Em uma casa em que ninguém escuta ninguém. Em que a ideia de família há muito foi para o espaço . Em que muito se agride e outro tanto se apanha. Em que o ódio mina seboso das frinchas das paredes. Em que a roupa suja há tempo não vê sabão. Em que os ratos, deixando o porão, passeiam pela mesa de jantar... Em casa assim, remédio não há, a não ser que, com o espírito desarmado e com a boca limpa, muito se queira conversar.
Conversar sim, porque, na sala de jantar, as pessoas estão ocupadas em se estapear, pendurando no dedo acusador vinganças pérfidas e ameaças iguais. Enquanto isso acontece, muita gente está morrendo à mingua nos corredores dos hospitais. Nas ruas e periferias, chovem balas, muitas perdidas, outras nos corpos encontradas. É o caos, desespero, sangue e polícia, famílias destroçadas, bandidos, facções e milícias. Mas as pessoas, na sala de jantar, continuam ocupadas em se estapear.
Em tempos assim, bom seria não ter ouvidos, tampouco olhos, difícil suportar o que, diariamente, se vê e se lê: malas gordas de propina, enxurrada grossa de lama assassina e muito sangue escorrendo da tevê. Nossos políticos, ilibados heróis da ideologia, estão atrás das grades (triste sina) por overdose de propina. Em Brasília, no centro do poder, o pai, o filho (menos o espírito santo), deputados e ministros, todos tuitam, mas ninguém consegue se entender.
Falam do azul e do rosa, o que se deve vestir na menina e no menino, e que na escola se cante o hino, depois não canta não, melhor deixar pra lá. Falam do professor armado, do buraco da previdência, mas que cortem a carne do outro que a minha ninguém vai cortar. Caciques vaidosos se agridem, cuspindo nos microfones adjetivos do mais amargo fel. Impossível encontrar saída, se não há língua compreensível nessa Brasília de Babel. Na suprema corte de justiça pouca gente confia, pudera magistrados do mal e do atraso tecem conchavos com pitadas de psicopatia.
O jornalista Clóvis Rossi no artigo "Contra o ódio é preciso conversar", enaltece o presidente francês, Emmanuel Macron, por convocar um debate nacional, com mais de 10 mil reuniões realizadas no país. O que querem, enfim, os coletes amarelos? E a elite pensante quer o quê? Jornalistas, filósofos, historiadores, economistas, professores, artistas, trabalhadores,todos convidados a conversar. Só que nenhuma conversa é possível quando as torcidas organizadas, confundindo a bandeira, pensam estar em arquibancada de jogo de futebol. Não estamos jogando bola, mas voando em nave desgovernada. Difícil aceitar que exista, dentro do mesmo avião, gente torcendo para no chão ele espatifar. Como bem disse Rossi, "cultivar o ódio é com o fracasso namorar".
Segundo o recente Relatório Mundial da Felicidade, o brasileiro anda cabisbaixo. Pudera, amargamos o 32º. lugar entre 156 países. Em apenas quatro anos, caímos 16 posições. Triste constatação, não há como negar. Estamos em queda livre e recusamos conversar.
Com todo respeito ao genial Nelson Rodrigues, criador da expressão "a pátria em chuteiras", é preciso reconhecer que a nossa bola anda murcha. Como esquecer os 7 a 1? Melhor seria a pátria descalçar as chuteiras para que essa bola fanática, que tanto o povo brasileiro divide, parasse de rolar.
O autor é professor de redação e autor de obras didáticas e ficcionais - curso_romag@uol.com.br