08 de julho de 2026
Carnaval 2019

Carnaval passa e as histórias ficam

Nélson Gonçalves
| Tempo de leitura: 5 min

Fotos: Samantha Ciuffa
Carlos Alberto Tonelli de Campos e Sandra Souza Pereira Tonelli se conheceram no barracão da Mocidade, na Vila Falcão

Paulo Faneco, cabeleireiro, ajusta detalhes na fantasia da maquiadora Haysa Mariane da Silva

A crise econômica e o desemprego em massa continuam interferindo diretamente no cotidiano das pessoas. Ainda assim, a maior festa cultural popular aberta de Bauru (desfiles das escolas de samba no Sambódromo, já ocorridos) continua agregando voluntários e integrando comunidades a cada ano. O JC foi encontrar alguns casos. 

O casal Carlos Alberto Tonelli de Campos e Sandra Souza Pereira Tonelli não só é um dos inúmeros exemplos como testemunha de uma união que se formou em função do enredo.

"Eu conheci o Tonelli no barracão da escola. E foi do envolvimento com o Carnaval, o desfile, a comunidade aqui na Falcão que tivemos a oportunidade de nos conhecer. O curioso é que, até 2015, eu gostava só de forró universitário. Fui convidada por amigos e fui... e aqui estamos juntos. As pessoas que estão na escola vão por amor. A maioria luta para pagar a sua própria fantasia", comenta Sandra. 

Para Adilson Jorge, os jovens precisam ser estimulados a ouvir samba e não serem reféns da música "batidão"

Carlos Tonelli conta que ficou 15 anos sem participar. "Eu sempre gostei de ter envolvimento com o Carnaval. Mas voltei só há quatro anos e fui na Mocidade [Unida da Vila Falcão]. Eu desmotivei muito. O Carnaval também parou muito tempo e isso afastou pessoas. A participação é coletiva. Cada um ajuda no que sabe fazer ou aprende com outros. Eu ajudo em ferragens, parte elétrica dos carros, na confecção das alegorias. No dia do desfile eu não saio em alas. Eu gosto de cuidar da harmonia para garantir a organização, para que nada quebre ou faça com que a escola perca pontos", cita o eletricitário. 

Para eles, a crise econômica afeta também o Carnaval. "A crise tirou muita gente. E não acredito que seja só no Carnaval. Tem sambistas que não vão nem aos ensaios por falta de grana mesmo, porque estão desempregados. Isso aparece mais na bateria, porque nos ensaios você vê que aquele amigo que tocou no ano anterior não está vindo ensaiar e não é porque não quer, mas porque não tem condição", comentam. O casal não desfilou em 2018. "Nós trabalhamos no período do Carnaval", lembram.

GERAÇÕES 

Paulo Faneco está há anos envolvido com o Carnaval. "Eu sempre fui destaque, mas a fantasia fica muito cara e, dessa vez, não deu para o bolso. Mas não abro mão. Vou sair no chão. O que eu percebo é que a crise afastou as pessoas. Outra questão é que a cidade precisa entender que o Carnaval aproxima comunidades, pessoas de diferentes classes e grupos sociais. E essa preparação que leva meses aproxima e traz também filhos, famílias e fortalece a relação entre as pessoas... Estimula outras a virem", aborda. 

A garagem e o quarto da casa de Faneco viraram, de novo este ano, um ateliê carnavalesco. "Eu trabalho com cabeleireiro e só fiquei afastado um tempo porque minha mãe ficou acamada e eu cuidei dela em casa. Eu sempre gostei de participar", conta.

Sem desgrudar do recorte no molde, com a tesoura, Adilson Jorge complementa: "É preciso atuar para despertar o interesse das novas gerações no Carnaval como movimento cultural. A música que a moçada ouve é muito ruim, regra geral é só barulho, e isso também faz com que eles não tenham a oportunidade de apreciar o samba. É um desafio fazer com que as novas gerações sejam estimuladas a aprender essas opções culturais. As novas gerações estão crescendo indo para chácaras no Carnaval".       

Samantha Ciuffa
Haysa Mariane conta mais sobre sua trajetória: "Adoro dançar, mas fiquei um tempo afastada"

Tentativa de ser rainha é adiada

A maquiadora Haysa Mariane da Silva havia desfilado junto com o Bloco Lagoa do Sapo há 7 anos. Mas acabou se afastando.

"Eu adoro dançar, mas fiquei um tempo sem ir aos desfiles depois de ter saído como destaque há 7 anos. Eu vim de Uraí no Paraná e, em casa, todo mundo é divertido e dança. Eu tenho amigos que frequentam o samba, a escola e isso me animou a retornar. O envolvimento das pessoas é que ajuda nessa reaproximação", menciona. 

A vida não é fácil fora da passarela do samba. "Eu era monitora infantil e depois fui trabalhar como caixa no comércio e continuei a fazer bicos como monitora para ajudar na renda. Agora eu estou atuando como maquiadora e atendo a domicílio. A maior parte dos clientes foi sendo formado por amizades. E você faz um bom trabalho e as pessoas vão indicando. Mas eu tive de correr atrás para não ficar parada, fiz cursos de cabelo, design de sobrancelha, maquiadora. Eu presto serviços. Perdi meu pai quando ainda era criança e morava com minha mãe. Ela se casou e agora o padastro também faleceu. Ela voltou para Uraí, mas eu quero ficar aqui e continuar lutando pelo meu espaço", descreve. 

Haysa conta que teve de adiar a vontade de disputar o título de rainha do Carnaval.

"Eu estava me preparando para isso, mas minha tia faleceu no período da escolha", lembra. "Então eu não tive condições de participar. Fica para outra oportunidade. Eu participei bastante. Eu passei em frente ao barracão da escola todo dia. E fiz muitas amizades. Fui convidada e participei de tudo o que posso, ajudando no que posso. No barracão você conhece pessoas que fazem por amor, que participam mesmo em dificuldades".

Ela descreve: "Tem gente desempregada que ajudou a montar fantasias, costurando, colando. É muito gratificante poder participar disso. As pessoas precisam compreender que Carnaval não é só uma festa, mas uma integração e muito envolvimento", finaliza.