| Douglas Reis |
| A zeladora terceirizada Margarete Apetito percebeu que o sumiço das peças virou algo constante |
Ao que tudo indica, as inscrições "descanse em paz" não são a realidade de aproximadamente 300 túmulos do Cemitério da Saudade, em Bauru. De dois meses para cá, os trabalhadores do local constataram o sumiço frequente de imagens, placas e crucifixos de bronze. Inclusive, funcionários da Emdurb, responsável pela administração da necrópole, e terceirizados alegam que já levaram o problema à gerência. A empresa, por sua vez, diz que não tinha dimensão da situação, mas pretende tomar providências. Sem quaisquer registros oficiais, as polícias dizem ficar de mãos atadas (leia mais abaixo).
A zeladora Margarete Apetito é terceirizada e faz a limpeza de alguns jazigos. Porém, teve a sua renda mensal prejudicada, porque muitos fregueses desistiram do serviço. "Eles falam que não estou cuidando direito das sepulturas, porque passaram a ser furtadas com frequência, mas não tenho condições de ficar 24 horas por dia em cima de um único túmulo", acrescenta.
Ainda de acordo com ela, os ladrões estão cada vez mais especializados. "Antes, sabíamos que eram 'noias', porque levavam itens de pouco valor. Agora, só furtam objetos caros, como santos de bronze. Tem um jazigo que ficou sem o José. Logo, logo, eles voltarão para pegar a Maria", arrisca.
Além disso, a zeladora revela que o crime costuma ocorrer, preferencialmente, à noite, afinal, o cemitério não possui vigias. Porém, existe a possibilidade de incidência, também, durante o dia. "O lugar é enorme e os trabalhadores não se sentem seguros em abordar qualquer pessoa em atitude suspeita", justifica.
| Fotos: Douglas Reis |
| Imagens, crucifixos e placas de bronze teriam sido furtados |
Já o auxiliar geral Ademilson Franco, funcionário da própria Emdurb, alega que levou o problema à gerência do Cemitério da Saudade. "Eu, como servidor, sou muito cobrado pelo pessoal que limpa os jazigos. Contudo, a administração diz que os proprietários devem procurar pela polícia e registrar a ocorrência", informa.
| Onda de furtos de peças de bronze teria começado há 2 meses |
Recentemente, um cadeado foi estourado. Outro dia, ocorreu o mesmo com a cerca de concertina. "A gerência só sabe porque eu enviei as fotos e, em seguida, pediu para consertar. Ninguém desce no cemitério para ver a situação ou conversar com os trabalhadores", critica.
Na última semana, o Jornal da Cidade também recebeu uma carta, escrita à mão, de um leitor. Nela, ele diz: "comunicamos o funcionário responsável pelo cemitério, o qual alegou não poder fazer nada, não querendo imprensa nem policiais envolvidos".
OUTRO LADO
Questionado, o diretor de Manutenção e Modais da Emdurb, Daniel Chan Escobar, alega que a gerência não recebeu qualquer reclamação, por parte dos funcionários da empresa, que dimensionasse o contratempo.
Segundo ele, a administração acolheu uma única denúncia proveniente de uma trabalhadora, que é terceirizada. Então, o proprietário da sepultura foi acionado e registrou um boletim de ocorrência (BO).
Daniel informa que, nos últimos 12 meses, a Emdurb contabilizou seis comunicados acerca do problema, sendo três somente neste ano.
Ainda de acordo com o diretor de Manutenção e Modais da empresa, o Decreto 13.063, datado de 2016, dispõe sobre as responsabilidades em relação aos jazigos.
O artigo 74 determina que a administração dos cemitérios não se responsabiliza por itens furtados. "Não temos autonomia para fazer BO sobre túmulos, porque não sabemos se os proprietários querem os nomes ligados ao documento", argumenta.
No entanto, se houver depredação no entorno da necrópole, como quebra de cadeados e cercas, a Emdurb aciona a Polícia Civil, como o fez recentemente.
REUNIÃO
Ao tomar ciência da situação, por meio da reportagem do JC, Daniel deverá marcar uma reunião junto às polícias Militar e Civil. "Se o crime acontece, é porque tem alguém que compra os itens furtados. Precisamos bater em cima dos receptadores, ou seja, é uma questão de segurança pública", reforça.
O diretor também procura orientar os proprietários das sepulturas a optarem por mensagens, fotos e enfeites de pedra, no lugar do metal. Paralelamente, os servidores são aconselhados a comunicar a gerência tão logo identificarem qualquer problema do tipo.
|
CÂMERAS DE SEGURANÇA
Uma das formas mais eficazes de coibir furtos e roubos é a instalação de câmeras de segurança. O auxiliar geral Ademilson Franco relata que o Cemitério da Saudade possui três equipamentos do tipo, sendo um particular, cujo proprietário colocou o aparelho para proteger o jazigo da família. Outras duas câmeras são da própria empresa. "Só a do dono do túmulo funciona", denuncia.
Já o diretor de Manutenção e Modais do órgão, Daniel Chan Escobar, garante que existem seis equipamentos, localizados em pontos considerados críticos, e todos operam perfeitamente.
|
|
NO SÃO BENEDITO
Após a denúncia da zeladora Margarete Apetito, a reportagem se deslocou até o Cemitério São Benedito, situado na quadra 8 da avenida Castelo Branco, na Vila Independência. Embora ninguém tenha concedido entrevista, o JC constatou que havia muitos jazigos depredados.
Imagens, placas e crucifixos de bronze não estavam por lá. Uma servidora, que pediu para não ser identificada, se limitou a dizer que o "sumiço" decorria de furtos.
Além disso, uma leitora contatou o JC. Ela disse que 99% dos túmulos da necrópole tinham sido furtados. Do jazigo da sua família, até o crânio da mãe da denunciante desapareceu. "Fui falar na administração, mas esta me ignorou", escreveu. Já Daniel Chan Escobar, diretor da Emdurb, alega que nenhum BO foi registrado pelos proprietários das sepulturas do cemitério, pelo menos, neste ano.
|
Emdurb lançará aplicativo com fotos dos túmulos
Diretor de Manutenção e Modais da Emdurb, Daniel Chan Escobar revela que, ainda no final deste mês, a empresa lançará o App dos Cemitérios. Inicialmente, a ferramenta funcionará apenas no Cemitério da Saudade, que abriga mais de 5 mil jazigos.
O aplicativo ajudará o munícipe a localizar a sepultura da família. Ele mostrará fotos recentes do túmulo. Com isso, o proprietário conseguirá constatar se houve alguma depredação.
A Emdurb, por sua vez, também terá um controle maior sobre estas ocorrências e não dependerá apenas de denúncias por parte dos trabalhadores das necrópoles.
A ideia é credenciar os jazigos novos e aqueles que forem sendo utilizados. Em seguida, a empresa visa realizar um chamamento público para que os proprietários regularizem as sepulturas e, consequentemente, façam o cadastro junto ao aplicativo.
Sem registros oficiais por parte das vítimas, polícias esbarram em grande subnotificação
Comandante da 1.ª Companhia da Polícia Militar (PM) de Bauru, o capitão Bruno Mandaliti afirma que, de janeiro até agora, a corporação não recebeu qualquer chamado ao Cemitério da Saudade. Na Civil, segundo ele, havia apenas três registros referentes a este ano.
Com pouco ou nenhum comunicado oficial, não tem muito o que fazer. "Por que existe a necessidade de registro? Estes furtos ocorrem à noite ou durante o dia? É homem, mulher ou uma quadrilha? Enfim, estas informações precisam ser apuradas com base em fatos concretos. Logo, a subnotificação atrapalha bastante", frisa.
De qualquer forma, o capitão se mostrou aberto, caso a Emdurb solicite a ajuda da corporação.
A Polícia Civil também pensa da mesma maneira. Coordenador do Setor de Investigações Gerais (SIG), o delegado Rogério Monteiro garantiu que a instituição dará início às investigações o mais breve possível.