11 de julho de 2026
Nacional

Corpo de Antunes Filho, o mestre de gerações de artistas, é cremado

Estadão Conteúdo
| Tempo de leitura: 7 min

Patrícia Santos/Estadão Conteúdo
Antunes Filho estava com câncer no pulmão. Ele completaria 90 anos em dezembro

Antunes Filho morreu como planejava: sem se afastar do palco. Sua última peça, "Eu Estava em Minha Casa e Esperava que a Chuva Chegasse", estreou em setembro do ano passado no festival Mirada, em Santos. Era mais uma montagem no contexto de uma carreira extensa - foram mais de 60 anos dedicados ao teatro. O velório ocorreu no Teatro Anchieta, no Sesc Consolação, na região central da capital. Por volta das 17h30, o corpo foi cremado.

O diretor, porém, ainda tratava cada peça como uma situação de risco máximo, fazia e refazia as cenas ensaiadas à exaustão, exigia apuro em cada gesto e em cada voz, tinha ganas de mudar tudo mesmo que faltassem poucas horas para as cortinas se abrirem.

O encenador, cuja trajetória se confunde com a do moderno teatro brasileiro, não será lembrado apenas pela sua genialidade. Antunes acreditava em trabalho - horas, dias, meses de dedicação, pesquisa e suor. E foi assim, exigindo sempre a potência máxima de seus atores, que se tornou mestre de gerações: Laura Cardoso, Eva Wilma, Miriam Mehler, Raul Cortez, Stênio Garcia, Cacá Carvalho, Giulia Gam, Marco Antonio Pâmio, Luís Melo, Arieta Côrrea, Lee Thaylor e tantos outros.

Para criar "Macunaíma" (1978), Antunes trabalhou durante um ano inteiro, mais de dez horas por dia. O resultado, um marco do teatro brasileiro de todos os tempos, representou um ponto de inflexão na carreira do artista - momento em que ele deixou de ser um encenador competente para tornar-se um artista que experimenta e vai adiante em tudo o que faz. Mantendo-se fiel ao texto de Mário de Andrade, o que significava deixar de lado qualquer psicologismo e passar a lidar com os pressupostos inexplicáveis da magia, o espetáculo também bebia nas influências que alterariam o seu teatro e significariam uma profunda renovação para as artes cênicas brasileiras. De repente, é como se acertássemos o passo o contexto internacional - bebendo na estética de Bob Wilson, de Tadeusz Kantor e da arte Povera - mas sem deixar de lado uma brasilidade que se exprimia em cores e formas.

A repercussão nacional e internacional - "Macunaíma" tornou-se a peça brasileira mais vista e aplaudida no exterior - abriu espaço também para uma nova forma de criação. Seu grupo de atores passa a se chamar também Macunaíma e surge o importante CPT - Centro de Pesquisa Teatral. A partir desse momento, o diretor prefere lidar com intérpretes mais jovens.

Recentemente, tinha-se, por vezes, a sensação de que seus elencos não possuíam a envergadura necessária para dar corpo às suas ideias. Mas o diretor perseverava, acreditando que primeiro era preciso formar um ser humano completo, com independência de pensamento, para que só depois surgisse o ator. Controverso, chamado por muitos de tirano e autoritário, desenvolveu uma rigorosa e singular metodologia: um sistema de técnicas e meios expressivos que envolvia Stanislavsky, Brecht e ia além.

Antunes não lidava com a ideia da novidade pura, mas do novo que surge em relação ao acúmulo e ao diálogo com as tradições. Antes da revolucionária versão para a rapsódia de Mário de Andrade trabalhou no Teatro Brasileiro de Comédia - TBC, onde esteve ao lado dos encenadores italianos Adolfo Celi, Ruggero Jacobbi e Luciano Salce. À época, já era um acurado diretor de atores, mas criava peças bem-feitas, quase de entretenimento. São desse período criações como "Plantão 21" (1959), obra em que explora recursos cinematográficos. Nesse começo de carreira, seu objetivo parecia criar com o maior realismo possível. Um caminho que começa a se inverter em "As Feiticeiras de Salem" (1960), uma controversa encenação do texto de Arthur Miller.

O encontro com Nelson Rodrigues também foi um marco e o autor pairou como obsessão para Antunes pelo restante de sua carreira. Seu primeiro contato com essa dramaturgia se deu com "A Falecida" (1965). E irá frutificar em outras obras como "Nelson Rodrigues - Eterno Retorno" (1981), "Nelson 2 Rodrigues" (1984) e "Paraíso Zona Norte" (1989). Nelas, o diretor situou o grande dramaturgo no lugar que lhe é devido. Retirou-lhe do terreno das comédias de costume, chave em que muitos ainda leem suas criações, para situá-lo no campo mítico. Para o crítico Sábato Magaldi, Antunes Filho conseguia "colocar Nelson na altitude dos gregos".

Em meio a tão vasta produção, também merece um olhar cuidadoso sua incursão pelas tragédias clássicas: caso de "Fragmentos Troianos" (2000) e "Medeia" (2001). Ainda que não tenham sido unanimemente bem-recebidos, os espetáculos marcariam o seu vocabulário estético e vinham depois de um traumático episódio para o diretor: a saída do ator Luís Melo.

Desde "A Hora e a Vez de Augusto Matraga" (1986), uma aplaudida versão da obra de Guimarães Rosa, Antunes via em Melo o ator com o qual levaria seu método a uma potência máxima. Em "Drácula e Outros Vampiros" (1996) foi obrigado a retroceder em muitos de seus avanços e a buscar novas estratégias para continuar. Mergulhou nas atividades do CPT e de lá a sairia a série Pret-a-Porter. Seria o caminho para Antunes sistematizar suas práticas estéticas e perseguir o seu sonho maior: ter o ator como senhor absoluto do palco.

A MORTE

O diretor Antunes Filho estava internado no Hospital Sírio Libanês, em São Paulo, com câncer de pulmão e morreu na noite desta quinta-feira (2). O diretor completaria 90 anos em 12 de dezembro deste ano.

Nascido em São Paulo, José Alves Antunes Filho foi um dos discípulos dos diretores do Teatro Brasileiro de Comédia. Ficou conhecido por desenvolver um método teatral experimental que formou diversas gerações de atores.

Nos anos 1980, criou o Centro de Pesquisas Teatrais (CPT), grupo de produção, formação e desenvolvimento de métodos de interpretação para o ator, atualmente localizado no Sesc Consolação, no centro da capital. Foi lá que ele recebeu a reportagem em sua última entrevista ao jornal O Estado de S. Paulo, em agosto do ano passado. Ele ensaiava Eu Estava em Minha Casa e Esperava Que a Chuva Chegasse.

Na ocasião, o espaço estava tomado por cadeiras espalhadas aleatoriamente e havia uma mesa de cor escura, colocada à frente, no centro. "Explicações? Não dou. O público tem que fazer sua própria dramaturgia: espero que cada um saia do espetáculo com sua própria história", observou o encenador. "Todos saindo como uma espécie de Marcel Duchamp, ou seja, como alguém que transforma o banal em arte."

Genial e controverso, Antunes desenvolveu uma obra fortemente ligada à política e à renovação estética nos anos 1960 e 1970. Nos anos 80, a peça Macunaíma projetou sua carreira, inclusive para fora do Brasil. Ele deu continuidade a seu processo de pesquisa em montagens como Nelson Rodrigues - O Eterno Retorno (1981); Romeu e Julieta (1984), com Giulia Gam e Marco Antônio Pâmio; e Xica da Silva (1988), entre tantas outras. Também foram marcantes seus teleteatros exibidos na TV Cultura.

Nas redes sociais, artistas e personalidades lamentaram a morte do diretor teatral.

O ator Paulo Betti escreveu em seu Facebook: "Adeus Antunes Filho! Sua direção em Macunaíma ficará pra sempre na minha memória! Viva o Teatro! RIP".

"Foram 11 dias torcendo por sua recuperação. Não adiantou. Perco um grande amigo e todos nós perdemos um grande artista", escreveu o cenógrafo J. C Serroni.

O escritor Marcelo Rubens Paiva também se manifestou. "Fui para dramaturgia por conta do Antunes Filho. Como fã e aprendiz. Fiz CPT (Centro de Pesquisas Teatrais) e segui toda sua obra, de Macunaíma a Nelson. Inclusive sua antidramaturgia. Sua morte não precisava. Especialmente agora, que a cultura precisa resistir! Preferiu partir, ao ver o Sesc ser atacado."

"Antunes Filho, um dos maiores diretores de teatro de todos os tempos do Brasil, acaba de falecer. Luto no teatro. Luz infinita à ele. Obrigada por sua arte Antunes", escreveu Leona Cavalli, atriz

"O teatro brasileiro de luto! Hoje quem nos deixou foi Antunes Filho, um dos maiores diretores teatrais do Brasil. Meus sentimentos aos familiares e amigos", disse Walcyr Carrasco, escritor e roteirista

"Não tenho a manha de dizer para as pessoas o quanto gosto delas. Mas tenho certeza que você já sabia. Você sempre soube de tudo", registrou o dramaturgo e diretor Mário Bortolotto.

"Foi-se Antunes Filho, mestre que me iniciou nas artes, assim como fez tantos outros atores, atrizes, autores e diretores de teatro. Gratidão, Magrão", anotou o jornalista e apresentador Marcelo Tas.