O mestre do exorcismo
Padre que atua nesse ministério em Bauru, Guido Mottinelli foi convidado a ministrar um curso em Roma sobre o exorcismo para auxiliar na formação de padres europeus
| Douglas Reis |
| Atuante na Casa do Garoto, padre Guido Moitinelli é um dos 30 padres exorcistas em todo o Brasil |
| Arquivo pessoal |
| Dia da ordenação de Guido Mottinelli em 30 de abril de 1973 |
Nascido em Milão, na Itália, logo após a 2.ª Guerra Mundial, Guido Mottinelli não tinha pretensão em ser padre quando se tornou coroinha aos 7 anos. Mas não demorou até ele atingir a juventude e vestir a batina. Hoje, em Bauru, o padre Guido contabiliza 46 anos de história no sacerdócio, três deles dedicados a um dos ofícios religiosos mais curiosos e enigmáticos: o exorcismo.
Considerado um mestre no ritual na Igreja Católica, ele foi convidado a ministrar palestra e um curso sobre o exorcismo para mais de 700 padres europeus, nos dias 7 e 8 de maio, na Pontifícia Universidade Europeia de Roma. Ao final do evento, os padres receberão uma espécie de certificação para o exorcismo. A formação parte de um pedido feito recentemente pelo Papa Francisco, que pretende colocar padres exorcistas em todas as dioceses.
Pertencente à Congregação dos Padres Rogacionistas, o padre Guido é doutor em teologia, fala nove idiomas e integra uma lista de 30 padres exorcistas em todo o Brasil. Também possui um programa, de terça às 20h, no canal RS21 (parabólica).
Em Bauru há 7 anos, ele atua na paróquia Nossa Senhora das Graças, conhecida como Casa do Garoto, no parque Vista Alegre, e é na secretaria da igreja que o ministério do exorcismo costumam acontecer.
Jornal da Cidade - Quando o sacerdócio entrou na sua vida?
Padre Guido Mottinelli - Tenho outros três irmãos e fomos criados em um momento que havia muita pobreza, fome e desemprego na Itália, por causa da Guerra. Não sabíamos o que era ter geladeira e TV em casa, as roupas eram aproveitadas até do avesso. Mas éramos muito unidos e eu gostava de ir à igreja. Aos 7 anos, me tornei coroinha e, aos 10 anos, entrei para o seminário, mas não tinha pretensão de ser padre. Sentia, contudo, uma alegria e encantamento com as histórias das viagens dos padres missionários. O tempo passou e quase todos meus colegas desistiram do sacerdócio, mas eu continuei. Me formei em filosofia e teologia e fui ordenado padre aos 25 anos.
| Arquivo pessoal |
| Guido Mottinelli, ao centro, com seus irmãos Maria e Battista (em memória) |
JC - Como veio parar no Brasil? E em Bauru?
Pe. Guido - No ano em que me ordenei, uma nova casa Rogacionista seria aberta em Brasília e me mandaram para lá junto com outro padre mais velho. Em 2 meses já fazia meus primeiros sermões. Depois, fui enviado para Criciúma, em Santa Catarina, onde fiquei 20 anos. Passei mais 10 anos em Brasília, outros 10 anos em Passos, Minas Gerais, e há 7 anos estou em Bauru.
JC - Como se tornou um exorcista, possuía alguma sensibilidade maior quando criança?
Pe. Guido - Aconteceu há 3 anos, eu nem imaginava. O dom Caetano, bispo na época, me chamou e disse que o Conselho Presbiteral da Diocese havia me escolhido para ser exorcista. Antigamente, durante o estudo da teologia, recebíamos o ministério do exorcismo, chamado de ordem menor. Então, não tive muita dificuldade e passei a atuar logo após o chamado.
JC - Há grande procura pelo exorcismo?
Pe. Guido - Aumentou muito. São dezenas de chamados. Eu e a secretária da paróquia não damos conta de tudo. Pessoas de outras dioceses são enviadas pelos bispos. Outro dia, em um programa de TV em canal de parabólica, eu falei por 43 minutos e recebemos mais de 700 ligações. A falta de integridade com a fé é uma das portas de entrada para o demônio, assim como o pecado da luxúria e da carne. A sociedade precisa evoluir, os valores se perderam e o produto de consumo não ajuda ninguém a crescer.
JC - Como você diferencia a doença da possessão?
Pe. Guido - Converso muito antes de atender, porque pessoas em tratamento médico nos procuram e, na maioria das vezes, não é caso de exorcismo. Há uso indiscriminado de medicações. Muita gente tem a ilusão de que o exorcismo é um benefício prático e que pode resolver problemas até de ordem não espiritual. Percebo que há possessão quando a pessoa começa a falar outras línguas, apresenta força superior ao normal e demonstra ódio a tudo o que é sagrado, como a oração e a água benta. Na hora da imposição da estola há muitos gritos também.
JC - Quais as situações mais difíceis ou curiosas que já enfrentou durante um exorcismo?
Pe. Guido - Atendi uma mulher que subiu pelas paredes até o teto. Em todos os atendimentos temos muito cuidado e sempre peço para que o marido venha junto, porque é possível que elas tirem as roupas. Atuo, geralmente, com dois ou mais ajudantes, que sei que não irão se apavorar. Também já atendi um homem que estava sentado de frente conversando comigo em uma mesa e, de repente, ele se levantou, virou a cadeira para a parede e, enquanto eu falava, a cabeça dele girou inteira (180 graus) e me alcançou olho no olho. Já vi pessoas rastejarem como cobra e com o olho todo preto. Tem gente que é jogado da cama, à noite, pelo demônio.
JC - Algo mudou na sua vida pessoal depois dos rituais contra o demônio?
Pe. Guido - Passei a rezar ainda mais e a renunciar a muitas coisas para manter meu equilibro acima de tudo. Se há uma pessoa que o demônio detesta é o exorcista. Antes do ritual, eu rezo muito e faço jejum de tudo, não só de gula, mas de qualquer desejo, nem TV eu vejo. Passo a maior parte do tempo recluso, com uma vida mais retirada, não frequento festas de nenhum tipo. Meu Natal é uma sopa em casa. Estou em Bauru há 7 anos e não sei, por exemplo, onde fica um cinema ou estádio de futebol. Meu autodomínio maior causa medo no demônio e inibe sua ação.
| Arquivo pessoal |
| Foto mostra Guido Mottinelli aos 10 anos junto com sua turma no Seminário de Milão, na Itália |
JC - De que forma a igreja Católica tem encarado o exorcismo?
Pe. Guido- O ministério do exorcismo não é exclusivo do sacerdócio. Houve confusões ao longo da história e ele foi confundido até com bruxaria. Nos últimos 300 anos, o exorcismo foi colocado de lado pela igreja. O Papa Leão XIII trabalhou para restabelecer e, além de compor orações, instituiu que, depois da benção final nas missas, deveria haver uma reza para São Miguel Arcanjo, mas é algo que se tornou opcional e, hoje, quase nenhuma igreja o faz. Agora, há um movimento do Papa Francisco para aumentar o número de padres exorcistas.
JC - E a sociedade, o tema ainda é tabu, há preconceito?
Pe. Guido - Sim, a sociedade tem medo do exorcismo. Mas é tema que sempre que damos palestras a igreja lota.
JC - Você pretende voltar para Itália um dia?
Pe. Guido - Só para visitas anuais à família, me considero brasileiro.
| Arquivo pessoal |
| Guido Mottinelli em sua primeira missa como padre na capela do Seminário, em Milão, na Itália |
PERFIL
Nome: Guido Mottinelli
Idade: 71 anos
Signo: Gêmeos
Pai/mãe: Giovanni Mottinelli e Adalgisa Prandolini
Irmãos: Maria, Maddalena e Battista (em memória)
Filme: Diário de Anne Frank
Livro de cabeceira: Diário de uma Alma
Música: Clássica
Ídolo: Mozart
Cor: Azul
Palavra preferida: Bem
Hobby: Tocar piano
Para quem dá nota 0: para pessoas falsas
Para quem dá nota 10: para quem pratica a humildade
Contato: (14) 3239-2599 (Secretaria da Casa do Garoto).