09 de julho de 2026
Geral

Depois da morte declarada, Stephano 'reinicia' a vida com fé


| Tempo de leitura: 4 min

Ana Beatriz Garcia
Fé e superação: Maria Inês Belgo nunca desacreditou na recuperação do filho Stephano

Uma viagem de férias para visitar os irmãos levou Stephano Belgo Galvan a Portugal, sete anos atrás. E o que começou, por lá, com um abscesso no dente se tornou uma grande luta pela vida e uma história de muita fé. O então chef de cozinha, com 28 anos na época, somente foi retornar ao Brasil depois de três anos e três meses de internação, devido a uma parada cardiorrespiratória durante um exame. Nesta batalha diária, ele, que mora hoje no Estoril, em Bauru, conta com a ajuda de sua mãe, Maria Inês Belgo, que, com muita crença em Deus, nunca deixou de acreditar na recuperação do filho, mesmo quando sua morte cerebral foi diagnosticada pelos médicos lusitanos.

Tudo começou quando, em um final de semana, Stephano sentiu uma forte dor de dente. "Não havia plantão odontológico. Então, quando chegou o dia útil, eu o chamei de manhã para irmos ao hospital e ele já estava com um edema", explica Maria Inês.

Stephano deu entrada no Hospital de Braga com um abscesso, tendo-lhe sido diagnosticado uma Angina de Ludwig, uma celulite envolvendo os espaços submentonianos, sublingual e submandibular entre os tecidos conjuntivos e os músculos. Trata-se de uma doença infeciosa grave e potencialmente letal, mas que geralmente é curada com terapia antibiótica adequada.

COMPLICAÇÕES

"Depois de quatro horas da entrada dele no hospital, eu pude vê-lo na emergência e ele já estava desesperado, porque começou a fechar sua garganta. Ele estava com dificuldade para respirar. Mas, quando eu questionei o hospital, o médico disse que quem determinaria a hora de atender seria ele", conta Maria Inês Belgo. "Lá (em Portugal), o tratamento era muito frio. Eles não me explicavam o que estava acontecendo, falam o estritamente necessário", completa.

Maria Inês explica que o filho aceitou ser entubado e induzido ao coma, passou por exames e cirurgias e, durante a realização de uma tomografia axial computorizada, um tubo que o estava ventilando extubou (saiu do lugar), causando uma parada cardiorrespiratória de cerca de 10 minutos, o que deu origem a uma Encefalopatia Anóxica-Isquémica.

MORTE DECLARADA

Depois de dois meses e meio na UTI, Stephano foi para uma ala chamada "Cuidados Intermédios", onde médicos deram o parecer sobre a reabilitação para Maria Inês. "O médico-chefe da área me disse que ele teve morte cerebral e não havia mais o que fazer. O neurologista afirmou que ele não acordaria mais e, caso isso acontecesse, não teria nenhuma memória. A terapeuta da fala (profissional equivalente à fonoaudióloga, no Brasil) disse que ele não conseguiria mais comer pela boca e falar. Também o oftalmologista informou que ele estava cego", relembra, ainda emocionada.

OITO BADALADAS

Segundo ela, Stephano passou três anos cego e os olhos dele faziam movimentos rápidos, mas ele voltou a enxergar. Assim como ela comenta que nunca desistiu de apostar na melhora do filho. "Quando me falaram, eu pensei: 'Deus tem que ser maior que isso'. Fui para Santiago de Compostela, na Espanha, fazer uma peregrinação que é muito forte. Próximo ao altar, pedi a Deus que me desse um sinal se o meu filho fosse sobreviver. Eram 15h30 e o sino tocou, foram oito badaladas, o mesmo número de letras do nome dele. Não preciso nem dizer que eu desabei em uma emoção tão forte de alegria, acreditei que o médico dos médicos estava me dando a certeza de que ele estava vivo", diz.

MELHORAS

Facebook/Reprodução
Nas redes sociais, a página "Ajudar o Stephano" mostra imagem com diversas fotografias do então chef de cozinha, antes do ocorrido

Stephano não só acordou, como passou a responder a estímulos. "Tudo que acontece na vida do Stephano é um pequeno milagre. Eu não tinha apoio dos profissionais, ninguém acreditou na melhora dele. Eu mesma procurava como estimular a fala, como estimular o paladar", afirma Maria Inês.

Em 2015, ela e o filho retornaram ao Brasil com ajudo do governo de Portugal e da Cruz Vermelha e foram para Bahia, onde morava o pai de Maria Inês, na época. Depois de um ano e meio, com auxílio da Prefeitura de Bauru, vieram para a cidade natal de Maria Inês, onde Stephano morou por 15 anos, antes do ocorrido. "Hoje, ele enxerga e lembra de coisas que, às vezes, eu não lembro. Ele come os alimentos cortados em pedacinhos, ingere líquido e fala. Em dezembro, ele realizou uma aplicação de botox para tratar o bruxismo, que era muito forte. Por conta disso, está sem falar e comendo comida apenas pastosa", explica.

Em Bauru, Stephano passou por um programa intensivo de fonoaudiologia na clínica da USP e recobrou uma dicção melhor. "Foram os primeiros profissionais que acreditaram no meu filho. Lá, um neurologista olhou as imagens do cérebro dele e disse que não sabe como ele pode ter todos esses avanços na fala, já que perdeu boa parte do funcionamento do encéfalo", diz.

Stephano, hoje com 35 anos, também é atendido pelo Sistema Único de Saúde (SUS), realiza atendimento de fisioterapia em casa pela Faculdades Integradas de Bauru (FIB), recebeu atendimento pela Equipe Multidisciplinar de Atenção Domiciliar (Emad) e frequentou a Associação de Pais e Amigos Excepcionais (Apae). No último dia 10, ele ainda recebeu a primeira eucaristia e o sacramento do crisma, na Paróquia São Cristóvão, no Jardim Europa.