10 de julho de 2026
Tribuna do Leitor

Três anos de atraso no aprendizado

Joaquim Eliseo Mendes - O autor é professor, membro efetivo da ABLetras. Aposentado como Inspetor Escolar há 37 anos
| Tempo de leitura: 3 min

Esta foi a manchete do JC de dois domingos atrás, uma completa reportagem sobre o atraso no aprendizado dos alunos da rede pública de nossa cidade e do Estado, após divulgação de dados pelo SARESP (Sistema de Avaliação e Rendimento Escolar do Estado de São Paulo), com várias manifestações de educadores de Bauru e região, atraso que evidencia do regular até um baixo nível ou qualidade do ensino.

Lembro de que este fato não deve constituir nenhuma novidade ou surpresa pois já era previsto há muito tempo, quando a Secretaria de Educação do Estado formalizou a promoção automática, processo em que o aluno não era mais avaliado no final do ano e, soubesse ou não, era promovido, melhor dizendo, "passado", empurrado para a série seguinte.

Esta Resolução oficial foi reprovada e condenada pelos próprios professores de todas as séries que já anteviam seu malefício como realmente aconteceu, o de milhares de alunos semialfabetizados chegarem a cursar até o final do ensino fundamental e médio

Com a promoção automática passou-se a considerar a escolaridade, isto é, os anos de frequência do aluno à escola e não o seu aprendizado; desconsiderou-se o domínio do currículo, principalmente a alfabetização, o que foi mais grave. Mesmo sem conseguir ler, escrever umas breves linhas o aluno era empurrado para a segunda série e subsequentes como uma produção em série. Vimos o triste quadro de alunos concluírem o ensino médio lendo e escrevendo muito mal, não interpretando textos, deficiência esta que levaram para o ensino superior promovendo problemas de suas graduações na vida prática. Enfim, quais os objetivos desta reprovável promoção automática?

Era atingir o nobre e necessário objetivo da universalização - escola e ensino para todos - porém, sem criar novas unidades escolares e respectivas vagas. Isto é, mantendo o mesmo número de vagas, admitir todos em idade escolar empurrando alunos para a outra série a fim de deixarem vagas. Enfim, prevaleceu o motivo econômico. A falta de investimento deixando como herança este indesejável resultado.

Muito embora eu procure acompanhar a crescente e dinâmica tecnologia aplicável na escola, tanto pública como particular, entendo que apenas ela não será a única responsável e nem fará o milagre de melhorar a nossa escola. Entendo-a como uma complementação pois o fundamental está no "arroz e feijão" da mesma.

Na valorização e segurança do professor, sua inteira dedicação, delegação de mais autoridade ao diretor ou gestor, disciplina do alunado lembrando-o sobre o futuro e difícil exercício da cidadania.

Considero também como fundamentais as "aulas de reforço" contínuas, das principais disciplinas em que o aluno encontra dificuldade, e não apenas no final do ano. E que sejam dadas por outro professor, extra classe, admitido e sempre disponível para tal fim.

E o seu desenvolvimento deverá ser o seguinte: quando o professor da classe verificar que um seu aluno tem dificuldades em tal parte da matemática, português, física, química, deverá encaminhá-lo para o outro colega retornando para sua classe. Considero também muito importante tirar algumas cargas do professor com a admissão ou contratação junto às Diretorias Regionais de outros profissionais como psicólogos, assistentes sociais, nutricionistas para múltiplo atendimento regional.

Discorri sobre medidas não milagrosas mas que deverão mudar o quadro de nossa escola e melhorar a qualidade do ensino, fato que demandará muito tempo. Quando terminava de escrever esta matéria, veio-me à mente a presente falta de participação da escola local em relação a este grave problema que atinge nossa cidade, o da dengue.

Será que está sendo levado aos alunos? Pois muito poderão colaborar, informando e cobrando dos pais. A gravidade da dengue não deve ser discutida apenas em nível superior ou nas altas esferas, mas principalmente nas escolas e com os professores.