11 de julho de 2026
Geral

Entrevista da Semana: Neto Gonçalves - Herança Esportiva

Thiago Navarro
| Tempo de leitura: 8 min

Douglas Reis
Neto busca aprimorar conhecimentos, constantemente

O professor de educação física e treinador de atletismo Alcides dos Santos Gonçalves Neto, mais conhecido como Neto Gonçalves, vem de uma família que faz parte do esporte bauruense. Neto de Cabo Alcides e sobrinho de João Gonçalves, dois importantes nomes do atletismo de Bauru, ele segue a trajetória de ajudar a revelar talentos, agora como técnico da Associação Bauruense de Desportos Aquáticos (ABDA) e da Semel, onde treina diariamente dezenas de jovens na pista do Campo do Oriente, no Jardim Petrópolis.

O treinador fala de seu começo no esporte, ainda na juventude, e do momento atual do atletismo em Bauru, com grande apoio da ABDA, especialmente nas categorias de base. São mais de 900 atletas treinando apenas no atletismo e mais de 4 mil considerando também o polo aquático e natação, desenvolvidos em vários pontos da cidade, além do coral de música. No atletismo, Neto foi o técnico de atletas como Cleverson Júnior, campeão do Mundial Escolar em 2016, Diogo Pereira, campeão do Mundial Escolar em 2018, Jeovana Santos, 4.ª colocada por equipes no Sul-Americano de Cross Country em 2019 e de equipes campeãs dos Jogos Regionais e que alcançou terceiro lugar nos Jogos Abertos. Formado em educação física pela Faculdades Integradas de Bauru (FIB), ele afirma que sempre procura aprimorar os conhecimentos. Entre os destaques da carreira, estão as convocações para treinar a seleção brasileira.

Arquivo pessoal
Neto Gonçalves, João Gonçalves e Cabo Alcides, três gerações dedicadas ao atletismo em Bauru e região

JC - Você começou bem jovem no atletismo. Teve influência da família?

Neto - Na época em que eu nasci, o meu avô já era treinador de atletismo e o meu tio, João Gonçalves, também foi atleta, corredor de fundo, como eu também fui. Então cresci no meio do esporte, gostava de futebol como todo garoto. O curioso foi como comecei a correr. Eu treinava com o seu Bardela, no Noroeste, e jogando futebol eu quebrei o braço, precisei ficar afastado dos treinos. Meu avô falou para eu continuar correndo para manter a forma. Nesse um mês que estava com braço quebrado, eu treinei e ele me colocou em algumas corridas de rua com as crianças. Isso eu tinha uns 12 ou 13 anos e me destaquei. Fiquei por um tempo conciliando o futebol e o atletismo, mas depois, aos 15 anos, passei a me dedicar ao atletismo. O futebol acabou ficando mesmo como um lazer mesmo e fui de vez para o atletismo, treinando, participando de competições. Atuei por Bauru nos Jogos Regionais, Jogos Abertos da Juventude, mas com 20 anos tive de parar. Naquela época, não havia tanto apoio e eu precisava trabalhar.

JC - E quando decidiu em ser treinador?

Neto - Depois de algum tempo, eu fiz educação física, me formei em 2011, e já tinha o objetivo de trabalhar na área, como técnico desportivo, no atletismo. Fiz o curso da Confederação Brasileira de Atletismo (CBAt) e, em 2013, a ABDA estava selecionando um treinador e eu concorri e passei. Também já tinha prestado um concurso para trabalhar na prefeitura. Em 2014 fui chamado e estou conciliando.

JC - O atletismo recebe um apoio em Bauru que acontece em poucos lugares e, de uma maneira geral, é o esporte que é a base de todos os demais. Como vem sendo desenvolvido o trabalho de vocês?

Neto - O atletismo é realmente a base de todos os esportes terrestres, com os fundamentos básicos que é correr, saltar e lançar. A maioria tem esses fundamentos, especialmente na iniciação. Aí, quando vai para o alto rendimento, já sai um pouco disso. A estrutura que a gente tem aqui hoje é fundamental. O meu avô lutou muitos anos para formar uma estrutura dessas e, graças a Deus, a ABDA veio com um investimento que permitiu o crescimento e com isso vieram os resultados. O apoio da ABDA é fundamental. Atendemos aqui no Campo do Oriente mais de 900 crianças, isso apenas no atletismo, pois a ABDA tem mais de 4 mil crianças em Bauru contando a natação, polo aquático e o coral de música. Aqui no atletismo, os treinos são no Campo do Oriente e alguns treinos no Milagrão, que agora ficará fechado para a construção do restante da estrutura, o que permitirá trazer competições para Bauru. Isso é bom porque a maioria das provas é fora e poderá ajudar a desenvolver o esporte no Interior do estado.

JC - No projeto da ABDA, o principal é o incentivo aos jovens, certo?

Neto - O Cláudio Zopone (presidente da ABDA) sempre fala isso, que o pessoal mais velho deve ser um espelho para os mais jovens. Assim, os que estão começando podem ver que é possível chegar longe. Isso não apenas no esporte, mas na vida pessoal mesmo, tanto que os treinos de todos são no mesmo local. Temos vários atletas que começaram novos aqui e hoje estão na faculdade, alguns até formados. A ABDA oferece reforço escolar para que os alunos possam acompanhar bem a escola. O incentivo ao estudo é muito grande, porque uma minoria vai virar atleta profissional, mas o principal é que sejam bons cidadãos.

JC - Outro aspecto é o envolvimento com a comunidade. A maioria dos alunos é dessa região?

Neto - A maioria dos alunos é da região onde acontecem os treinos, que é o Jardim Petrópolis, mas temos pessoas de outras partes da cidade e até da região, como Agudos, Iacanga e Pederneiras. O estádio estava abandonado e quando a ABDA assumiu, fez uma pista que atende muito bem e a comunidade do entorno viu isso de maneira bem positiva.

JC - O seu avô, Cabo Alcides, é um dos grandes nomes do atletismo em Bauru, e o seu tio, João Gonçalves, também foi um atleta de destaque e hoje é treinador. Como é a relação de vocês em família?

Neto - A responsabilidade é grande, porque ter um avô e um tio com sucesso na área traz essa bagagem. O meu avô foi meu treinador e trabalhei com meu tio em escolinhas de futebol. Então, sempre tive uma relação bem forte com eles. Sempre fui de anotar tudo, guardar as informações e, aos poucos, ir formando uma metodologia. Os dois certamente sempre foram referências.

JC - E quantos cursos de aperfeiçoamento você já fez?

Neto - Eu procuro aprender sempre. Fiz o curso de nível 1 de treinador em Manaus. Depois, o nível 2 em Campo Grande e o nível 2 de meio fundo e fundo em Lima. E o nível 3 em Lima, também. Esses dois últimos fiz com o apoio da CBAt, porque estávamos com atletas em boas posições no ranking nacional. Estou sempre aprimorando e trocando as informações com outros treinadores. E nada é feito sozinho. Tudo é com o apoio dos colegas de trabalho, a equipe de atletas, os demais treinadores, que são o Maurício, o Carlos, o João, a Evelyn, está com a gente agora também. E o Cabo Alcides faz o trabalho com a terceira idade. Esse trabalho com a terceira idade também é interessante porque muitos são pais, avós ou tios dos nossos atletas. Então, acaba reforçando a proximidade com a comunidade.

JC - Na seleção brasileira, quais foram as suas experiências?

Neto - Estive na seleção brasileira no Campeonato Sul-Americano de 2016, na Argentina, com o sub-18, e no ano passado nos Jogos Sul-Americanos Escolares, na Bolívia, com o sub-15. Nas duas ocasiões, fiquei responsável pelo grupo de velocidade. Para o treinador, ser chamado pela Confederação para treinar a seleção é algo muito gratificante, estar representando o País. E é um grande aprendizado, porque está com outros treinadores, outros atletas. Acaba sendo uma motivação para o trabalho ser cada vez melhor. Também já participei de vários campings da confederação, que é outra oportunidade para aprender. São atividades que duram entre três dias e até uma semana.

JC - E fora do atletismo, o que você gosta de fazer?

Neto - Gosto bastante de viajar, ir para a praia, já estive em alguns países da América do Sul. Eu também gosto de viajar com meus pais e sair, ir a restaurantes, passear na região. Eu não sou de sair à noite, mas nos períodos de folga gosto de viajar e conhecer novos lugares. Também sou fã de aviação. Cheguei a pensar, quando era criança, em ser piloto de avião, mas o esporte acabou sendo mais forte. E gosto muito de natureza, observar paisagens como rios, matas. Acho isso bacana. Tanto que em alguns momentos do ano, levo meus atletas para treinar no Horto Florestal ou em estradas de terra. É uma forma de mudar o ambiente. E, no geral, ficar com a família. Sempre tive muito apoio do meu avô, do meu tio e do meu pai, que sempre foi o principal exemplo para mim, e dos meus irmãos. Tudo o que consegui até agora é graças ao apoio da minha família.

Perfil

Alcides dos Santos Gonçalves Neto nasceu em 14 de setembro de 1981 (38 anos), em Bauru, é filho de Alcides Altino e Arlete Terezinha e irmão de Thiago e Giovanni. Casado com Flávia Regina, é torcedor do Noroeste e do São Paulo (90% Noroeste e 10% Tricolor, afirma) e gosta de filmes de ação e aventura. Na música, aprecia sertanejo, pop rock nacional e internacional. Evangélico, tem como livro de cabeceira a Bíblia e também os livros profissionais de fisiologia. Dá nota 10 para os seus pais e nota 0 para a corrupção.