido frito em óleo, com farinha de mandioca. O prato era rústico demais. Os paulistanos ficavam envergonhados de saborear formigas na frente de visitantes de cerimônia. Saint-Hilaire, cientista, via o hábito como mais uma forma de controle das saúvas.
Depois do voo nupcial, a tanajura é uma rainha emprenhada. Cai no chão, cavouca o ninho e despeja do abdômen milhares de ovos para formar novos formigueiro. Cada labirinto de túneis e depósitos de folhas pode conter até 5 milhões de indivíduos.
Na década de 1840, um fungo dizimou as plantações de batatas na Irlanda. Muita gente morria de fome sem essa quase única fonte de alimentação. Metade da população produtiva imigrou para os Estados Unidos e Canadá. O escritor Jonathan Swift, numa antevisão dessa catástrofe, sugeria que os pobres vendessem as crianças para as classes mais abastadas comê-las bem temperadinhas. Seria a forma de diminuir tantas bocas famintas.
Aqui no Brasil, ainda vai surgir quem queira transformar os velhinhos num bom caldo, mesmo à custa de muitas horas de fogo. Menos radical é a proposta de baixar para 400 reais o Benefício de Prestação Continuada aos mais pobres dos pobres. Um salário mínimo, somente depois dos 70 anos. Um prêmio para quem conseguir sobreviver.
A elite previdenciária é a do servidor público. Possui regras de idade e, principalmente, valor do benefício muito mais vantajoso do que o do INSS. Os servidores custeiam menos de 15% das despesas, o resto fica por conta da sociedade. Possuidores de lobbies poderosos no Congresso, dos servidores, bumbum em que mamãe passou Hipoglós, ninguém fará farofa na frigideira.
Saint Hilaire valorizava demais o engenho brasileiro. Espero que não voltemos à velha especialidade da casa, a de imprimir dinheiro. Na Argentina a inflação está nos 47% ao ano. A da Venezuela deixa nossas viúvas da ditadura morrendo de inveja: 10.000.000%. Prefiro a saúva.