09 de julho de 2026
Geral

Entrevista da semana: Ildebrando Gozzo

Marcele Tonelli
| Tempo de leitura: 6 min

Samantha Ciuffa
Ildebrando Gozzo fala da carreira, família e atuação social

O ano era 1971, época considerada um divisor de águas na vida do paranaense Ildebrando Gozzo. Aos 20 anos, ele era promovido em uma seguradora de um banco do Rio de Janeiro e, como missão, teria que montar uma filial no Estado de São Paulo. Entre as dezenas de cidades, a única familiar, pelo menos por nome, era Bauru. Foi inspirado pela denominação do famoso lanche, que sempre apreciou em viagens pelo Brasil, que o então inspetor de produção escolheu o município para iniciar sua prospecção profissional.

Chegou por aqui com apenas três peças de roupa e começou sua carreira vendendo seguros cidade afora em viagens de carona e ônibus. Casou-se, teve três filhos e alçou voos ainda maiores dentro do então Banco Bandeirantes, chegando a atuar como gerente nacional de vendas da seguradora do banco, no Rio de Janeiro, até 1987. Mas, o medo da violência e a paixão por Bauru o fizeram voltar, em 1993. Anos depois, ele criou sua atual empresa, a ST Seguros, hoje referência nacional em seguro de frotas de veículos de locadoras.

Paralelo à profissão, o paranaense, que se considera bauruense de coração, integra a diretoria da Associação Comercial Industrial de Bauru (Acib), como 2.º vice-presidente, e o Comitê Gestor de Micro e Pequenas Empresas da prefeitura.

Por aqui, também se dedicou a dois conselhos municipais, foi presidente da Creche e Berçário São Paulo por dois mandatos, além de vice-presidente da Associação das Entidades de Assistência e Promoção Social (Aeaps).

JC - Quem é Ildebrando Gozzo? Fale um pouco sobre a sua infância...

Aceituno Jr.
Apaixonado pelo lanche Bauru, o paranaense Ildebrando Gozzo conta que escolheu Bauru para montar filial pela familiaridade com o nome lanche

Ildebrando Gozzo - Sou nascido em União da Vitória, no Paraná. Tenho oito irmãos e perdi minha mãe aos 4 anos de idade, em decorrência de um câncer. No mesmo ano em que ela faleceu, meu pai, que tinha um secos e molhados, "quebrou". Ele conseguiu se restabelecer uns dois anos depois e fomos morar em um sítio em São Gerônimo da Serra. Nesta época, eu estava na adolescência e vendia frutas na cidade. Foram tantas correrias e mudanças pelo Paraná até aí que nem amigo de infância eu consegui ter. Aos 13 anos, resolvi entrar para um seminário e passei três anos lá.

JC - Quando o senhor começou sua trajetória profissional? Teve alguma influência?

Ildebrando - Logo após sair do seminário, em 1969, eu consegui meu primeiro emprego, com ajuda de um irmão mais velho, em uma companhia de seguros em Curitiba. Eu morava com meu irmão, mas era um garoto caipira, não sabia muita coisa. Só que sempre fui observador e não tinha hora para ir embora, me preocupava apenas com a escola. Em dois meses, eu já datilografava bem e pedia para ajudar em outras tarefas. Com isso, fui aprendendo vários serviços. Dois anos depois, eu já era conferencista técnico da empresa. Nesta época, conheci o Ernani Bandeira de Luna, que era gerente da sucursal de uma seguradora. E ele foi minha grande influência, além de ter sido como um pai. Apostou em mim e me levou para o Rio de Janeiro para conhecer o presidente da companhia. Eu trabalhava na Seguradora Inconfidência do Banco Bandeirantes.

JC - E foi neste encontro que o senhor recebeu a promoção e escolheu abrir uma filial em Bauru?

Arquivo Pessoal
Família no Santuário Sagrado Coração; na parte de trás (da esquerda para direita): Ana Cristina (nora) Guilherme (filho), Camila (filha) e Marcelo (genro); na frente: Mariana (neta), Carol (nora), Henrique (neto, no colo), João Vitor (neto), Maria Clara (neta), Maria Alice (esposa) e Ildebrando

Ildebrando - Sim, eu não conhecia nenhuma cidade do Estado de São Paulo que ele (presidente da companhia) me apresentou. A que me parecia mais familiar era Bauru, por causa de nome do lanche, que eu sempre gostei por sinal. Cheguei aqui, em 1971, com três peças de roupas, viajava de ônibus e pedia carona para vender seguros, porque não tinha habilitação e muito menos carro. Hoje, eu olho para trás e nem sei como consegui fazer aquilo tudo. Nesta época, conheci minha esposa.

JC - O senhor se considera um cara muito família. Conte mais sobre o Ildebrando como pai e esposo?

Arquivo Pessoal
Ele e a esposa Maria Alice durante viagem recente na Argentina

Ildebrando - Quando eu era pequeno, viajava muito e vivia na casa dos outros, não tínhamos tanta estrutura. Acho que, por isso, eu sempre tive uma vontade doida de ter minha família. E o Ernani foi meu grande incentivador a casar, tanto que até foi meu padrinho de casamento. Minha esposa era professora da prefeitura em Bauru, ela é minha grande companheira, sempre abdicou dos empregos para me seguir. E eu também desisti de grandes cargos pela família. Em 1983, por exemplo, virei gerente nacional de vendas da seguradora do Banco Bandeirantes, mas, quatro anos depois, voltamos para o Interior, porque eu me preocupava com a violência e meus filhos. Ainda hoje, eu troco tudo por um almoço de domingo com eles e meus netos. A minha maior conquista na vida não foi profissional, mas sim pessoal: minha família.

JC - De volta a Bauru, o senhor resolveu empreender e montar seu próprio negócio, né? Quais as perdas e ganhos?

Arquivo Pessoal
Pai 'coruja' com os filhos: Otávio, Camila, Ildebrando e Guilherme

Ildebrando - Antes de voltar para Bauru, fui gerente do Banco Bandeirantes em São Carlos. Foi em 1993 que voltei para cá. Em 1999, montei a ST Seguros e, hoje, somos líder em seguro de frotas de veículos de locadoras. Temos 4 mil clientes em território nacional. Eu penso que poderia ter empreendido antes na vida. Esperei muito por causa do conforto de ter bons cargos e salários. Não é fácil trocar o holerite por pró-labore. Na verdade, financeiramente nem sei se acertei tanto assim, mas a felicidade que tenho em ver meus funcionários crescendo na vida com um negócio que é nosso é uma sensação incrível.

JC - Quando o senhor passou a fazer parte da Acib, algum motivo pessoal?

Ildebrando - Em 1997, o Cássio Carvalho, então presidente, me convidou, junto com o Reinaldo Cafeo, para ser diretor de expansão. Hoje, sou o 2.º vice-presidente. Sempre tive como desafio vencer. Então, eu faço tudo que vejo como oportunidade para fazer algo a mais pela sociedade, empresarialmente ou pela família.

JC- Por aqui, o senhor também foi militante paroquiano e até já presidiu uma creche na periferia da cidade. Quais os benefícios humanos que esses cargos lhe trouxeram?

Ildebrando - Eu fui seminarista, né? Minha ligação com a religião sempre existiu, mas, foi após um grave acidente que sofremos, no qual eu e minha esposa fomos parar na UTI, que minha fé aumentou ainda mais. Nessa época, eu estava empreendendo e todo o dinheiro foi embora com gastos médicos, mas nos recuperamos. Recebi o convite do padre tempos depois para ser do conselho administrativo. O convite para presidir a Creche São Paulo veio em 2004 e foi algo que me fez muito bem. Foram quatro anos de contribuição social. O sorriso e o abraço daquelas crianças me valiam o dia.

JC - O senhor está há 50 anos no ramo de seguros e, pelo visto, não pensa em parar. O que te motiva?

Ildebrando - Gosto de ver as pessoas e empresas conseguindo recompor a vida através do seguro. Acho que é uma profissão digna.