09 de julho de 2026
Articulistas

Dívida a ser resgatada

Archimedes Azevedo Raia Jr.
| Tempo de leitura: 3 min

Desde os anos 1990, quando a Rodovia Marechal Rondon foi duplicada, uma grave falha foi cometida pelo Estado para com o povo bauruense. Naquela época, com um volume de tráfego muito menor do que o atual, porém, já bastante significativo, o Departamento de Estrada de Rodagens (DER) promoveu a necessária duplicação. No entanto, não incluiu no projeto a construção do viaduto da avenida Cruzeiro do Sul.

Apesar da real necessidade da obra, o seu planejamento cometeu um grande erro, ao interromper a ligação da avenida Cruzeiro do Sul, feita em nível do solo até então. Esta interrupção do tráfego nesta importante via fez com que o seu fluxo veicular fosse desviado para as avenidas Duque de Caxias, Rodrigues Alves e Nações Unidas. Talvez pouco percebido na época, esse fluxo adicional foi crescendo ano a ano, tornando-se, nos dias atuais, uma sobrecarga nas demais artérias.

Esta obra era, e ainda é, extremamente importante, fato este devidamente reconhecido pelo diretor da Agência de Transportes do Estado de São Paulo (Artesp), Pedro Brito, conforme matéria do JC, em 20.03.2019, quando afirma que "O viaduto sobre a Rondon, na altura da avenida Cruzeiro do Sul, em Bauru, é uma necessidade técnica e de engenharia."

O resgate da dívida poderia ser contemplado quando do processo de concessão da rodovia, onde constam as devidas melhorias que devem ser providenciadas pela concessionária ao longo do horizonte do projeto. O que também não foi feito. Neste sentido, e na mesma matéria citada acima, Brito afirma que "Na instalação das marginais, avaliamos com o setor de engenharia que este viaduto, na altura da avenida Cruzeiro do Sul, tinha de ter sido implementado lá na origem. Sua exigência é técnica, mas não contemplada no atual contrato de concessão." Pela segunda vez o Estado não quita a sua dívida com os bauruenses.

Ainda que não fizesse parte do pacote de melhorias a serem promovidas no trecho urbano de Bauru previsto na concessão, uma vez que o canteiro de obras está montado, seria agora o momento para que o Estado resgatasse essa antiga dívida com a cidade, pois, como enfatiza a matéria do JC, Brito é enfático ao afirmar peremptoriamente que "Nossa indicação é técnica e será no sentido de que a implantação será necessária". Portanto, a hora é agora. Não importa se a obra vier através de "repactuação do programa, ou pela via direta do Orçamento".

A cidade irá sofrer bastante com a construção das marginais, uma vez que a sua acessibilidade ao tecido urbano sofrerá expressiva redução em relação à hoje existente. Há que se ressaltar que esta modificação no traçado geométrico da rodovia é fundamental para a segurança do tráfego de passagem na área urbana da Rondon. Porém, este impacto poderia ser mitigado, em parte, minimamente com a construção do viaduto.

Esse seria o momento para que o Estado, contando com a sensibilidade do governador, resgatasse essa persistente e onerosa dívida com Bauru. O povo bauruense merece e espera que este gesto de bom senso realmente se concretize, afinal, mais de 56% dos votos válidos na última eleição foram atribuídos ao governador Dória.

O autor é especialista em trânsito, professor sênior da UFSCar e diretor de Mobilidade da Assenag.