10 de julho de 2026
Geral

Pesquisa da FOB/USP estuda impactos dos agrotóxicos na audição

Cinthia Milanez
| Tempo de leitura: 3 min

Malavolta Jr.
Pesquisas são orientadas pela professora de Fonoaudiologia da FOB Andrea Cintra Lopes

Produtos comumente utilizados nas culturas agrícolas, os agrotóxicos são alvo de uma tese de doutorado desenvolvida pelo Programa de Pós-Graduação em Fonoaudiologia da Faculdade de Odontologia de Bauru (FOB/USP). O trabalho estuda o impacto destas substâncias na audição. Inclusive, este sentido humano está em evidência neste mês, uma vez que a Organização Mundial da Saúde (OMS) celebrou o Dia Mundial da Audição em 3 de março.

Arquivo Pessoal
Amanda Bozza desenvolve a pesquisa com três grupos diferentes de trabalhadores rurais

A pesquisa é orientada pela livre docente do Departamento de Fonoaudiologia da FOB, Andrea Cintra Lopes.

A tese está sob responsabilidade da fonoaudióloga Amanda Bozza, que analisa três grupos de trabalhadores: um exposto apenas ao ruído, outro aos agrotóxicos de diversas culturas e o último está sujeito aos agrotóxicos das plantações de fumo, especificamente.

Ainda de acordo com Andrea, as plantações de fumo são altamente tóxicas para o Sistema Nervoso Central (SNC), não só pelo uso de agrotóxicos, mas pela própria planta, que também é prejudicial.

A coleta de informações se deu na região de Irati, no Norte do Paraná, que abriga a maior produção de fumo do País. Ao todo, 40 trabalhadores de cada grupo responderam o questionário e todos, sem qualquer exceção, apresentaram alterações no sistema auditivo.

Porém, o grupo formado por fumicultores teve problemas auditivos mais graves. "Inclusive, perdemos dois trabalhadores, vítimas de câncer", observa a orientadora.

Andrea defende, ainda, que não é contra o uso de agrotóxicos. "A nossa intenção é fazer com que as pessoas - especialmente, os pequenos produtores - tenham a informação sobre a aplicação correta dos produtos, bem como o uso dos EPIs adequados", observa.

Em tempo: a pesquisa é realizada apenas com os trabalhadores rurais e não envolve quem ingere os alimentos com agrotóxicos.

OUTRA FRENTE

Arquivo Pessoal
Karlla Cassol estuda os comportamentos e as atitudes das gestantes frente aos agrotóxicos

Outra tese desenvolvida pelo Programa de Pós-Graduação em Fonoaudiologia da FOB é de autoria da fonoaudióloga Karlla Cassol, que estuda comportamentos e atitudes das gestantes frente aos agrotóxicos.

Neste caso, a pesquisa teve início em 2016 e está para ser concluída entre o final deste ano e o início do próximo. Karlla investiga o comportamento, as atitudes e as práticas das gestantes agricultoras em todo o território nacional, principalmente, no Estado de São Paulo, além das regiões Sul e Norte do País.

O objetivo secundário do estudo consiste em informar, a partir dos resultados, toda a classe trabalhadora. A ideia é levar as orientações aos serviços de saúde, que recebem estas mulheres. "Elas têm de ter cuidados como separar a roupa contaminada para lavar e manipular adequadamente os alimentos", exemplifica Andrea Cintra Lopes, orientadora da tese.

Para a realização do trabalho, Karlla contou com o apoio dos Centros de Referência em Saúde do Trabalhador (Cerests) e das Unidades Básicas de Saúde (UBSs). Até o momento, 500 grávidas responderam o questionário aplicado.

Por enquanto, a pesquisa identificou carência de informações acerca do uso dos agrotóxicos e dos efeitos nocivos à saúde humana. "Por não ter cheiro ruim, a gestante acredita que o produto não fará mal para si ou para o bebê". revela Andrea.

Segundo ela, que também preside a Comissão de Audição, vinculada ao Departamento de Audição e Equilíbrio, da Sociedade Brasileira de Fonoaudiologia, muitas crianças nascem prematuras ou com baixo peso, fato que pode ter relação com a contaminação por agrotóxicos.

Falando nisso, há dois tipos de intoxicação, a aguda e a crônica. No primeiro caso, os sintomas aparecem dentro de algumas horas. No segundo, levam até 5 anos, se houver exposição continuada ao produto.

Já os sintomas mais comuns são: tontura, vertigem, dor de cabeça, distúrbios alérgicos, incoordenação motora, paralisia, distúrbios de equilíbrio e alterações em todo o sistema auditivo. Em casos mais graves, a literatura apinta que a contaminação provoca neuropatias e câncer.