09 de julho de 2026
Geral

Episódios de 2019 trazem a reflexão sobre a importância de viver o hoje

Tisa Moraes
| Tempo de leitura: 4 min

Uma das frases mais ouvidas neste começo de ano é "2019 já pode acabar" ou, então, "cancelem 2019". São pedidos, que, obviamente, não guardam relação com a realidade, mas que expressam a tristeza e o descontentamento das pessoas diante de tantos episódios trágicos registrados nos primeiros meses deste ano no País.

Em janeiro, o rompimento da barragem de Brumadinho (MG) matou 210 pessoas e ainda contabiliza outros 96 desaparecidos. Em fevereiro, um incêndio no treinamento do Flamengo, no Rio de Janeiro, resultou na morte de dez jogadores da base do clube.

Já em março, dois atiradores mataram oito pessoas e depois cometeram suicídio no ataque à Escola Estadual Professor Raul Brasil, em Suzano (SP). Nesta semana, em Bauru, outra notícia comoveu os moradores: mãe e filha morreram depois de serem arrastadas pela enchente dentro do carro em que estavam. Além disso, a cidade segue assustada com o registro de dez mortes por dengue em 2019.

Diante de tantas notícias tristes, é natural que as pessoas se solidarizarem com as vítimas e familiares e, muitas vezes, se coloquem no lugar delas e sintam dor e tristeza diante da incompreensão que um número tão grande de mortes traz. Porém, como seguir adiante, sem se deixar tomar pelo pessimismo e viver, da melhor forma possível, o ano que não vai terminar tão já?

Reprodução Facebook/Divulgação
Psicóloga Ivana Priscila Maia da Rocha fala que é preciso aprender a viver mais o hoje

Para a psicóloga Ivana Priscila Maia da Rocha, o momento em que a finitude da vida se torna tão próxima é uma oportunidade para reavaliar prioridades e aprender a viver o hoje, dedicando mais tempo à família, aos amigos e aos hábitos que trazem bem-estar. "As pessoas se dão conta de que podem morrer por uma fatalidade, um desastre ou pela imprudência do outro. É o momento para perceber que elas podem adotar novas atitudes. Preocupar-se sim com sua segurança e viver a vida com muito trabalho e busca de realizações, mas dando mais atenção à família, ao seus filhos, à sua alimentação, ao lazer. Ou seja, aprender a desfrutar mais o hoje", detalha.

Como exemplo desta mudança, a profissional, que também lida com adolescentes em seu consultório, conta que foi surpreendida com o crescimento significativo da preocupação de pais sobre o comportamento dos filhos, pacientes dela. "Muitos me procuraram perguntando sobre o que poderiam fazer para ajudá-los a superar uma situação de sofrimento e evitar, por exemplo, que eles pudessem fazer algo parecido como o que ocorreu em Suzano", observa.

PESSIMISMO E EMPATIA

Renan Casal
Professor do Departamento de Psicologia da Unesp de Bauru, Sandro Caramaschi

Professor do Departamento de Psicologia da Universidade Estadual Paulista (Unesp) de Bauru, Sandro Caramaschi pondera, contudo, que a somatória de ocorrências trágicas tendem a provocar um efeito subjetivo sobre os indivíduos, que passam a ter uma visão menos favorável da realidade como um todo. "As pessoas tendem a projetar novas desgraças e ficar mais pessimistas, inclusive, em relação a outras esferas da vida, como na dimensão política e econômica. É claro que é uma reação que varia de pessoa para pessoa. Algumas, mais desiludidas, vislumbram aqueles eventos acumulados como uma crise, enquanto outras veem uma possibilidade de melhoria, de superação", aponta.

É evidente que a dimensão da dor e do luto é maior para quem era próximo das vítimas envolvidas nas tragédias. Caramaschi destaca, contudo, que casos como estes, com a grande relevância que ganham nos meios de comunicação, inevitavelmente geram impacto, em alguma medida, no restante da população.

"Elas podem ficar mais pessimistas, mas, por outro lado, também se solidarizarem, muitas vezes até se mobilizando concretamente para formar redes de apoio a quem precisa. Porém, a publicidade que cada tragédia ganha e o quanto o evento gera identificação com a realidade destas pessoas têm papel determinante para provocar esta empatia", cita.

Como exemplo, é possível citar o baixo engajamento entre brasileiros diante da passagem do ciclone Idai, que já deixou mais de 550 mortos em Moçambique, Malawi e Zimbábue. A estimativa da Organização das Nações Unidas (ONU) é de que pelo menos 2,8 milhões de moradores tenham sido afetados.

Especialista diz: tem de ir além da superfície

Fotos: Malavolta Jr.
Alessandra Lopes, do Departamento de Psicologia da Unesp

É esperado que, em meio à comoção diante de uma tragédia, os indivíduos manifestem reações como tristeza, pesar, raiva, revolta, preocupação e insegurança. Porém, segundo a professora Alessandra Lopes, do Departamento de Psicologia da Unesp, há quem esteja atento ao não se contentar com informações superficiais e buscar explicações para compreender os motivos que resultaram na tragédia, como forma de reivindicar mudanças.

Psicóloga e professora universitária Sandra Elena Sposito

"Do mesmo modo que conseguimos nos acolher nas tragédias, precisamos estar cientes de que são necessárias ações políticas, sociais e de educação que olhem para o que produzimos de melhor e pior em pequenos e grandes grupos", alerta.

A mesma visão é compartilhada pela psicóloga e professora universitária Sandra Elena Sposito. Para ela, conformar-se com a sensação de que "as coisas estão difíceis" em 2019 é fechar os olhos para a complexidade das causas que envolvem estas ocorrências.

"Quanto mais se constrói uma visão de que estes fatos são aleatórios, mais aumenta a sensação de insegurança. Foram fatos construídos pela ação humana, por negligência ou como resultado de uma sociedade que tem padrões violentos para a resolução de conflitos. Ao entender estas ocorrências a partir de suas causas, as pessoas têm mais condições de agir sobre o mundo na tentativa de preveni-los", completa a especialista.