09 de julho de 2026
Tribuna do Leitor

Não precisa morrer para ver Deus

Lucas Dias
| Tempo de leitura: 1 min

Trinta dias antes de seu falecimento, meu pai recebeu alta hospitalar após um conturbado período na UTI em razão de uma grave e delicada doença. Após o coma induzido por medicamentos, ele retornou mais espirituoso do que de costume. Dizem os acadêmicos que, em experiências de quase morte, as pessoas retornam mais sensíveis e isso estava latente nele - não retornou um santo, mas sim com a vida hipervalorizada, enaltecendo momentos simples como um banho de chuveiro e um prato de comida. Durante aquelas poucas horas no quarto, ele pôde traçar infinitos planos sinceros, sendo a próxima refeição a mais detalhada e almejada.

Na espera pela tão esperada alta, nas exatas 12h daquele mesmo dia, meu pai se sentou em uma cadeira prostrada ao lado de uma grande janela que iluminava todo o corredor daquele hospital. Lá, olhando fixo para o horizonte arborizado, o velho foi às lágrimas como uma criança pequena. Ali ele disse que, no fim da madrugada anterior, com o nascer resplandecente do sol, ele pôde ver Deus pela primeira vez, que veio a ele sem pedir licença ou fazer anúncios. Veio como vem para todos, mas que somente naquele instante ele pôde notar e ver a Deus.

Depois daquele dia de imensa esperança, meu pai teve outras inúmeras internações e, trinta dias depois de declarar ter visto Deus, não satisfeito de vê-lo, às exatas 12h sua alma desejou estar também ao lado dEle. A partir dessa história verídica que para sempre será lembrada com muito carinho, é possível compreender que o sagrado se mostra no nosso dia-a-dia em situações e momentos despretensiosos, manifestando sua presença em coisas simples e corriqueiras, como no nascer diário e constante de uma imensa e distante estrela.