09 de julho de 2026
Articulistas

Momo, os seus e os nossos desafios!

Rita Melissa Lepre
| Tempo de leitura: 3 min

A boneca Momo, com sua imagem bizarra, olhos grandes e esbugalhados (que tudo veem), boca fina com sorriso sinistro e pálida como um cadáver, volta a assustar crianças na Internet. Supostamente os vídeos da Momo aparecem incidentalmente durante outros vídeos infantis e sugerem ações violentas às crianças que vão desde a automutilação até a agressão aos pais, irmãos e amigos, com o uso de facas e outros objetos.

Pode ser assustador, mas não é novo! Já vimos outros fenômenos virtuais parecidos como o desafio da Baleia Azul (Blue Whale) que provocou o suicídio de crianças e jovens, a transformação da Fada do Fogo (Rússia) que ao solicitar que crianças acendessem fogões durante a noite, provocou queimaduras e mortes, os "jogos da morte" um tanto quanto comuns no Japão, entre outros.

O porquê de existir pessoas que propõem e disseminam tais "jogos" e quais os seus reais objetivos parece não ter resposta única, uma vez que é um fenômeno multifacetado e pode estar relacionado a desvios de caráter com causas diversas, problemas psiquiátricos, sociais e morais, entre outros e que podem ser pensados e analisados em outra oportunidade. O que pretendemos refletir nessa pequena explanação refere-se aos cuidados que pais e educadores podem ter na tentativa de proteger as crianças e adolescentes desse tipo de ataque humano cibernético.

É fato que a internet pode oferecer informações e entretenimento em todos os setores e para todas as idades e que se tornou algo presente na vida de crianças, jovens e adultos que, cotidianamente, acessam seus conteúdos navegando em sites e redes sociais diversos.

Os limites de seu uso na infância, normalmente, são (ou deveriam ser) sinalizados pelos adultos que buscam legislar sobre o tempo de permanência e os conteúdos que podem ser acessados. A questão é que essa regulação nunca será 100% eficaz. Portanto, o que fazer?

A melhor proteção que um adulto pode oferecer às crianças no que se refere a esse tema é, sem dúvida, uma educação pautada em princípios éticos-morais, nos afetos e atenção, no acolhimento e respeito e, sobretudo, nos vínculos que permitam diálogos reais e honestos. Conversar com as crianças é uma ação humana, pedagógica e afetiva que permite não apenas informar, mas também conhecer os medos, angústias e dúvidas infantis.

A Momo "conversa" com as crianças, explora seus medos e ansiedades, ataca suas fraquezas, chantageia por meio de conteúdos "tabus" muitas vezes não tocados por pais e professores. Ela não desafia apenas as crianças. Ela desafia a nós, pais e educadores, sobre nossos próprios limites e nossas ações educativas, muitas vezes insípidas e superficiais.

A responsabilidade não é apenas dessa boneca ou pessoas atrás dela, uma vez que são criminosos e obviamente não respeitam padrões éticos e humanos. A responsabilidade é, sobretudo, nossa que muitas vezes não nos comprometemos o suficiente com uma educação que precisa sim ser pautada em valores morais, diálogo, afeto, acolhimento, cuidado e conhecimento.

Só quem pode educar um ser humano é outro ser humano. A Momo, a Baleia Azul, a Fada do Fogo não são humanas, ainda que "humanos" estejam por trás delas. Os pais e educadores, estes sim, são humanos, reais e presentes, no tempo, no espaço e no espírito infantil que tem que ser humanizado para diferenciar, refletir, rejeitar e resistir às investidas daquilo que destrói e incita à violência e destruição.

Esse desafio é nosso! Que possamos, como humanos, sermos mais fortes e convincentes do que um inerte sorriso pálido sustentado por um método padronizado que comunica instruções a um computador. Que as nossas vozes, enquanto pais e educadores, ecoem mais alto e com mais sentido nos ouvidos de nossas crianças!

A autora é professora, psicóloga, mestre e doutora em Educação e livre-docente em Psicologia da Educação.