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| Nova modalidade de pagamento foi anunciada nos últimos dias |
Com a economia em prolongada crise e a inadimplência e desemprego em massa, o consumidor brasileiro terá à sua disposição mais um perigoso convite ao endividamento: o crediário no cartão. A novidade anunciada pela Associação Brasileira de Cartões de Crédito e Serviços (Abecs) é, de um lado, vista como oportunidade para que os pequenos lojistas consigam oferecer prazos mais longos. Mas, para a realidade brasileira, a falta de educação financeira e a ansiedade "consumista" são ingredientes propícios ao superendividamento.
Ainda restam dúvidas sobre a forma de funcionamento do "novo crédito". Tanto que o Procon-SP notificou a Abecs para que realize esclarecimentos (leia mais abaixo). O fato é que, na prática, toda vez que o consumidor inserir seu cartão em uma máquina terá, pela proposta, a possibilidade de realizar o pagamento por três opções: débito, crédito e crediário. A "novidade do crediário no cartão" é, por exemplo, possibilitar que o cliente possa, no ato, parcelar em até 36 vezes.
Hoje, quem compra pelo cartão pode pagar na hora (debitar direto em sua conta bancária) ou adiar o pagamento para a fatura do cartão (em até 30 dias no crédito). E quem não consegue pagar a fatura mensal do cartão tem à disposição o parcelamento da dívida do cartão (rotativo). E aqui começa a morar o enorme perigo. A cultura de consumo aliada à falta de educação financeira e a "mania" de boa parte dos brasileiros comprar no cartão sem observar o que estão pagando (a mais) de juros no cartão - que, por si só, é convite natural à inadimplência - ganham mais um risco: o superendividamento.
ALERTA
O economista Reinaldo Cafeo adverte. "O brasileiro já paga juros muito elevados na compra com cartão. E paga também caro quando não consegue honrar a parcela mensal do cartão de crédito. Com o desemprego elevado, mais de 12 milhões sem carteira assinada, e inadimplência nas alturas (mais de 62 milhões de devedores), a oferta do crediário no cartão é mais um risco ao superendividamento", adverte.
A explicação para o endividamento em excesso é conhecida do mercado. "O brasileiro não tem o hábito de calcular quanto está, de fato, pagando por um produto ou um serviço no cartão de crédito. A regra geral é verificar apenas se a parcela e se o valor ficam aparentemente baixos para o que ele ganha. A educação financeira exige que o raciocínio seja inverso. O consumidor deve observar quanto sobra de seu salário depois de separadas todas as despesas obrigatórias. E, aí, ele verifica se, do que sobra do salário, se a parcela cabe em seu orçamento e por quantos meses. O ideal é juntar para comprar à vista sempre que possível. Mas a maioria não faz isso", acrescenta.
VÁRIOS PONTOS
O crediário com cartão tem mais de uma face. Para o lojista "pequeno", é oportunidade de oferecer prazos longos e competir com "grandes" nesse item. O risco passa a ser do banco. E o lojista recebe em 5 dias. No pagamento via crédito simples, no cartão, o dinheiro entra no caixa do lojista em torno de 30 dias.
Mas há outros pontos. O consumidor precisa se conscientizar da oportunidade de pedir descontos se pagar à vista. Porque o "custo" do "empréstimo" pelo crediário no cartão não vai existir. O problema é que o sistema abre duas frentes para a inadimplência. Quem não consegue pagar a parcela mensal integral do cartão de crédito hoje já paga mais caro (juros elevados) no parcelamento rotativo. Se este consumidor entrar no rotativo e efetuar outra compra pelo crediário, vai se complicar em dobro.
Para a economia, o crediário no cartão também merece indagações. Se o Brasil já pratica custo alto do "dinheiro", com juros estratosféricos em razão do alto risco (desemprego de quase 14 milhões de pessoas e 62 milhões na lista de inadimplência), o crediário pode alimentar ainda mais o endividamento.
Neste caso, o efeito sobre a economia é ainda pior, a médio prazo. "A curto prazo, dar crédito é bom para o mercado. Mas sem emprego e sem renda, a situação macroeconômica não rompe esse ciclo e o efeito em seguida é ruim. Não se resolve essa questão, para o País, sem recuperação do emprego", aponta Cafeo.
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Procon-SP quer esclarecimentos
A Fundação Procon-SP, vinculada à Secretaria da Justiça e Cidadania, notificou a Abecs a prestar esclarecimentos sobre o sistema de parcelamento com juros no cartão de crédito lançado recentemente pela instituição. A empresa deverá informar qual a diferença entre o sistema tradicional de parcelamento com juros em vigor no mercado e essa nova modalidade "crediário no cartão" e se a última já está sendo oferecida aos consumidores; se há intenção de substituir a modalidade já existente por esse novo crediário; e se a máquina do cartão apresentará em sua tela informações ao consumidor de forma clara e completa (opções de simulação, valor final da compra e valores à vista, a prazo e de cada parcela).
A associação terá ainda de explicar como será estabelecida a taxa de juros para essa nova modalidade; se, sendo estabelecida pela própria instituição financeira baseada nas informações internas (por exemplo, perfil de risco), o consumidor mais vulnerável não ficará prejudicado; qual o benefício do novo sistema para o consumidor e, em casos de inadequação, quais providências serão adotadas pela Abecs. O Procon-SP ressalta que o pedido de esclarecimento visa resguardar os direitos dos consumidores e garantir que não sejam prejudicados.
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Associação defende alternativa
A Abecs informa, através da assessoria de imprensa, que encaminhará todas as informações solicitadas dentro do prazo determinado (48 horas). Para a associação, o crediário é uma nova modalidade de parcelamento de compras por meio do cartão de crédito, que "contribui para que os brasileiros tenham mais opções e condições de pagamento na hora de realizar suas compras, com praticidade e segurança".
Segundo a Abecs, a diferença em relação ao atual "parcelado lojista" é que, com o crediário, o parcelamento é disponibilizado ao consumidor pelo próprio emissor do cartão, permitindo prazos maiores de financiamento a custos competitivos - o número de parcelas e a taxa de juros podem variar de acordo com cada emissor. Mas a modalidade não substitui as atuais opções.
A preocupação com clareza na fixação de taxa de juros não foi respondida pela Abecs. "As taxas de juros praticadas no crediário serão estabelecidas pelos emissores de cartão, de acordo com suas políticas de concessão de crédito".
No comércio, a Abecs considera que o consumidor se beneficia diretamente da competitividade que o crediário gera, apostando em melhores condições de preço e prazo. "E passa a ter maior poder de negociação na hora da compra no que se refere a uma diferenciação de preços quando do pagamento à vista frente ao pagamento a prazo, uma vez que, com o crediário, o repasse do valor da venda ao lojista é feito de forma antecipada e em até cinco dias". O consumidor poderá fazer simulações das condições antes de confirmar a contratação.
Sobre o risco de superendividamento, a Abecs posiciona que o "uso consciente do cartão de crédito é uma preocupação constante da associação e de todo o setor de meios de pagamento. A Abecs possui uma campanha voltada à educação financeira que já conta com quase 180 milhões de visualizações. Para o crediário, a Abecs lançou duas videoaulas, nas quais, além da explicação sobre como funciona o novo produto, também é abordado o tema do uso consciente e planejamento financeiro", menciona.
A associação aponta que, conforme pesquisa Datafolha, apenas 4% usam o rotativo do cartão, que, hoje, corresponde a 0,8% de todo o volume de crédito financiado à pessoa física no Brasil.