Frequentemente, a informação veiculada na mídia produz um frio na alma. A sociedade desenhada no noticiário parece refém do vírus da morbidez e da síndrome do egoísmo. Crimes, aberrações e desvios de conduta desfilam no noticiário das metrópoles. A sociedade, encurralada pelo atrevimento da maldade, já encara a violência como parte da paisagem urbana.
A mídia tem sido acusada de estar dominada pela patologia da má notícia. Catástrofes e tragédias excitam pautas e ganham o status de manchete de primeira página. Queixam-se os leitores de que, frequentemente, iniciativas bem-sucedidas têm recebido pouco destaque ou, quando muito, migram para o lusco-fusco das páginas interiores. Essa tendência, no entanto, acaba de ser derrubada pela coragem solidária de uma mulher.
Quem viu a força da vendedora Leiliane Rafael da Silva, 28 anos, que venceu o metal da fuselagem do caminhão que se chocou com o helicóptero em estava o jornalista Ricardo Boechat, não poderia imaginar que ela também luta pela própria vida. Leiliane recebeu o diagnóstico de Malformação Arteriovenosa (MAV) em novembro de ano passado, pouco mais de um mês após dar à luz Lívia, hoje com 4 meses. "O primeiro hospital chegou a chamar minha família e falar que eu tinha um tumor cerebral maligno e que eu não tinha chance de vida", disse à reportagem do G1.
Pois bem, amigo leitor, enquanto alguns marmanjos dominados pela compulsão digital fotografavam a tragédia, Leiliane foi lá. Resolveu. Salvou a vida do caminhoneiro. A cena, emocionante, foi imortalizada pelo ilustrador Angelo France. O artista não conseguia apagar a cena da vendedora socorrendo o motorista de caminhão. A força da mulher foi o que o inspirou para desenhar. Além da ilustração, ele fez o seguinte post no Instagram: "Minha visão da imagem marcante no momento do acidente que vitimou o jornalista Ricardo Boechat e o piloto do helicóptero, Ronaldo Quattrucci. Heróis reais existem! Leiliane, que assistiu de perto a queda do helicóptero, desce da moto e corre para salvar a vida do motorista do caminhão atingido no acidente. Uma mulher forte, de coragem, que arriscava sua vida enquanto os homens a sua volta apenas se importavam em filmar ao invés de ajudar. Parabéns Leiliane! Verdadeira heroína!" Leiliane viu o desenho e agradeceu a homenagem. "Ficou lindo, perfeito. Mas eu não sou heroína, não sou Mulher Maravilha, acho que isso foi um pouco exagerado", disse ela.
A notícia positiva, tão verdadeira quanto a informação negativa, é uma surpresa, quase um fato inusitado. Acabamos de redescobrir que a sociedade aparentemente anestesiada pela violência não perdeu a capacidade de se comover com um instantâneo de generosidade. O comportamento, não obstante a cativante simplicidade da jovem vendedora, merece um registro.
Para nós, profissionais de um jornalismo tão habituado à rotina do noticiário negativo, o episódio tem algo de inusitado. Leiliane deixa um belo legado de coragem e solidariedade para seus filhos. E para nós, jornalistas, mostrou que a grandeza humana bem vale uma matéria.
O autor é jornalista. E-mail: difranco@ise.org.br