09 de julho de 2026
Geral

'A diferença me tornou uma pessoa melhor'

Marcele Tonelli
| Tempo de leitura: 3 min

Fotos: Malavolta Jr.

"Eu não preciso ter cinco dedos, ser diferente me tornou uma pessoa muito mais sensível, que respeita e reconhece mais as dificuldades dos outros e, sobretudo, me deu força de vontade para ir além." A afirmação, que mais se enquadra como lição, é de Guilherme Henrique Silva Alves, 24 anos, portador de uma deformidade hereditária que fez com que ele e várias pessoas de sua família nascessem com apenas um dedo nas mãos e nos pés. Exemplo de superação, o jovem sempre levou uma vida normal e conta como enfrentou as dificuldades e não se intimidou frente ao que para a maioria das pessoas poderia ser um empecilho. Ele enfrentou a limitação. Tirou CNH, atua como auxiliar de cobrança, cursa faculdade de engenharia de software, joga bola duas vezes por semana com amigos, frequenta baladas e já foi até bicampeão de campeonatos de videogame entre colegas de trabalho.

O universitário Guilherme Henrique Alves possui uma doença hereditária, ele nasceu com um dedo em cada mão

Nascido em Presidente Prudente, Guilherme mora há aproximadamente 18 anos em Bauru e narra que o fato de ter apenas um dedo fez alguma diferença em sua vida somente ao entrar na escola ainda criança.

"Para mim nunca foi algo anormal, eu nasci assim. Sempre escovei meus dentes, arrumei meu cabelo, nem sei como me adaptei a isso tudo, simplesmente aconteceu. Eu só descobri a diferença que os cinco dedos causavam na escola, às vezes preciso escrever com as duas mãos", conta.

Ele acredita que a deformidade hereditária venha de uma vacina de um sedativo que sua tataravó teria sido obrigada a tomar. "A gente acha que pode ter sido a Talidomida, mas nunca fui atrás para saber. Nem quero", pontua o jovem, que por encarar bem a situação nunca procurou nenhum tipo de método para contornar ou reparar suas mãos ou pés.

MÃO NO BOLSO

Mas nem tudo são flores. Entre a fase da infância e adolescência, ele diz ter sentido um pouco mais o "peso" da diferença.

"Entre o 5.º e 6.º ano do fundamental lembro que chamavam de capitão gancho. Não era legal, mas eu me defendia entrando na brincadeira, até ria junto. Hoje sei que aquilo era bullying", observa.

A cada novo ambiente e pessoas, as mãos nos bolsos tentavam esquivar ou evitar os olhares e comentários.

"Houve uma época em que eu fazia muito isso. Às vezes, incomodava as pessoas ficarem me olhando, mas confesso que me acostumei com isso e não ligo mais", diz Guilherme.

Outra situação encarada como desconfortável, segundo ele, ainda ocorre. "É quando as pessoas oferecem a ajuda só por notarem minhas mãos. Há alguns minutos mesmo, eu comprei um suco e fui indagado pelo vendedor, que queria me ajudar a guardar o troco na carteira. Eu disse que não precisava e mostrei que conseguia sozinho normalmente", cita.

''UM DIA''

Mas a deformidade nunca foi um empecilho. A única coisa que ele teve vontade e nunca conseguiu até hoje foi tocar violão. "Eu até tentei, mas foi difícil. Como era só por brincadeira, então desisti e nem liguei. Mas bateria eu consegui tocar e fiz até parte da fanfarra da escola", completa sorrindo.

Entre amigos, Guilherme diz ser um jogador vitorioso de Xbox e conta ter vencido dois campeonatos de videogame organizado pela galera do trabalho. "O pessoal ficava de cara comigo, com a habilidade que eu tinha mesmo com um dedo só", salienta.

No futebol, duas vezes por semana, é a mesma coisa. "Eu jogo no meio campo e corro bastante. Sou um dos mais atuantes. O problema era só quando o pessoal inventava de tirar ''dois ou um' ou 'joquempô'. Aí eu ficava de fora e era escolhido depois", brinca.

A deformidade também não o impediu de tirar habilitação para dirigir assim que completou a maioridade. "Tenho habilitação especial, mas dirijo carros normais e não adaptados se precisar. Até de moto eu sei conduzir, tá?", fecha questão.

No primeiro ano do curso de engenharia de software, com aulas semipresenciais na Unicesumar, ele diz qual seu sonho daqui a alguns anos: trabalhar como programador no Google.

Se ele é habilidoso com os teclados? "Dizem por aí que digito muito mais rápido que muita gente no meu trabalho, e olha que o pessoal é focado", finaliza aos risos.